Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

População só vê Deodoro pelo lado de fora da cerca

Com complexo fechado desde dezembro e sem previsão de reabertura, espaço olímpico deixa de se tornar área de lazer

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 07h00

Nove meses após o término da Olimpíada, o Complexo Esportivo de Deodoro, segunda maior área de disputa dos Jogos Olímpicos Rio-2016, está fechado e com suas instalações esportivas paradas. A promessa de transformar parte do local em um parque público não se confirmou, enquanto que a área administrada pelo Exército Brasileiro ainda carece de reformas que deveriam ter sido executadas logo após a Olimpíada.

A prefeitura do Rio, desde janeiro comandada por Marcelo Crivella (PRB), afirma que o Parque Radical está fechado por falta de previsão orçamentária para a exploração da área.

As instalações ficam no limite entre as zonas norte e oeste, junto a três municípios populosos do Grande Rio que não contam com muitas opções para o lazer: Nilópolis, Nova Iguaçu e Mesquita. A região é uma das mais pobres da capital.

“A atual gestão assumiu a Subsecretaria de Esportes e Lazer no dia 16 de janeiro e já encontrou o Parque Radical sem contrato e sem orçamento previsto. A gestão passada abriu o Parque Radical para o público em setembro e fechou em dezembro, quando terminou o contrato de gestão”, informou por nota a pasta ao Estado.

Não há previsão de quando a área será reaberta ao público, mas dificilmente isso acontecerá no curto prazo, apesar dos protestos da população, que reclama sobretudo por não poderem mais ter acesso ao lago artificial que funcionava com uma espécie de piscinão.

A atual administração carioca pretende lançar apenas em junho um edital para conceder a exploração da área à iniciativa privada. A ação é semelhante ao que se tentou fazer com o Parque Olímpico da Barra – sem sucesso, por falta de interessados.

A tendência é que a conta seja empurrada para o governo federal. Foi o que aconteceu com o Parque Olímpico.

“Existe uma possibilidade de parceria com o Ministério do Esporte para redução dos custos de manutenção. Reduzimos o valor inicial de R$ 20 milhões para R$ 12 milhões e chegamos (agora) a um valor de R$ 7 milhões/ano”, informou a Secretaria Municipal de Educação, Esportes e Lazer.

A construção e reforma – no caso de instalações que já existiam – do complexo consumiu R$ 820,9 milhões em recursos públicos. A região foi palco de disputa de 11 modalidades nos Jogos do Rio e deveria ter sediado outras quatro paraolímpicas. Isso não ocorreu, devido à necessidade de corte de custos para a realização dos Jogos Paralímpicos.

No Parque Radical aconteceram, durante os Jogos do Rio, competições de canoagem slalom, mountain bike e BMX.

LEGADO

Pelo plano original, após a Paralimpíada o Parque Radical, área administrada pela prefeitura do Rio, seria aberto à população. “Serão oferecidos ao público após 2016 equipamentos típicos de esportes extremos, numa imensa área de lazer, que será a segunda maior da cidade”, dizia o texto da Empresa Olímpica Municipal, órgão da prefeitura que concentrou as obras olímpicas.

A intenção era que até mesmo o rio artificial construído para as disputas de canoagem slalom estivesse à disposição dos moradores. Ao menos foi isso o que prometera o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PMDB) ao inaugurar o circuito de canoagem, em 2015.

“A razão de ser da Olimpíada não era construir um rio artificial para sei lá quantas pessoas que fazem canoagem slalom no Rio de Janeiro ou do Brasil terem uma pista com padrão olímpico. Acho até legal ter, mas não era o objetivo de trazer a Olimpíada. O objetivo era melhorar a condição de vida das pessoas”, discursou na ocasião.

De fato, o local esteve aberto ao público por alguns meses no ano passado – funcionou até março, quando foi fechado à população para ser utilizado na Olimpíada e reaberto por cerca de dois meses em setembro –, mas não funciona mais desde dezembro.

A reportagem do Estado esteve no local na quinta-feira passada e encontrou os dois acessos fechados. Uma guarda municipal fazia a vigilância em uma guarita do lado de dentro da entrada principal. De longe, era possível ver um jipe do exército circulando. Em outro ponto, funcionários aparavam a grama. Mais nada.

Procurada, a assessoria da administração de Eduardo Paes ressaltou que “o Parque Radical de Deodoro foi entregue à população como um legado oito meses antes da realização dos Jogos Olímpicos”.

Por meio de nota, o deputado federal Pedro Paulo (PMDB), secretário da Casa Civil e de Governo na administração de Eduardo Paes, culpou o atual governo pelo fechamento do parque. “São sete meses desde que o Crivella ganhou a eleição – dois de transição e cinco de mandato. Estar fechado é uma decisão da atual administração”, disse Pedro Paulo.

Mais conteúdo sobre:
Olimpíada Rio de Janeiro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Co-Rio atrasa reforma na área do Exército

Entidade responsável pela Olimpíada na cidade admite o problema

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 07h00

Enquanto o Parque Radical permanece fechado, a área do complexo pertencente ao Exército Brasileiro funciona, apesar de os militares terem recebido as instalações cedidas ao Rio-2016 sem todas as obras de readequação prontas. Os custos das reformas estão estimados em R$ 1,2 milhão.

O local comporta os Centros de Tiro, Hipismo, Hóquei sobre Grama e o Centro Aquático de Pentatlo Moderno. As instalações já existiam antes dos Jogos Olímpicos do ano passado e foram utilizadas no Pan de 2007 e nos Jogos Mundiais Militares de 2011. A Arena da Juventude, erguida para o Rio-2016, agora também pertence ao Exército.

Essas instalações, contudo, não foram devolvidas da forma como haviam sido prometidas. Elas precisam passar por adequações (conhecidas como “retrofit”), cujo responsável é o Comitê Rio-2016. A entidade admite o problema.

“A gente está um pouco atrasado com Deodoro. Tínhamos prometido ao Exército que iríamos acelerar isso, inclusive no que diz respeito à doação de material esportivo”, reconheceu Mario Andrada, diretor de Comunicação do Rio-2016. “Já doamos 35 caminhões cheios, mas ainda falta alguma coisa.”

Boa parte dos custos diz respeito a uma “parte deteriorada” no complexo no período em que a área ficou sob administração do Comitê Rio. Sem segurança, o lugar foi alvo de furtos e depredação. Além disso, erros na execução de obras fizeram com que algumas áreas já apresentem problemas, como buracos no piso e infiltração nas paredes. Assim, algumas instalações não estão em condições adequadas de uso.

“Estamos cientes e vamos tentar resolver nas próximas semanas”, prometeu Andrada.

Enquanto as reformas não saem, atletas profissionais ficam sem boas opções para treinar. Em fevereiro, o Ministério do Esporte e o Comando do Exército firmaram parceria para exploração das instalações esportivas, cuja manutenção anual está estimada em R$ 30 milhões.

De acordo com o Exército, os locais não são de uso exclusivo das Forças Armadas. Atletas do País podem usar as instalações “desde que o pedido de solicitação seja institucional através de confederações, federações, clubes e entidades desportivas”. Existe a previsão de que as arenas sejam colocadas à disposição para programas de recreação esportiva e desenvolvimento de atletas das comunidades que ficam no entorno.

Mais conteúdo sobre:
Olimpíada Rio de Janeiro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.