Carlos Eduardo Cardoso|Agência O Dia
Carlos Eduardo Cardoso|Agência O Dia

Franceses investigam compra de votos na escolha do Rio como sede da Olimpíada

Procuradores de Paris estão em Brasília para trabalhar em conjunto com brasileiros

Andrei Netto e Jamil Chade, correspondentes em Paris e Genebra, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2017 | 07h00

Procuradores do Ministério Público Financeiro da França estão em Brasília para investigar, em parceria com colegas brasileiros, suposto esquema de compra de votos de membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) para a realização dos Jogos Olímpicos no Rio em 2016. A suspeita é de que delegados da organização tenham recebido propina em troca do voto favorável na disputa com Madri, Tóquio e Chicago pelo direito de organizar a competição no Rio.

A suspeita de que houve pagamento ilegal para a compra de votos de delegados do COI para a organização da Rio-2016 e de Tóquio-2020 vem sendo investigada pelo Ministério Público Financeiro de Paris, que já encontrou indícios concordantes de corrupção em ambos os casos. Segundo as investigações, três dias antes da sessão do COI que definiria a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016, realizada em outubro de 2009, em Copenhague, na Dinamarca, duas transferências que totalizaram US$ 2 milhões (R$ 6,3 milhões pela cotação atual) foram realizadas pela Matlock Capital Group, empresa com sede em Miami (EUA) e de propriedade do empresário brasileiro Arthur Cesar de Menezes Soares Filho, em favor de membros da família do então presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) e membro do COI, Lamine Diack.

Nessa época, o Grupo Facility, de Arthur Soares, tinha contratos de prestação de serviços da ordem de R$ 3 bilhões firmados com o governo do Rio, sob gestão de Sergio Cabral.

Os depósitos foram realizados pela Matlock em dois momentos: um primeiro de US$ 1,5 milhão (R$ 4,7 milhões) em 29 de setembro de 2009, em favor da empresa Pamodzi Consulting, de propriedade de Papa Massata Diack, filho de Lamine Diack. Uma segunda transferência, de US$ 500 mil (R$ 1,5 milhão), também proveniente da mesma empresa, beneficiou uma conta de Papa Diack na Rússia. Segundo o MP Financeiro da França, o voto de Lamine Diack em favor do Rio seria crucial para obter a adesão de dirigentes africanos, que votam em bloco nas sessões do COI.

A investigação do MP apura os vínculos entre Arthur Soares e Sérgio Cabral e a existência de um pacto de corrupção em torno dos Jogos de 2016, que envolveria as obras públicas com as quais o governo brasileiro se comprometeu junto ao COI.

Um dos focos de suspeita dos investigadores é se houve vínculos entre empreiteiras que se beneficiaram dos projetos de infraestrutura para a Rio-2016 e a suposta compra de votos. Mesmo depois de um primeiro desenho do parque olímpico ter sido fechado entre os técnicos do COI e da Rio-2016, a construtora Odebrecht, por exemplo, pediu mudanças nas instalações.

Uma vez vencida a disputa em Copenhague, empreiteiras brasileiras ficaram com grande parte dos contratos dos Jogos, alguns deles sem licitações e sem concorrência. À Odebrecht restaram obras como o Porto Maravilha e a Linha 4 do Metrô, além da Vila dos Atletas e o Parque Olímpico e outras instalações e estruturas de transporte. Num levantamento feito pelos investigadores, constatou-se que, dos R$ 38 bilhões previstos no orçamento original dos Jogos do Rio, a empresa, que está no epicentro da operação Lava Jato, ficou com contratos avaliados em R$ 26 bilhões.

Em nota, a construtora optou por não entrar em detalhes. “A Odebrecht não se manifesta sobre eventuais investigações e reafirma que vem cooperando com autoridades brasileiras e estrangeiras. A empresa está comprometida a combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas.”

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Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2017 | 07h00

O Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu mudar os contratos com as cidades-sede que receberão os próximos Jogos. A partir de agora, as autoridades que assinarem o documento têm de se comprometer a lutar contra a corrupção. Na nova versão do compromisso, que será válida para os Jogos de 2024, cidades terão de agir para evitar “fraude e corrupção, consistente com acordos, leis e regulamentos internacionais”. O novo contrato também fala na exigência de um mecanismo “eficiente de compliance”.

As primeiras cidades a ter de aplicar o novo código serão Paris ou Los Angeles, que concorrem para receber o evento em sete anos. Entre as obras realizadas para os Jogos do Rio, estão sob investigação a Linha 4 do Metrô, que teve um aumento de orçamento de 11 vezes.

Apesar das suspeitas relacionadas à Odebrecht, o presidente do COI, Thomas Bach, insistia antes dos Jogos que não via motivos para duvidar dos contratos e que mantinha sua confiança nas autoridades locais.

Na Rússia, revelações feitas por Boris Nemtsov, um dos líderes da oposição, indicaram que os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014, permitiram o desvio de 60% do orçamento apresentado para o evento. Um dos estádios, previsto para custar US$ 49 milhões (R$ 155 milhões pela cotação atual), acabou saindo por US$ 520 milhões (R$ 1,6 bilhão). Boris Nemtsov foi assassinado.

Passo importante. Entidades da sociedade civil comemoraram a mudança no COI, ainda que alertem que ela não prevê uma auditoria independente nem mecanismos para punir caso alguma irregularidade seja descoberta. “Esse é um passo importante para o COI no futuro”, disse Sharan Burrow, da Confederação Internacional dos Sindicatos, que também festeja a inclusão de medidas sobre direitos humanos.

“O direito de sediar a Olimpíada precisa vir acompanhada da responsabilidade de não cometer abusos de direitos humanos”, defendeu Minky Worden, da Human Rights Watch.

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