Reprodução/Facebook
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Milícia veta internet para soldados da Força Nacional

Agentes que vão realizar a segurança nos Jogos Olímpicos foram impedidos de instalar equipamentos para ter acesso à rede

Márcio Dolzan, Rio de Janeiro, O ESTADO DE S.PAULO

14 Julho 2016 | 20h47

Soldados da Força Nacional que estão no Rio de Janeiro para realizar a segurança das instalações olímpicas foram proibidos por milicianos de instalar internet no condomínio onde estão alojados, no Largo do Anil, em Jacarepaguá. Assim, não bastassem as diárias atrasadas e as más condições de moradia, os cerca de 3.500 agentes que já estão na cidade são obrigados a utilizar os celulares para se conectarem à rede. Para completar, sem eletrodomésticos básicos nos apartamentos, compram produtos em comércio informal da região, cuja procedência tem origem incerta.

O Estado apurou que a instalação de qualquer serviço de internet no condomínio foi vetada pela milícia que atua na região do Anil e da Gardênia Azul, favela que fica ao lado do empreendimento. Os milicianos lucram com o fornecimento de sinal e impõem monopólio no serviço, até mesmo para os agentes deslocados para o Rio.

Os soldados estão alojados no condomínio Vila Carioca, que faz parte do Minha Casa Minha Vida, programa habitacional do governo federal. Eles começaram a ocupá-lo em junho. Os apartamentos, contudo, foram entregues inacabados, sem qualquer tipo de mobília. Até os chuveiros não foram instalados. Parte dos apartamentos, segundo relatos de militares, apresentam infiltrações.

As condições precárias fizeram com que muitos deles tirassem dinheiro do bolso para comprar colchões infláveis, geladeiras, fogões e aparelhos de TV. Alguns desses produtos foram adquiridos na informalidade, com moradores das redondezas. Há quem suspeite que possam ser fruto de roubo.

Os soldados receberam uma única farda. Com isso, à exceção dos agentes que já atuaram em outras ações da Força Nacional, todos terão de atuar dois meses com o mesmo uniforme. Na quarta-feira, cerca de 200 deles protestaram em frente ao condomínio. Muitos ameaçaram deixar o efetivo, sob a alegação de que foram “enganados”, não apenas pelas condições a que estão sendo submetidos, mas pela promessa não cumprida de uma diária de R$ 450. Nem sequer o valor de R$ 225, como é pago normalmente, estava sendo depositado. A jornada de trabalho também está maior do que a prevista.

REUNIÃO

Presidente da Associação Nacional de Praças (Aprasc), entidade que representa os soldados, o cabo Elisandro Lotin de Souza, da Polícia Militar de Santa Catarina, classificou a jornada de trabalho como “desumana” e afirmou que “as condições de acomodação não respeitam minimamente a dignidade humana”.

Na quarta-feira, ele foi a Brasília, onde se reuniu com o secretário nacional de Segurança Pública, Celso Perioli. No encontro, Lotin de Souza recebeu a promessa de que todas as pendências seriam resolvidas. No mesmo dia, 500 colchões e beliches foram entregues no condomínio onde estão alojados os soldados. As diárias que estavam atrasadas começaram a ser pagas.

Questionado, o ministério da Justiça e da Cidadania informou que os atrasos nas diárias atingiu “cerca de 5% do efetivo, devido a erros de preenchimento de documentação”. A pasta disse ainda que “também estão chegando novos lotes de fardas e o efetivo será aumentado, com a chegada de mais de mil profissionais, otimizando assim as escalas de serviço”. A diária dos soldados receberá reajuste e chegará a R$ 550.

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