Lionel Bonaventure/AFP
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Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

20 Março 2017 | 06h00

O abandono das instalações esportivas na Grécia e o alto custo de manutenção do Parque Olímpico da Barra da Tijuca são alguns exemplos do colapso do atual modelo de legado olímpico. Nesse contexto, Roma, Hamburgo e Budapeste retiraram recentemente suas candidaturas para os Jogos de 2024.

Em setembro do ano passado, a prefeita Virginia Raggi disse que a Olimpíada é “um sonho que se torna pesadelo” e anunciou a saída da capital italiana da disputa. Segundo ela, a realização do evento, ao custo previsto de 5,3 bilhões de euros (R$ 17,8 bilhões), significaria “hipotecar o futuro” de Roma, que está endividada e ainda paga a conta dos Jogos de 1960. O Comitê Olímpico Nacional Italiano (Coni) disse ao Estado, por telefone, que não comenta o tema.

A disparidade entre o orçamento inicial e o gasto final das cidades-sede é um problema recorrente, assim como os altos valores para a construção de estruturas muitas vezes desnecessárias para a cultura esportiva local, que acabam transformando-se em “elefantes brancos”.

“Grandes grupos econômicos, envolvidos com a construção das obras, têm interesse que os Jogos Olímpicos sejam mega. Quanto mais caro, mais lucro para essas empresas que estão ligadas à terra urbana”, atesta Gilmar Mascarenhas, professor de Geografia Urbana na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Os países, assim como suas populações, estão insatisfeitos com esse formato megalômano do COI. E foi justamente a perda do apoio dos alemães que fez Hamburgo sair do páreo. Em novembro de 2015, um referendo público constatou que 51,6% dos cidadãos eram contrários à campanha, estimada em 7,4 bilhões de euros (R$ 24,9 bilhões).

“A principal questão é que a divisão do custo entre cidade e Estado não era clara até o dia da votação. Outros problemas políticos, como o doping russo e o escândalo do futebol da Fifa, também tiveram algum impacto”, justifica o Comitê Alemão. A crise de refugiados e os ataques terroristas influenciaram. “Um evento dessa natureza exige um controle muito grande no fluxo de estrangeiros, notadamente no que diz respeito à segurança interna. Para minimizar o risco, os países preferem então não sediá-los”, comenta Otto Nogami, professor do MBA Executivo do Insper.

A última a retirar a candidatura foi Budapeste. Segundo um relatório do Comitê Olímpico da Hungria, a organização dos Jogos custaria 2,48 bilhões de euros (R$ 8,3 bilhões). A desistência foi ratificada em uma assembleia, com 22 votos pró e seis contra, convocada depois que um grupo político reuniu 266 mil assinaturas a favor de um referendo da população.

Para Mascarenhas, as desistências evidenciam a necessidade de mudança e de intervenção do Comitê Olímpico Internacional (COI) no processo.

As candidatas remanescentes são Paris e Los Angeles, e o COI já se mobiliza. Na sexta-feira, na Coreia do Sul, a entidade confirmou a intenção de escolha simultânea das sedes de 2024 e 2028 no mesmo processo, em setembro, no Peru.

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Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

20 Março 2017 | 06h00

Por que o senhor foi contra a candidatura de Boston para os Jogos de 2024? 

Teria sido um custo muito alto para a cidade em termos econômicos, ambientais e de aproveitamento territorial. Acredito que haveria déficit financeiro líquido de mais de US$ 10 bilhões (R$ 32,6 milhões). Discuto o caso de Boston na segunda edição do meu livro Circus Maximus, e aprofundo isso no meu próximo, que escrevi com Chris Dempsey, intitulado No Boston Olympics: como e por que 'cidades inteligentes' estão passando a tocha.

Sediar os Jogos não impulsiona a economia?  

Não. Em circunstâncias especiais ser sede olímpica pode ter papel favorável no desenvolvimento, mas quase nunca essas circunstâncias são atingidas. A experiência comum dos últimos 30 anos mostra que os Jogos Olímpicos têm um efeito negativo social e econômico.

Por que um número crescente de pessoas são contra a candidatura? 

A máquina de propaganda do COI quebrou. A realidade tem interferido no mito. Os Jogos custam de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões (R$ 65,2 bilhões) para a sede e dão retorno de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões (R$13 bilhões). Os benefícios a longo prazo não se materializam. Lidar com ‘elefantes brancos’ e poluição significam custos adicionais.

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