Gonzalo Fuentes/Reuters
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Andrei Netto, correspondente em Paris, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2017 | 17h00

Para receber os Jogos Olímpico de 2024 sem quebrar as finanças públicas, multiplicar os estádios subutilizados e as arenas abandonadas, Paris se prepara para refundar o maior evento do esporte mundial. Se de fato concretizar a ambição de receber o evento dentro de sete anos, o que será decidido em setembro, em Lima, no Peru, a capital da França será a primeira a organizá-lo segundo a Agenda 2020 do Comitê Olímpico Internacional (COI). Trata-se da primeira tentativa séria de reduzir os custos da organização, que extrapolam há 30 anos. 

Para tanto, a administração pública pretende realizar a primeira Olimpíada "ecológica" da história. Cem anos depois de receber o evento pela última vez, Paris enfim venceu a disputa, após quatro derrotas - a mais dolorida para Londres-2012. Com um projeto orçado em 6,2 bilhões de euros (R$ 23 bilhões), a capital francesa usará 93% de estruturas já existentes e construirá uma Vila Olímpica que, após os Jogos, será transformada em parte em habitações sociais para famílias de baixa renda. A ideia das autoridades é aproveitar o evento para, além de beneficiar Paris, completar a transformação da cidade de Saint-Denis, a cidade que foi epicentro dos protestos violentos de 2005.

O objetivo de respeito ao orçamento fixado e de uma organização respeitosa do meio-ambiente faz parte do caderno de encargos apresentado pela prefeitura de Paris, que lidera a candidatura. "Muitas cidades abandonaram a disputa, na Europa e além dela, porque as opiniões públicas não estão mais convencidas, mesmo que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos continuem a ser o evento planetário mais importante", reconhece a prefeita Anne Hidalgo, referindo-se às desistências de Boston, Roma, Hamburgo e Budapeste. As desistências abriram as portas para a vitória de Paris e Los Angeles para os Jogos de 2024 e 2028 - falta definir a ordem de realização dos eventos.

Segundo a prefeita, Paris tem a ambição de realizar a primeira Olimpíada "ecológica" do mundo em respeito a dois tratados: a Agenda 2020, um documento com 40 diretrizes criado pelo COI para reduzir os custos da organização do evento; e o Acordo de Paris, que estabeleceu objetivos de redução das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. "Estes Jogos serão alinhados com o Acordo de Paris sobre o clima. Graças ao COI, nós vamos acelerar a transição energética e ecológica. Vamos provar que os Jogos podem ser ecológicos", frisa Anne Hidalgo. 

Para tanto, a maior diretriz de Paris é a reciclagem - ou seja, o reaproveitamento quase total das infraestruturas já existentes na capital e em cidades limítrofes. Do orçamento apresentado na proposta de realização para 2024, uma única arena será construída: o centro aquático que será erguido ao lado do Stade de France, em Saint-Denis - a ser transformado em estádio olímpico para receber as cerimônias de abertura e encerramento e as competições de atletismo. 

Da mesma forma, o ginásio de Bercy, no 12º distrito, receberá as competições de esportes coletivos, como basquete, handebol e vôlei. O Stade Jean Bouin, do clube de rúgbi Stade Français, receberá os jogos da modalidade. Roland-Garros e Parc des Princes, estádio do PSG - reformados com dinheiro privado -, receberão competições, assim como o Velódromo de Saint-Quentin-en-Yvelines e o Stade 92, do clube de rúgbi Racing, em Nanterre, ambos na periferia da capital. Até monumentos e parques de Paris, como o Grand Palais e o Hotel des Invalides ou o Champ de Mars, onde fica a torre Eiffel, serão adaptados para receberem provas. 

"O conceito do projeto de Paris-2024 é fundado sobre um financiamento controlado", garante Tony Estanguet, tricampeão olímpico de canoagem e hoje copresidente da candidatura Paris-2024. Segundo ele, a única estrutura a ser construída, o novo centro aquático, terá função específica já determinada após os Jogos. "Ele responderá às necessidades de infraestrutura de Seine-Saint-Denis, onde 50% das crianças que chegam ao ensino médio não sabem nadar", explica.

