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Esportes

Olimpíada

Por receio da zika, potências olímpicas se previnem

Medidas dos comitês nacionais incluem até o uso de mosquiteiros nos apartamentos da Vila Olímpica e roupas mais longas

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Andrei Netto (Paris), Marcio Dolzan (Rio) e Paulo Favero

27 Fevereiro 2016 | 17h05

O surto de zika no Brasil não deverá mesmo ter maiores impactos nos Jogos do Rio, como sustentam os organizadores. Alguns dos principais comitês olímpicos nacionais do mundo afirmaram ao Estado que não pretendem deixar de vir à Olimpíada por causa da doença. Muitos, porém, vão adotar medidas extras de prevenção – o que inclui até o uso de mosquiteiros nos apartamentos da Vila Olímpica e roupas mais longas.

Desde o início do mês, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou os casos de microcefalia ligados à zika emergência mundial, o tema se tornou assunto recorrente. Isso levou até mesmo o Comitê Rio-2016 a reunir especialistas na área médica para tratar do assunto. No exterior, houve quem sugerisse o adiamento ou até o cancelamento dos Jogos.

Os Estados Unidos, principal potência olímpica, foi um dos primeiros a se manifestar sobre o fato. “A equipe americana já olha para os Jogos e não evitamos, nem vamos evitar, que nossos atletas compitam por seu país caso se classifiquem”, declarou Patrick Sandusky, porta-voz da entidade.

O clima de insegurança em função do zika parece não ter afetado os comitês olímpicos nacionais de outras potências. Com maior ou menor veemência, Alemanha, Espanha, Austrália, Japão, França e Bélgica, ouvidos pelo Estado, descartaram ficar de fora da Olimpíada.

Vencedor de 44 medalhas, sendo 11 de ouro, nos Jogos de Londres-2012, o comitê olímpico alemão firmou parceria com a maior fabricante de repelentes do seu país e fornecerá o produto para todos os integrantes da delegação durante a estada no Rio de Janeiro. A entidade também quer que os atletas utilizem mosquiteiros nos quartos da Vila Olímpica.

Em Paris, o Comitê Nacional Olímpico da França não decidiu se divulgará uma cartilha de recomendações aos atletas. A razão: a estação em que a competição será realizada no Rio é favorável à erradicação do vírus. O tema está em terceiro plano nos interesses do comitê, atrás do desempenho da equipe em 2016 e da candidatura de Paris aos Jogos de 2024.

Já o Comitê Olímpico Belga planeja uma série de medidas para garantir a segurança e a saúde dos atletas do país. Segundo o diretor médico da entidade, Johan Bellemans, o receio é pequeno, já que os Jogos ocorrerão com clima mais seco e temperaturas mais baixas, ambiente desfavorável à reprodução do mosquito. “Nesse período do ano há muito menos mosquitos, e logo muito menos risco de infecção”, diz o comunicado distribuído pelo comitê belga.

Feita a ponderação, a entidade aconselhou que os atletas usem repelente e vestes de mangas longas, além de calças, em lugar de bermudas, de forma a evitar a exposição da pele às picadas. “Nós estamos convencidos que o Comitê Organizador, o Comitê Olímpico Internacional e as autoridades brasileiras oferecerão um ambiente seguro para o sucesso dos Jogos Olímpicos”, afirmou o chefe do time belga, Eddy De Smedt. “Não há razão para pânico.”

Soluções. Décima colocada no quadro de medalhas na última Olimpíada, a Austrália vai adotar procedimento semelhante ao da Alemanha. “Estamos orientando os integrantes da equipe sobre os riscos e maneiras de atenuá-los, como usar mangas compridas e repelentes, além de fechar as janelas e usar o ar-condicionado na Vila Olímpica”, declarou o comitê.

Nenhum atleta do país será obrigado a vir ao Rio, mas os australianos não creem em desistência. “Os atletas e funcionários do comitê têm autonomia para decidir se querem ou não participar dos Jogos. Nós não forçaremos nenhum atleta a participar, mas até o momento ninguém demonstrou interesse em deixar a Olimpíada.”

