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Gabriel Inamine

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Eduardo Coutinho

Luisão quer levar suas 'mãos de urso' para os Jogos do Rio

Massagista espera completar sua sexta Olimpíada

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Gonçalo Junior

20 Fevereiro 2016 | 17h00

O cineasta Eduardo Coutinho construiu uma carreira única contando histórias de pessoas comuns. Em 2014, aceitou um convite para montar seu tripé diante de uma personalidade esportiva para o Projeto Memória do Esporte Olímpico Brasileiro. Ele escolheu Luiz Carlos Sousa, o Luisão, massagista do voleibol há 31 anos e que já participou de cinco Olimpíadas e outros cinco jogos Pan-Americanos. Coutinho morreu em 2014, antes de iniciar o filme, que foi conduzido pelo cineasta Cao Hamburguer e seu filho, Tom. Foi assim que nasceu o documentário “Mãos de Urso”.

“Foi uma surpresa grande fazer o filme. Foi muito bom. A gente sabe que quem fica nos bastidores não costuma aparecer muito”, diz o massagista de 66 anos.

Ao longo dos depoimentos de atletas de diversas modalidades, o documentário conta a trajetória do profissional que “arruma o salão para a festa dos atletas”, como define o próprio Luisão. Isso significa que ele não faz só massagens. Um massagista cuida de todo o equipamento de cada atleta para o jogo (uniforme, isotônico, toalhas, bolas, medicamentos). Durante 30 anos, foi massagista do Banespa, base das melhores seleções brasileiras de voleibol, e hoje atua no Vôlei Brasil Kirin, de Campinas, quarto colocado na Superliga. “Ele é psicológo, conselheiro, gerencia a equipe e está o tempo todo com o elenco”, diz André Heller, medalha de ouro em Atenas/2004.

Nas competições, a coisa muda: ele cuida dos atletas de todas as modalidades. Aí, ele prepara um ritual quase religioso. Ao som de uma boa música, sempre o blues, ele coloca em prática suas mãos de urso, apelido dado pelo ex-nadador Fernando Scherer, o Xuxa. “Ele dizia que eu pegava pesado, mas um atleta de alto nível precisa soltar e aliviar os músculos. E tem outra coisa: se o atleta está carregado, a gente recebe aquela energia negativa. Então, é preciso estar com a cabeça legal e se entregar totalmente”, conta o baiano de Salvador. “O local da massagem no clube parece um confessionário”, compara Daniela Greeb, diretora do Instituto de Políticas Relacionais, responsável pelo projeto Memória do Esporte Olímpico Brasileiro do qual o filme faz parte.

O projeto foi criado para resgatar fatos importantes da história do esporte nacional, estimulando a produção audiovisual independente no País. Com o apoio de diversos patrocinadores, o projeto, que realiza sua 5ª edição em 2016, possui cerca de 40 títulos em seu acervo. Os filmes estão em exibição em canais de TV aberta e por assinatura, como ESPN e TV Brasil, e são distribuídos em escolas e bibliotecas públicas. Para Tom Hamburguer, que realizou seu primeiro trabalho como diretor, a história foi um presente. Do seu pai e do próprio Luisão.

O pai do massagista era vendedor ambulante que andava com um balaio de frutas e legumes pelas ruas da capital baiana. O balaio dele era menor, mas só voltava para casa vazio. Aos 10, com a morte do pai, ele veio viver em São Paulo. Foi carreteiro, engraxate e se tornou massagista por acaso, quando trabalhou em jogo de futebol. Como sempre foi fortão, virou massagista, motorista e à noite fazia segurança nos bailes do Banespa. Em um dos trechos do filme, ele conta que passou quatro ou cinco festas de reveillon trabalhando. “Na hora dos fogos, eu saia chorava um pouco e voltava. Meu aniversário é dia 1º de janeiro”.

Casado há 40 anos com a enfermeira Maria Helena Calmon Souza, Luisão sempre foi assediado por causa do carisma e do porte físico. A mulher reclamava que ele era casado com o Banespa, não com ela. Tem uma filha fora do casamento, traição perdoada por dona Helena. “Luiz era um passarinho que voava, mas sempre voltava para o ninho”, conta a enfermeira.

Dona Helena sempre disse para Luisão tomar cuidado com a saúde para transformar os Jogos do Rio em sua despedida dos Jogos. A convocação ainda não saiu, mas ele tem fé de que estará lá, em sua sexta edição da Olimpíada.

 

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