Larry S. Smith/EFE
Larry S. Smith/EFE

Coreias fazem história no esporte durante os Jogos de Inverno

Inédita, seleção feminina reúne jogadoras norte e sul-coreanas e já tem quem defenda que a equipe seja nomeada para o Prêmio Nobel da Paz

O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2018 | 22h54

A seleção de hóquei no gelo formada por jogadoras norte e sul-coreanas perdeu nesta terça-feira novamente por 8 a 0 nos Jogos Olímpicos de Pyeongchang. O placar elástico da partida contra a Suécia, no entanto, ficou em segundo plano mais uma vez. Assim como já havia ocorrido na estreia, quando a equipe perdeu para a Suíça, a partida tornou-se o centro das atenções por transpor a barreira do esporte e ser ponto central na tentativa de renovação diplomática entre as duas Coreias, tecnicamente ainda em guerra após o armistício de 1953.

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Nesta terça, por exemplo, apesar da derrota avassaladora para a Suécia, o clima era festivo na arena do hóquei no gelo em Gangneung. Entre os cantos da torcida, o que mais chamou atenção foi o de “nós somos um”. O time é formado por 23 atletas sul-coreanas e 12 norte-coreanas.

Uma prova de que a equipe conjunta de hóquei no gelo da Coreia do Norte e da Coreia do Sul não se limita apenas ao esporte é que uma importante integrante do conselho executivo do Comitê Olímpico Internacional (COI) sugeriu no domingo que o time seja nomeado para o Prêmio Nobel da Paz. “Será algo para reconhecer o sacrifício que fizeram para ajustar suas competições”, disse a americana Angela Ruggiero, quatro vezes campeã mundial de hóquei no gelo e medalha de ouro olímpica, à agência de notícias Reuters.

“Como alguém que competiu em quatro Olimpíadas e sabe que isso não é sobre você, sua equipe ou seu país, eu vi o poder do que foi realizado”, disse.

Outra demonstração de que o placar do jogo pouco importava foi dada por Sarah Murray, treinadora da equipe formada por jogadoras norte e sul-coreanas. “É uma experiência de aprendizagem. Nunca estivemos em uma Olimpíada antes, nunca jogamos contra equipes de alto nível. Então, cada vez que perdemos é apenas um possibilidade de melhorar”, disse.

Essa é a primeira vez que uma equipe “intercoreana” compete em Jogos Olímpicos. Na quinta-feira, o time enfrentará o Japão.

Na avaliação de Kim Sung-han, ministro das Relações Exteriores da Coreia do Sul entre 2012 e 2013, a vizinha do Norte já desponta como favorita a ganhar a medalha mais importante dos Jogos Olímpicos de Inverno: o ouro diplomático. “A Coreia do Norte parece que vai ganhar esse ouro. Sua delegação e atletas estão recebendo todos os holofotes”, disse.

Especialistas em política externa, no entanto, alertam para o fato de que o regime do líder norte-coreano Kim Jong-un estar obtendo reconhecimento internacional e legitimidade sem fazer concessões ou desistir de suas armas nucleares. A Coreia do Norte enviou 22 atletas e uma torcida com 230 membros para os Jogos de Pyeongchang.

Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un, acompanhou por três dias a delegação norte-coreana nos Jogos e no sábado se reuniu em Seul com o presidente sul-coreano Moon Jae-in. Ela aproveitou o encontro para convidar Moon Jae-in para se reunir com Kim Jong-un em Pyongyang “o mais breve possível”. Até o momento, aconteceram apenas dois encontros entre os líderes das Coreias; ambos em Pyongyang nos anos 2000 e 2007 envolvendo o falecido líder e pai de Kim Jong-un, Kim Jong-il, e os ex-presidentes do Sul Kim Dae-jung e Roh Tae-woo.

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O time que reúne as duas Coreias sequer precisa vencer uma partida para fazer história. Juntas, as jogadoras de hóquei no gelo estão realizando em cada lance, em cada passe, o que décadas de diplomacia jamais conseguiu: que os dois lados da fronteira tenham o mesmo objetivo e que, uma vez obtido, seja motivo de comemoração.

O que parecia ser uma região que caminhava a largos passos em direção a uma guerra foi tomada por uma aproximação sem precedentes nos últimos 50 anos. A Coreia do Sul queria usar o evento como instrumento político e, para isso, abriu todas as brechas possíveis, todos os canais existentes.

O espaço foi amplamente ocupado pelo regime do Norte, que soube se aproveitar da vontade do Sul pela paz para uma operação única de sedução da opinião pública. Ninguém duvida que a propaganda do regime do Norte foi cuidadosamente desenhada com a mesma precisão de seus desfiles militares. O sorriso e a simpatia da irmã do ditador, as torcedoras escolhidas a dedo por sua “beleza e ideologia” e uma imagem praticamente de um país normal.

O que ninguém sabe dizer é se o clima de aproximação será mantido uma vez que a chama olímpica se apague. Na cerimônia de abertura, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, deixou claro que o teste será o dia seguinte dos Jogos e que não existe chance de a Casa Branca reduzir sua pressão e sanções.

O Japão ainda quer exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul e com os EUA, assim que a festa olímpica terminar.

O governo sul-coreano sabe que estará sob forte pressão, inclusive por parte das alas mais conservadoras do país. Mas, seja qual for a posição de seus atletas na tabela de medalhas ou o uso das instalações olímpicas, o legado desse evento já está consolidado: a demonstração de que nenhuma crise é tão grave que não possa ser revertida. Resta saber se tudo não passa de uma ilusão olímpica.

* Jamil Chade, correspondente do Estado em Genebra

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