CBDG / Divulgação
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"O escândalo é maior que Salt Lake City", alerta testemunha

Eric Walther Maleson, que denunciou compra de votos pelo comitê organizador dos Jogos do Rio, afirma que corrupção é mais grave que na edição dos Jogos de Inverno de 2002

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2017 | 07h00

GENEBRA – Peça chave na denúncia e uma das principais testemunhas na investigação sobre o caso da compra de votos pelo Rio de Janeiro, o brasileiro Eric Walther Maleson alerta que o que está prestes a ser revelado no movimento olímpico é sua pior crise. “O escândalo é maior que o de Salt Lake City”, disse, em entrevista ao Estado. Sua referência é o escândalo de corrupção vivido pelo COI no final dos anos 90, quando foi revelado que a cidade americana comprou votos para sediar os Jogos de Inverno de 2002 e jogou o movimento em sua crise mais profunda.

Maleson confirma que procurou o COI em diversas oportunidades desde 2012 para relatar as irregularidades no COB e na Rio-2016. Numa das ocasiões, ele diz que chegou a falar por telefone com Dick Pound, na época um dos dirigentes mais poderosos dentro do COI, além de enviar cartas para os presidentes Jacques Rogge e Thomas Bach. Sem uma resposta, ele se apresentou aos procuradores franceses para relatar o que sabia de Nuzman e da compra de votos.

O Comitê Olímpico Internacional confirmou que, em 2012, foi contactado pela testemunha. Mas, segundo a entidade, o assunto teria sido “um problema entre a Federação de Desportos no Gelo (presidida por Maleson) e o COB”. “Naquele momento, o COI pediu a Maleson que entrasse em contato diretamente com o COB para resolver qualquer potencial disputa”, explicou a entidade, por meio de um email. 

O COI ainda afirmou que “não tem a capacidade de realizar investigações criminais”. “Portanto, se alguém trouxer à nossa atenção supostas atividades criminais, ele ou ela serão aconselhados a entrar em contato com as autoridades relevantes”, explicou.

Maleson desmente a versão do COI. “Isso não é verdade. Obvio que falei de minha Federação. Mas não foi só isso. Talvez tenham de abrir as gavetas e achar. Está tudo la”, disse ao Estado. Além do contato de 2012, em 6 de setembro de 2014, ele mandou a Thomas Bach e à Comissão Judicial do COI uma carta sobre o “caos no Comitê Organizador Rio-2016”. Ele alertava que não concordava era com “a corrupção e todas as irregularidades da atual liderança”. 

“Eu e outras autoridades brasileiros informamos ao COI pelo menos há dois anos sobre a corrupção, fraude em eleição, violação de regras do COI, perpetradas pelo Comitê Olímpico Brasileiro e pela Rio-2016, ambas presididas pela mesma pessoa: Carlos Nuzman”, escreveu Maleson.

LEALDADE

Já naquele momento, ele criticada a lealdade do COI com o COB. “A falta de ação está afetando os valores olímpicos, sua imagem e patrocinadores”, disse. “O COI tomou ações fortes na Índia, Paquistão, Kuwait. E por que não no Brasil? O COI não pode e não deve ter dois pesos e duas medidas para punir membros por irregularidades criminais”, disse em 2014. Na avaliação de Maleson, o fato de Nuzman presidir o COB e a Rio-2016 gerava um “conflito de interesse”. “Parem com essa loucura”, completou.

Ao Estado, a testemunha agora coloca em questão o papel do COI. “Antes dos Jogos, eu achei que eles não teriam agido para não abalar o evento. Até me responderam, dizendo que a papelada estava na mesa do presidente. Até hoje não entendi como deixaram o Nuzman acumular os cargos do COB e da Rio2016. São também responsáveis. Mas, depois dos Jogos, eles também não agiram. Não podem mais ser negligentes”, atacou. 

“O COI resolveu não fazer nada. Não podem dizer que não foram notificados. Agora, vão precisar intervir”, defendeu. 

Maleson, que vive nos EUA, alerta ainda que não adianta simplesmente retirar Nuzman do cargo. “Precisa haver uma reformulação completa, com um novo estatuto”, disse. 

Ele ainda cobrou atletas e dirigentes brasileiros. “Vão ficar calados?”, questionou. “Terão de se pronunciar, inclusive para o bem de suas carreiras. Ninguém mais pode se acovardar”, completou. 

PREMATURO

Questionada pelo Estado se o COI tomaria alguma medida em relação ao COB ou se estaria considerando uma intervenção, a entidade em Lausanne se limitou a dizer que seria “prematuro comentar neste momento”. O COI tampouco respondeu o que faria com o cargo que deu para Nuzman, no Comitê de Coordenação dos Jogos de 2020. 

No dia da operação no Rio, a entidade rapidamente tentou se distanciar da crise, indicando que ele teria “maior interesse” em “esclarecimentos” e pediu que os investigadores o informassem de qualquer assunto relacionado ao movimento olímpico. A entidade ainda insistiu que proteger a integridade do processo de escolha de sedes é de seu maior interesse.

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