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Conta de Nuzman na Suíça pode ter recebido repasses de federação de suspeito

Brasileiro repassou por e-mail seus dados bancários no exterior para a IAAF

Jamil Chade / CORRESPONDENTE EM GENEBRA, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2017 | 18h43

Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil) e do Comitê Rio-2016, manteve uma conta na mesma cidade do COI (Comitê Olímpico Internacional), na Suíça, e repassou os seus dados para a entidade controlada por Lamine Diack, acusado de ter recebido dinheiro em troca de votos para a cidade brasileira sediar os Jogos de 2016.

Diack, hoje detido, é suspeito de ter cobrado US$ 2 milhões para dar seu apoio ao Rio. No momento da votação, em 2009, o senegalês era o presidente da poderosa Federação Internacional de Atletismo (IAAF), um dos pilares do movimento olímpico.

Documentos e envelopes encontrados durante a operação policial na casa de Nuzman, na terça-feira, revelaram que o brasileiro não apenas mantinha dinheiro vivo em sua residência em diversas moedas, mas também guardava informação sobre uma conta na Suíça.

Em um dos e-mails retirados de seu computador, no dia 27 de junho de 2014, Nuzman escreveu para Laetitia Theophage, da IAAF, uma mensagem na qual colocava os dados de uma conta na Suíça. Tratava-se de um depósito que deveria ser realizado no banco Societe General Private Banking, instituição financeira dedicava a administrar grandes fortunas. Laetitia, o Estado apurou, era a assistente pessoal do então presidente da IAAF, o próprio Lamine Diack.

Com a conta bancária, Nuzman indicava para onde a IAAF deveria fazer um depósito. “Depois de seu pedido, informo abaixo os detalhes de minha conta bancária”, escreveu Nuzman. O local do banco também é revelador: Lausanne, cidade sede do COI e para onde Nuzman viajou com grande frequência entre 2009 e 2016, durante a preparação do Rio de Janeiro.

O e-mail não detalha o valor do depósito que seria realizado nem o motivo. Na mensagem, porém, ele “agradece” Laetitia por sua ajuda na organização de uma viagem e encerra com "saudações olímpicas". Em março de 2014, Nuzman havia sido escolhido por Diack para ser um dos sete membros de uma recém criada Comissão de Ética da IAAF.

Não se exclui, entre fontes próximas do caso, que o depósito tenha algum motivo relacionado com seu cargo na entidade de Diack. Mas, ainda assim, procuradores querem saber sobre a movimentação dessa conta e eventuais transferências durante o período no qual as obras no Rio ocorreram.

Ao investigar e prender o senegalês, a polícia francesa considerou que a comissão da qual Nuzman fazia parte jamais agiu diante da corrupção conduzida pelo chefe da entidade. Em 2015, o africano passou a ser alvo da polícia e, depois de seu indiciamento, o COI optou por retirar seu cargo de membro de honra.

Agora, um dos trabalhos dos investigadores será o de apurar se a conta em nome de Nuzman serviu para algum objetivo de campanha. Para isso, o Ministério Público Federal pedirá a cooperação da Suíça, o que pode ainda levar algumas semanas para se tornar efetivo.

O Estado apurou que um fluxo ainda importante de dinheiro passou pelos EUA e pelo Caribe, o que exigiu a cooperação da Justiça americana e da Grã-Bretanha. Nuzman insiste que não tem um salário como presidente do COB. Mas, em sua casa, R$ 480 mil em cinco moedas diferentes foram encontradas. “O trabalho a partir de agora é o de seguir o dinheiro”, contou ao Estado um dos agentes implicados na operação.

 

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