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Werther Santana

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Cavaleiros usam treinos inovadores para o corpo e a mente

Até malabarismo integra método do filho do preparador de Senna

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Gonçalo Junior

13 Fevereiro 2016 | 17h00

O cavaleiro Mario Appel coloca o pé direito em cima da trave de equilíbrio localizada perto do portão 7 do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Depois, o esquerdo. Acha o prumo, firma o corpo, sobe e começa a jogar as três claves para cima fazendo malabarismos. Ele faz o percurso de ida e volta na trave com os malabares voando na altura dos seus olhos. O equilíbrio e a concentração são perfeitos, mas tem alguma coisa errada: um cavaleiro fazendo malabarismo? Cadê o cavalo?

Esse é o xis da questão do treinamento inovador de Mario e outros 11 integrantes da equipe brasileira do Concurso Completo de Equitação (CCE) para buscar uma vaga nos Jogos Rio 2016. É um treinamento que alia meditação, exercícios físicos e até técnicas circenses para melhorar a concentração, equilíbrio, reflexo, coordenação motora, fluidez, controle emocional, enfim, todas as qualidades de que eles precisam quando estão com o animal.

O treinamento é aplicado pelo preparador físico Renato Cobra, que se inspirou no método criado por seu pai, Nuno Cobra, um dos responsáveis pela preparação do piloto Ayrton Senna. “A ideia é lapidar continuamente todos os aspectos que determinam a alta performance”, diz Cobra, que também estudou Filosofia e Medicina Chinesa.

Os cavaleiros celebram a evolução. Horas depois do treinamento no parque, Appel cavalga com Ubi, seu cavalo de velocidade, no Clube Hípico Santo Amaro. Ele compara a única falha que cometeu ao longo do treinamento à clave que havia caído de sua mão lá no parque. “O desafio é manter a concentração constante. Tudo o que eu aprendo lá eu uso aqui.”

Appel já tem o índice olímpico, teve algumas classificações no circuito Senior Top em 2015 e também em Wellington, nos Estados Unidos, mas ainda persegue a vitória em um GP importante. “Eu tinha muita garra e eu muito reativo. Aprendi a ser mais suave. Atento, mas com delicadeza”.

Gabriel Cury, uma das promessas da modalidade, afirma que o treinamento ajuda a suportar os momentos de pressão. Em 2015, no dorso de Grass Valley, levou o prêmio de melhor Young Rider (até 25 anos) em Badminton, na Inglaterra, no torneio mais tradicional da modalidade e qualificatório para os Jogos Olímpicos. “Estou mais focado. Hoje eu consigo esquecer a atmosfera que cerca a prova e me concentrar mais.” Detalhe: cerca de 300 mil pessoas acompanharam o torneio cross-country em Badminton.

O jovem cavaleiro ajudou o Brasil a conquistar um resultado inédito: a quarta colocação individual na final da Copa das Nações no CCE, em Boekelo, na Holanda, ano passado. “Todos os exercícios que fazemos aqui buscam melhorias com o cavalo”, diz Cury.

Renato trabalha com os cavaleiros há 15 anos. O primeiro gostou, indicou para os colegas e a corrente foi crescendo. O problema é conciliar o treinamento com as viagens – a maioria dos cavaleiros se prepara fora do País. Gabriel, por exemplo, viajou na última quarta-feira para a Inglaterra.

Caio Sérgio de Carvalho, diretor de Saltos e chefe da equipe brasileira nos Jogos Olímpicos, afirma que os atletas têm liberdade para aperfeiçoar sua formação e buscar os melhores treinamentos. “O próprio cavaleiro procura melhorar sua condição física. Além disso, as competições, como a Copa das Nações, ajudam no controle emocional e no desenvolvimento do espírito de equipe.”

O CCE é a modalidade mais completa do hipismo e considerada o triatlo equestre. É formada por três provas: adestramento, cross-country e saltos. Vence quem tiver o melhor resultado na soma das três.