A ideia do reaproveitamento é reduzir ao mínimo o investimento público. O orçamento de Paris prevê 6,2 bilhões de euros (R$ 23 bilhões) em investimento, metade dos quais financiados por patrocinadores, bilheteria e COI. Na parte de investimentos, que responde por cerca de 3,2 bilhões de euros (R$ 11,6 bilhões) das estimativas, 1,7 bilhão de euros (R$ 6,2 bilhões) será custeado pela iniciativa privada para construir - sem dinheiro público - o novo bairro em que se localizará a Vila Olímpica. Pelos planos, restarão 1,5 bilhão de euros (R$ 5,5 bilhões) a serem pagos pelo Estado, pela região de Ile-de-France e pelas administrações municipais de Paris e Seine-Saint-Denis. Se concretizado, os Jogos de 2024 terão custado pouco mais da metade dos de Londres, em 2012

 

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Oposição vê Rio-2016 como 'pesadelo' que precisa ser evitado na França

Oito últimas edições dos Jogos Olímpicos são apontadas como exemplos negativos

Andrei Netto, correspondente em Paris, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2017 | 17h00

Há nada menos do que oito Jogos Olímpicos consecutivos, a começar por Seul-1988, orçamentos apresentados ao Comitê Olímpico Internacional (COI) acabam estourando e se transformando em uma bola de neve para governos e contribuintes. Para movimentos franceses de oposição à realização da Olimpíada em Paris, a Rio-2016, que custou R$ 41,03 bilhões, é o "pesadelo" a ser combatido pela sociedade civil.

Depois de Los Angeles, em 1984, a prática de construir infraestruturas superdimensionadas e inúteis após os Jogos se disseminou, resultando na onda de impopularidade que obrigou metrópoles do mundo inteiro a retirarem suas candidaturas. O exemplo europeu do desperdício é Atenas, sede de 2004, onde infraestruturas construídas para as competições apodrecem a céu aberto por falta de manutenção e, pior, por falta de práticas esportivas. Ainda na Europa, Londres, em 2012, é tido como um imenso exemplo de desperdício e de imprecisão do orçamento, que passou dos estimados 4,8 bilhões de euros (R$ 17,5 bilhões) a 11 bilhões de euros (R$ 40,1 bilhões).

Mas o que tira o sono dos opositores da Olimpíada em Paris é mesmo o Brasil. "Rio é o exemplo do pesadelo perfeito. Vimos o que se passou na cidade, as imagens sobre o deslocamento de populações, a construção de elefantes brancos, o preço do estádio Maracanã. Tudo isso faz parte do pesadelo que nós gostaríamos de evitar na França", diz Frédéric Viale, coordenador do coletivo "Non aux JO-2024", que luta com unhas e dentes contra o evento. "Os Jogos do Rio são o exemplo porque serviram para fazer muita especulação financeira, muita especulação imobiliária e despesas públicas inúteis."

O problema do COI é que nem o exemplo brasileiro foi suficiente para impedir o mesmo tipo de desperdício em Tóquio, em 2020. Na capital do Japão, o custo causa escândalo diário na imprensa por ter passado de 2,3 bilhões de euros (R$ 8,3 bilhões) estimados a 13,8 bilhões de euros (R$ 50,3 bilhões) – seis vezes mais. "Aquele que faz a pior estimativa é o que ganha os Jogos, porque para seduzir vende coisas a um preço inferior aquele que custará na verdade. Depois, é preciso pagar a fatura. É isso que chamamos de a maldição do vencedor", diz Emmanuel Frot, vice-presidente da consultoria Microeconomix, que publicou um relatório sobre custos e benefícios potenciais dos Jogos em Paris. 

Para outro expert, Pascal Gayant, economista do Esporte da Universidade de Mans, a conta das candidaturas é bastante simples e põe o orçamento de Paris também sub dúvida. "Os candidatos têm a tendência natural de minimizar os custos", diz o expert.

 

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