WILTON JUNIOR | ESTADÃO CONTEÚDO
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‘O Rio insistiu em um modelo fora de moda’, diz Gilmar Mascarenhas

Professor de Geografia Urbana da Uerj diz que a concepção do projeto de mobilidade ‘distorceu políticas urbanas’

Entrevista com

Gilmar Mascarenhas

MARCIO DOLZAN, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2016 | 17h00

A cidade do Rio de Janeiro está perdendo a oportunidade de se transformar positivamente em função dos Jogos Olímpicos. Ao menos essa é a avaliação de Gilmar Mascarenhas, pós-doutor em urbanismo e professor de geografia urbana na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde desenvolve pesquisa sobre o impacto nas cidades dos megaeventos esportivos. “O Rio insistiu numa concepção megalômana, que é algo que já está fora de moda”, observou, nesta entrevista ao Estado. Apesar de considerar positiva a opção pelo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) como meio de transporte de massa no Centro carioca, Mascarenhas critica os demais projetos de mobilidade em curso. “O conceito ‘barracêntrico’ dos Jogos distorceu as políticas urbanas.”

Fala-se muito em legado dos Jogos. O que seria esse legado?

O discurso de legado existe no sistema olímpico desde mais ou menos o início do século XXI, quando o Comitê Olímpico Internacional (COI), já demonstrando alguma preocupação com as seguidas edições de Jogos que vinham se tornando cada vez mais caras, estabeleceu que cada candidatura deveria mostrar quais seriam os impactos positivos no médio e longo prazos.

Quais são os bons e os maus exemplos?

De modo geral podemos colocar em destaque como exemplos mais positivos os Jogos de Sydney-2000 e de Londres-2012. Inclusive acho que a escolha de Londres, ocorrida em 2005, já foi uma preocupação do COI com a sua imagem, porque a edição do ano anterior, em Atenas-2004, foi consenso de que foi um desastre. O Parque Olímpico hoje está em ruínas, e sem falar de todo o endividamento e a repressão que houve. Além disso, já se sabia que os Jogos seguintes, em Pequim, também seriam um megaevento, dentro de um governo agressivo e autoritário. Entre os exemplos negativos, além do caso de Atenas e Pequim, acho que o Rio de Janeiro vai engordar a lista, porque se assemelha muito a Pequim.

Em que sentido?

Primeiro em você insistir numa concepção megalômana, que é algo que já está fora de moda. Segundo porque promoveu um impacto ambiental muito alto. O caso do campo de golfe é uma das maiores aberrações, pois a cidade já dispunha de dois campos de padrão internacional e então decidem construir um novo numa área que é uma reserva, e ainda liberando um megaprojeto imobiliário. Sabemos que não há nenhuma garantia de limpar a Baía de Guanabara, e há um impacto social imensurável – em torno de 70 mil pessoas sofrendo um processo de remoção. Para completar, tem o fato de não haver a menor transparência ou canais de diálogo para rebater.

A Prefeitura do Rio insiste que os Jogos não deixarão “elefantes brancos”. O senhor concorda?

De fato, essa questão está colocada no cenário olímpico há algum tempo e tem se investido nas instalações provisórias, e vamos ter para 2016 um conjunto razoável. Agora, vamos ter várias instalações fixas que, para saber se serão elefantes brancos ou não, temos de esperar o uso e a gestão. O Parque Radical (no Complexo de Deodoro) é a única instalação em uma área suburbana, periférica, que a prefeitura anuncia que será um parque de uso público. Não sabemos.

Comparado ao Pan de 2007, o senhor vê avanços?

Em grande parte, o conceito é o mesmo. No Rio de Janeiro, quando a prefeitura pensou pela primeira vez no projeto olímpico, foi no ano de 1995, 1996, quando o prefeito Cesar Maia contratou uma assessoria de Barcelona e a primeira proposta era de concentrar o Parque Olímpico no Fundão, na zona norte, o que permitiria a construção de instalações esportivas para beneficiar a população mais pobre. Perdemos aquela candidatura, e a seguir, na segunda vez que o prefeito Cesar Maia vai montar (a candidatura), pensando já nos Jogos Pan-Americanos, ele esquece todos esses ensinamentos e monta um projeto mais “mercadófilo”, esquecendo a zona norte e mudando para a Barra da Tijuca. Então, o que os Jogos de 2016 repetem em relação ao Pan-Americano é tomar a Barra como se fosse o novo centro do Rio, e como a Olimpíada tem uma escala muito maior, o impacto também é maior. Um dos casos mais graves é o da expansão do sistema metroviário do Rio de Janeiro.

Por quê?

Porque você esquece planos existentes, feitos com base em estudos, diagnósticos, e faz uma extensão de metrô num sistema linear, um modelo inexistente que ninguém concebe. Você investe milhões, mexe na estrutura material da cidade, para atender um evento de 16 dias. E, além disso, a construção dessas Transolímpica, Transcarioca, Transoeste, as três tomam a Barra como centro. Em 2014 eles decidem fazer uma quarta, a Transbrasil. Essa sim atende um movimento predominante. O conceito “barracêntrico” dos Jogos Olímpicos distorceu as políticas urbanas.

O Rio, em especial a região central, vai ter uma nova cara por causa das intervenções urbanas. Como você avalia?

Há aspectos positivos e negativos. A introdução do VLT é positiva, é um meio de transporte silencioso, quem já usou sabe como é agradável e o centro da cidade vai ganhar uma malha intensa. A crítica que pode ser feita é que a zona portuária é extensa e a maior parte dos galpões são públicos, portanto passível de política urbana. O poder público poderia ter usado parte da zona portuária para projetos de habitação social.

Por que os protestos ocorrem em número bem menor se comparados à preparação para a Copa do Mundo de 2014?

Essa questão é bastante complexa, assim como responder por que aconteceram as chamadas Jornadas de Junho de 2013. Ninguém tem uma única resposta para isso. No mundo afora, os Jogos Olímpicos costumam ser motivo muito maior de contestação do que a Copa do Mundo, porque a Copa traz impactos muito mais pontuais. Não tenho uma resposta, mas arrisco dizer que uma das razões é a forte repressão que tiveram os movimentos sociais.

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