A Espanha também confirmou presença, mas adotou um tom um pouco mais cauteloso. “Até o momento, vamos participar. Para isso, vamos tomar as medidas sanitárias necessárias”, destacou o comitê nacional. “Não podemos obrigar ninguém a participar de uma competição caso ele sinta que sua saúde corra algum risco, mas nossa obrigação é oferecer todas as medidas possíveis para que os atletas não considerem essa possibilidade.”

O Japão, por sua vez, preferiu um tom protocolar. “Temos mantido contato constante com a OMS e com o Comitê Rio-2016, e estamos trabalhando para dar as melhores condições a nossa equipe.”

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Eventos-teste têm conscientizado os atletas sobre risco

A ameaça de abandono dos Jogos do Rio em função do zika vírus também não se reflete na ocupação dos hotéis oficiais da Olimpíada. Segundo o Comitê Rio-2016, que monitora os 200 hotéis que receberão atletas, membros da família olímpica e jornalista, nenhuma reserva foi cancelada até sexta-feira.</p>

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Marcio Dolzan

27 Fevereiro 2016 | 17h05

Na avaliação de João Grangeiro, a vinda de atletas estrangeiros para a disputa de competições no Rio, como os eventos-teste realizados pelo comitê, tem ajudado a afastar o temor para a Olimpíada. “O que a gente tem observado é que, quando os atletas chegam para os eventos-teste, eles passam a conhecer a situação e ficam muito mais tranquilos. Eles competem com grande performance e acabam sendo proativos, repassando informações para outros competidores”, diz o chefe médico do Rio-2016.

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Comitê Rio tem lista de prevenção para evitar a zika nos Jogos

Médico João Grangeiro afirma que o Rio-2016 está com 'o nível de preocupação adequado' para esse tipo de situação

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Marcio Dolzan e Paulo Favero

27 Fevereiro 2016 | 17h05

Chefe médico do Comitê Rio-2016, João Grangeiro teve de responder a dezenas de questionamentos de jornalistas estrangeiros no início do mês, quando os casos de microcefalia ligados à zika se tornaram emergência mundial. Numa das respostas, Grangeiro disse que os atletas seriam orientados a manter as janelas fechadas durante a permanência no Rio, declaração considerada controversa por alguns em virtude do calor na capital fluminense.

A medida, porém, é uma das que deverão ser tomadas por todas as delegações, e segue protocolo da OMS (Organização Mundial de Saúde). “Estamos orientando a adoção de medidas preventivas, como o uso de repelentes, manter as janelas fechadas na Vila Olímpica e nos hotéis, e aproveitar o ar-condicionado”, reforçou, ao Estado.

“Mantemos contato constante com os comitês olímpicos nacionais, com as federações, com as delegações que vêm para os eventos-teste, e estamos pedindo que se siga o que foi preconizado pela OMS e pelo COI (Comitê Olímpico Internacional)”, continuou.

O médico afirma que o Rio-2016 está com “o nível de preocupação adequado” para esse tipo de situação. “A gente entende que o problema existe, que estamos diante de um surto, de uma epidemia”, comentou. “Mas, do ponto de vista médico, 80% dos casos de zika é benigno”, completou.

Grangeiro sustentou ainda que a preocupação com o combate ao mosquito transmissor do vírus existia por parte do Comitê Rio-2016 muito antes da própria disseminação da doença. “A gente já vinha acompanhando o histórico de outros anos de infestação do Aedes e trabalhado em cima disso desde muito antes do zika, porque o mosquito também é o vetor da dengue. Sempre foi o nosso foco”, garantiu.

Segundo o comitê, durante a realização dos Jogos, equipes farão inspeções diárias em todas as instalações olímpicas. Neste momento que algumas instalações esportivas ainda estão em obras, também existe o cuidado para evitar focos de depósito das larvas dos mosquitos.

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