O final do sonho olímpico

A inspiração da Olimpíada deve inspirar as lideranças a realizar esta construção plena

Ana Moser, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2016 | 03h00

A Olimpíada do Rio está chegando ao fim e o saldo é positivo. Tanto no que se refere ao evento em si, quanto ao desempenho dos atletas brasileiros. A nossa capacidade de realização ficou evidente nos dois campos. Não fomos precisos como outros povos, mas mostramos o nosso valor e fizemos bonito. Arenas lotadas, o centro do Rio fervendo, assim como os restaurantes e bares em várias regiões da cidade. Não tem baixo astral aqui no Rio, os convidados adoraram a festa.

No campo esportivo também não fizemos feio e estamos prestes a cravar o melhor resultado olímpico. Neste momento em que escrevo é impossível prever se acabaremos entre os 10 primeiros, mas provável que não. A meta colocada pelo COB para o desempenho do Time Brasil era ousada e ao meu ver, como observadora, não importava tanto quanto os resultados gerais: número de finalistas, número de modalidades com finalistas e maneira como os nossos atletas se apresentaram jogando em casa. A garra e o comprometimento com o resultado e com a luta. Afinal, no esporte é vencedor quem luta, quem não entrega e honra seu empenho e os adversários.

E fomos bem, repito. Todos os atletas brasileiros que vi se mostraram dignos e espelharam o valor do nosso povo e do nosso esporte. Mais de 70 finalistas, muitas modalidades que passaram a figurar na elite, ou mais próximo dela. Avançamos de uma maneira geral e nos orgulhamos dos nossos atletas. E, claro, tivemos um tanto de medalhas para comemorar e pódios para nos emocionar. Madrugadas a dentro, boa parte delas.

Esta também foi a Olimpíada da diversidade, dos protestos contra o governo interino nas arenas, da valorização do esporte feminino, do Bolsa Atleta e financiamento público na preparação, dos atletas militares e dos projetos sociais de iniciação esportiva. Foram os Jogos dos sonhos e da visão de um futuro melhor para o esporte, uma base que pode inspirar os jovens e ao mesmo tempo proporcionar melhores estruturas de treinamento para os atletas de rendimento. Diria que, hoje, ainda um sonho que um caminho longo pela frente para se concretizar. Um caminho que pudemos vislumbrar como possível, mas que precisa ser construído.

A realidade de 2017 é totalmente indefinida em termos de financiamento público e das estatais, que foram a base do investimento no treinamento das equipes olímpicas. O tempo e os meios para reestruturar a utilização do Parque Olímpico e dos muitos centros de treinamento do país, organizados para este ciclo olímpico ainda não são tangíveis.

Em praticamente todas as modalidades houve profissionalização na gestão e equipes técnicas, inflacionando de uma certa maneira o mercado da elite esportiva e aumentando os orçamentos. Graças a esta qualificação os resultados foram possíveis, mas tem uma análise do custo x benefício que o ufanismo momentâneo não pode nos privar, para o bem do próprio desenvolvimento do esporte.

Não levamos um 7 x 1 e não precisamos aprender na “dor”, então vamos aprender no “amor”. O custo da preparação do Brasil para a Olimpíada do Rio foi alto, bem alto e o impacto no longo prazo deve ser analisado com responsabilidade e de forma ampla, para além das equipes olímpicas. Afinal fomos bem para nossos padrões, mas tenho certeza de que estamos longe de alcançar o potencial de uma nação de 200 milhões.

Para o Rio investimos em poucas centenas de atletas que já estavam formados, uma parte veteranos, como no vôlei, judô, natação e vela. Proporcionalmente, o investimento na formação dos futuros atletas foi pífio, nem mesmo em planos e projetos para o esporte brasileiro ganhar escala. É muito mais difícil pensar e, uma solução sistêmica que universalize o acesso das crianças e jovens ao esporte e amplie a prática da população, do que preparar uma equipe olímpica para ter o resultado que tivemos no Rio. A inspiração da Olimpíada deve inspirar as lideranças a realizar esta construção plena. 

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