Wlliam West/AFP
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'A gente não sabe qual classe pode entrar em Paris-2024’, diz Robert Scheidt

Velejador surpreendeu com anúncio de que não irá aos Jogos de Tóquio, mas não descarta um retorno na Olimpíada francesa

Marcio Dolzan/RIO, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 07h00

Dono de cinco medalhas olímpicas, o velejador Robert Scheidt anunciou que não irá disputar os Jogos de Tóquio-2020, mas nesta entrevista ao Estado não descartou totalmente um retorno em Paris-2024. “A gente não sabe que classe pode entrar, o que pode acontecer”, ressaltou. “O que é importante entender é que eu não estou parando de velejar.” Scheidt também diz torcer para que algum atleta brasileiro  supere suas marcas. “Espero que um dia alguém tenha dez medalhas olímpicas.”

Por que a decisão de não disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020?

Foi uma decisão bastante difícil de ser tomada. Nosso instinto de atleta é de sempre seguir em frente, buscando mais títulos, novos objetivos, e era isso que eu estava buscando nessa transição pra Classe 49er depois da Rio-2016. Durante este ano, deu pra ver que essa é uma categoria que para chegar num nível Top 10 do mundo, precisaria nos próximos dois anos realizar um volume de treinamento por volta de 200 dias por ano na água, entre treinamento e competições. Tendo em vista que eu já vinha sofrendo algumas pequenas lesões, aliado a minha vida pessoal, com dois filhos, e às características dessa classe, que é bem diferente - pra traduzir para quem não conhece, é como um corredor de maratona de repente (passar a) correr 100 metros. Fazer uma mudança dessas com 43 anos não é fácil. Foi muito bom este ano, aprendi muito, mas eu não queria continuar sem ver um resultado na frente. Acho que é muito frustrante, depois de tudo que eu fiz no esporte, seguir por seguir. Foi a primeira vez na minha carreira que não me senti competitivo.

Sua história em Olimpíadas se encerrou, ou você pensa que nos Jogos de 2024, em uma outra classe, pode retornar?

Acho que a partir do momento que tiraram a classe Star, que permitia um pouco mais, limitaram um pouco essa longevidade. Dificilmente eu me vejo hoje competindo numa Olimpíada, mas é claro que na vida a gente nunca sabe o que pode acontecer. Hoje eu digo que não, mas não sei. A gente não sabe que classe pode entrar em 2024, o que pode acontecer... O que é importante entender é que eu não estou parando de velejar. Eu vou continuar na vela, que não se limita só à Olimpíada. Tem classe Star, vela oceânica, America’s Cup, diversas regatas que me interessam. Vai ficar saudade, mas com o tempo vou me adaptar.

Você é casado com a Gintare, que também é velejadora e foi inclusive porta-bandeira da Lituânia nos Jogos do Rio. Você participa de alguma forma da preparação dela?

Ela também está se retirando da vela olímpica, vai parar na classe Laser. Ela é jovem, poderia continuar, mas não é fácil ser mãe de dois meninos e ela quer se dedicar mais a eles. Ela foi a três Olimpíadas, teve bastante sucesso, ganhou um campeonato mundial, ganhou uma prata olímpica em 2008.

A aposentadoria de vocês dois foi uma decisão conjunta?

Não, não. Ela, na realidade, tinha decidido antes que eu. Ela não tinha anunciado ainda, mas no início do ano tinha decidido que não iria mais em frente. Calhou que acabou acontecendo no mesmo ano.

Espera ver seus filhos (Lukas e Erik) competindo em uma Olimpíada?

Seria um grande orgulho. Acho que qualquer pai gosta de ver um filho no evento esportivo mais importante do mundo, mas a gente não quer de nenhuma forma criar qualquer expectativa nele. Não é fácil você ter pai e mãe medalhistas olímpicos, e eu não quero que ele se sinta, em nenhum momento, ser obrigado a fazer o que a gente fez ou fazer o sucesso que a gente fez. O Erik já veleja, está começando, está gostando. Ele joga futebol, um pouco de tênis. O que a gente quer é ver ele praticando esportes.

