Otávio de Souza/Futura Press
Otávio de Souza/Futura Press

Yane volta ao Recife como heroína

Familiares, amigos, fãs e, claro, autoridades, foram ao aeroporto recepcionar a 1ª medalhista olímpica individual de Pernambuco

ANGELA LACERDA / RECIFE, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2012 | 03h04

Jeito tímido, simples, sem estrelismos, a sertaneja de Afogados da Ingazeira, sertão pernambucano, Yane Marques, 28 anos, desembarcou ontem, às 11h50, no Aeroporto dos Guararapes, no Recife, como heroína. No saguão, foi recepcionada com apitaço, faixas e gritos. Familiares com camisetas com seu rosto estampado vieram do sertão para recepcioná-la. Amigos, estudantes do colégio onde treina, admiradores, autoridades, colegas, todos estavam lá representados.

Em carro aberto do Corpo de Bombeiros desfilou sua conquista olímpica, a medalha de bronze no pentatlo moderno na Olimpíada de Londres. No roteiro, que incluiu a Praia de Boa Viagem, Yane era saudada por onde passava e fotografada com aparelhos celulares.

"Quem diria que entre os mandacarus dessa seca nasceria uma flor/ Yane Marques é o seu nome", dizia uma das faixas que enfeitavam a área do desembarque do aeroporto, ao lado de cartazes que expressavam "Esse bronze vale ouro" e "Do sertão para o mundo". "Ela é uma heroína" era uma das frases repetidas em reconhecimento à persistência, disciplina e força de vontade da primeira atleta pernambucana a conquistar o pódio em um esporte individual.

Quinta neta de Otília e José Cerquinha de Fonseca, Yane era descrita pelos orgulhosos avós maternos como "uma criança trelosa (inquieta), ativa, disposta, sempre a subir em árvores, descalça, correndo pela rua, brincando de bola de gude, como um menino". "Vai ter passeata em Afogados", garantiram eles, ainda sem saber a data da visita da neta a sua cidade natal, a 377 quilômetros da capital. "O pessoal fica ansioso para que ela vá logo", disse o avô, mais conhecido como "Zé Coió", ao lembrar que, sempre que vai ao sertão, Yane faz questão de visitar todos os que a conhecem e participaram da sua infância. Ela se mudou para o Recife aos 11 anos, com a mãe, Goretti Fonseca, e os três irmãos.

De família de poucos recursos, Yane enfrentou dificuldades para manter o seu sonho. Foram determinantes sua força de vontade, persistência e disciplina. A mãe sempre esteve ao seu lado, incentivando, e no período de vacas muito magras, quando a filha não dispunha de nenhum tipo de patrocínio ou apoio, ela fazia salgadinhos - "a coxinha era o carro- chefe" - para sustentar a família. "Isto foi de 2003 a 2007", relembrou Goretti.

Ela acompanhou a filha em Londres e, como sempre fez, a impulsionava nas provas aos gritos de "Vai, mainha!" Segundo Yane, escutar o grito da mãe em meio à torcida sempre a revigorava.

Divisor de águas. Em 2009, Yane foi contratada pelo Exército como sargento temporária e passou a contar com a estabilidade de um salário. Ela considera o fato como um divisor de águas na sua vida. Atualmente, conta com uma bolsa atleta do governo de Pernambuco - que vai passar de R$ 1,7 mil para R$ 2,5 mil - e tem a bolsa de estudos da Faculdade Maurício de Nassau, onde cursa o último período de educação física e local onde deu entrevista.

A felicidade da medalha de bronze foi completa, disse ela, por abranger dois requisitos: lealdade e justiça. "Foi um resultado muito justo, não precisei que ninguém caísse do cavalo para ganhar mais alguns pontos."

Apesar da unanimidade quanto ao seu grande mérito pela conquista, Yane disse que ao concluir as cinco provas da categoria - esgrima, cavalo, natação, tiro e corrida - vieram à sua mente cada um dos rostos das pessoas que a ajudaram nas mais diversas formas, do técnico aos seus conterrâneos de Afogados da Ingazeira, que desde as quatro horas da manhã do dia da prova final se reuniram para orar pelo seu sucesso. "Cada um que torceu, que ajudou, que apoiou, contribuiu com um tijolinho para essa medalha", agradeceu.

Tão logo cumpra compromissos - amanhã, será recebida pelo governador Eduardo Campos - ela quer descansar. Serão "duas ou três semanas sem fazer nada, descansando o corpo e a cabeça", disse Yane. Depois, vai traçar seu planejamento de trabalho com seu técnico, Alexandre França, visando a novas competições.

Uma coisa Yane Marques já decidiu: em 2016, ao término da Olimpíada do Rio, que ela espera registre "vários brasileiras e brasileiros competindo no pentatlo moderno", vai se aposentar.

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