No adestramento, o cavaleiro deve conduzir o cavalo para executar movimentos obrigatórios, como passos, trotes e galopes, coreografados ao som de uma música. Nesse caso, o cavalo responde a estímulos do peso do cavaleiro. Por isso são importantes a leveza e a harmonia. “Se eu não encontrar o equilíbrio, o cavalo também fica torto”, exemplifica Gabriel.

No cross-country, o conjunto percorre um percurso externo com obstáculos inspirados no campo. A preparação para essa prova inclui uma sequência de piruetas em uma barra fixa, que lembra os exercícios da ginástica. “O trabalho de superação gera atitude”, define Renato Cobra.

Nos saltos é preciso transpor obstáculos móveis de diferentes alturas mostrando controle e precisão. O preparador físico explica que aquele treino que Appel fez lá no início, andando na trave, simboliza o começo, meio e o fim de uma prova. “O cavaleiro tem de estar preparado para controlar a ansiedade, principalmente quando se aproxima do fim. Por ali é possível descobrir o comportamento do atleta”.

Já deu para perceber que esses ensinamentos não valem só para o hipismo. Prova disso é que Renato já passou por outras modalidades, como atletismo e vela. E chegam também à vida de pessoas comuns, principalmente empresários e profissionais que buscam melhorar a performance diária.

O próprio Appel é executivo do ramo alimentício e levou uma barra fixa para o escritório da sua empresa, presente na lista das que mais crescem no segmento PME nos últimos cinco anos. “Quando você impõe desafios para o corpo e consegue superá-los, você ganha confiança em todas as áreas. E isso volta para a vida”, diz Renato.

Gabriel, que também tem o índice olímpico, afirma que sua vaga na Olimpíada está bem encaminhada. E já programou um treinamento com Renato uma semana antes dos Jogos.

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Gonçalo Junior

13 Fevereiro 2016 | 17h00

Todos os candidatos a integrar o time brasileiro no hipismo nos Jogos do Rio vão treinar na Europa com o neozelandês Mark Todd, bicampeão olímpico. Eles serão avaliados em vários concursos pela comissão técnica, e só em junho ou julho a equipe deverá ser escolhida. “A presença do Mark Todd é uma inspiração para todos. Com ele, nós sabemos que é possível vencer”, diz Gabriel Cury.

Caio Sérgio de Carvalho, diretor de Saltos e chefe da equipe brasileira nos Jogos Olímpicos, explica que a ideia inicial é formar um time grande, com cerca de dez cavaleiros, para depois definir a equipe olímpica, que terá cinco representantes (quatro titulares e um reserva). “Não serão feitas seletivas. Vamos fazer várias observações para preparar os conjuntos para que cheguem bem aos Jogos”, diz.

O chefe da equipe explica que a mesma preocupação com a preparação física e mental dos cavaleiros tem de ser estendida aos animais. “Os cavalos também vivem bons e maus momentos,e precisamos de atenção às contusões e dores musculares, por exemplo.”

A principal meta do Brasil é um pódio por equipes, porque as conquistas individuais são muito difíceis. No último Mundial o Brasil ficou em quinto. O time tem vários destaques. José Roberto Reynoso Fernandez Filho, campeão brasileiro Senior Top 2015 e que defendeu o Brasil nos Jogos de Londres, além de Pedro Junqueira Muylaert, campeão da Liga Sul Americana para Copa do Mundo, vice-campeão brasileiro Senior Top e quinto lugar individual nos Jogos Pan-Americanos de 2015 são alguns deles. Marlon Zanotelli é o melhor brasileiro no ranking mundial.

Um dos nomes mais conhecidos é Rodrigo Pessoa, campeão olímpico em Atenas/2004 nos saltos (individual) e duas vezes medalha de bronze por equipes, além de tricampeão mundial. Se confirmar sua presença nos Jogos do Rio, ele será o brasileiro com mais participações olímpicas em todas as modalidades. Doda Miranda conquistou duas medalhas de bronze por equipes. Pessoa e Doda estão com cavalos novos e ainda não definiram seus conjuntos.

 

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