Qual foi teu melhor momento olímpico?

Difícil dizer... Acho que o momento que me consagrou foi o do bicampeonato olímpico, em Atenas-2004. Foi aquele momento em que praticamente o Brasil todo assistiu à regata final, a minha popularidade aqui aumentou muito. Foi a primeira vez na minha carreira em que eu saía na rua e as pessoas me conheciam, onde quer que eu fosse eles sabiam quem eu era. Mas foram muitos momentos. O primeiro ouro olímpico, em 1996, aos 23 anos foi incrível. A gente fala muito de Olimpíada, mas ter ganho 12 campeonatos mundiais em classe olímpica foi um feito importante também. Tenho muito orgulho de ter ganhado o campeonato mundial de Laser aos 40 anos de idade. É um classe que exige bastante, o mais velho a ganhar tinha 36. Consegui ganhar da molecada.

Como vê a atual geração da vela brasileira?

Acho boa. A gente tem uma geração liderada pela Martine e Kahena, atuais medalhistas de ouro, mas a gente tem a Patrícia Freitas, o Jorginho (Zarif), a Fernanda Oliveira que já vai pra sexta campanha olímpica. Vai ser um ciclo olímpico diferente e um pouco mais difícil para os atletas, porque não vai ter essa facilidade de treinar em casa, no Rio de Janeiro, toda a semana, dormir em casa e comer nosso arroz com feijão. Vamos ter que deslocar pra Tóquio, treinar lá, comer lá, tem o fuso horário. Torço para que a equipe chegue bem forte.

Pouco mais de um ano depois, como vê os Jogos do Rio-2016?

Acho que a Olimpíada em si foi um grande sucesso. Antes dos Jogos a gente sempre tinha muitas questões, pela criminalidade, pelo perigo de acontecer algum atentado, algum atleta ser assaltado, a poluição da Baía de Guanabara para os velejadores... No final das contas não tivemos nenhum grade problema, a Olimpíada foi um sucesso e estão de parabéns. Difícil agora é utilizar o que ficou. Essas grandes obras que se constroem para a Olimpíada são difíceis de se fazer ficarem viáveis e sustentáveis.

E como você vê as denúncias que surgiram agora, com o Nuzman tendo sido preso?

Pra mim é uma grande surpresa. Sempre tive uma relação muito cordial com ele, entre dirigente e atleta. Sempre respeitou muito. Acho que o Comitê Olímpico do Brasil fez um bom trabalho de preparação dos atletas. Desde a minha primeira Olimpíada até 2016 o nível de apoio foi numa crescente. Foi uma grande surpresa. Tem que deixar na mão da investigação, mas as pessoas têm que ser responsáveis pelo que fazem.

Independente do que as investigações apontarem, você acha que isso mancha a imagem do País?

Acho que arranha a imagem da Olimpíada, um pouco. Terminou a Olimpíada, aquela sensação de que tudo ocorreu bem, e agora, depois de um ano, aparecem essas questões. Bota uma mancha na Olimpíada do Rio sem dúvida nenhuma, mas são alguns os responsáveis por isso... Os protagonistas são os atletas, isso que é importante daqui pra frente, que os atletas brasileiros não sejam prejudicados por isso.

Para finalizar: algum atleta brasileiro vai bater suas marcas?

Acho que sim. Os recordes estão aí e uma hora você vai bater. Tem esportes, como natação, que você consegue brigar por mais medalhas em uma Olimpíada, ou canoagem - o Isaquias já está com três medalhas. Vela não, a gente tem a chance de ganhar uma só por Olimpíada. Não é fácil, mas eu acredito que num horizonte de uma ou duas Olimpíadas alguém vai chegar nesse número. E eu vou ficar feliz por isso. Espero que um dia alguém tenha dez medalhas olímpicas.

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