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Relatório do COI cita 'crise profunda' vivida pelo Brasil

Documentos internos mostram preocupação com fornecimento elétrico temporário, instalações e, em especial, o conforto do Complexo de Deodoro

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Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL a LAUSANNE

03 Março 2016 | 07h00

O presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, tentou nesta quarta-feira, em entrevista coletiva amenizar suas preocupações sobre a preparação brasileira para os Jogos Olímpicos. No entanto, documentos internos da entidade, obtidos com exclusividade pelo Estado, avaliam que o país vive “crise profunda” e enumeram uma série de problemas na organização.

Os principais entraves estão relacionados com as instalações, estádio olímpico, fornecimento elétrico “de alto risco” e os eventos marcados para o Complexo Olímpico de Deodoro. Em um relatório de suas atividades, Bach registrou um encontro com comitês olímpicos europeus em que diz que convidou o grupo “a trabalhar em solidariedade perfeita com os organizadores, diante da crise profunda que o Brasil enfrenta”.

Os documentos foram usados para cobranças na reunião de quarta-feira entre o Comitê Executivo do COI e os delegados do Rio de Janeiro. No “informe sobre as atividades administrativas do COI”, a entidade enumera os problemas que enfrenta no Rio, há cinco meses do início do evento.

Numa lista de “preocupações relacionadas com os esportes”, o COI aponta deficiências na “finalização das instalações para remo e canoagem (incluindo as arquibancadas temporárias na Lagoa Rodrigo de Freitas), polo aquático e saltos ornamentais, ciclismo, vôlei, equitação e o estádio olímpico”. O documento datado do dia 29 de fevereiro, porém, não detalha quais os problemas em cada um dos pontos mencionados. O relatório é de responsabilidade do diretor-geral do COI, o belga Christophe de Kepper.

O Departamento de Tecnologia e de Informação do COI alerta que “os prazos para garantir a alimentação elétrica temporária a partir de julho de 2016 estão muito apertados”, o que é agravado pelo corte de recursos e sugere “acompanhamento de perto pelo COI”.

O orçamento mais apertado também preocupa o COI em relação à tecnologia empregada nos Jogos. Diz o documento: “Os cortes orçamentários atuais terão eventuais repercussões sobre os níveis de serviços de tecnologia e riscos associados à entrega tardia dos layouts olímpicos e da alimentação elétrica temporária”.

Depois de uma reunião sobre a situação financeira dos Jogos no Rio, realizada no dia 2 de fevereiro, em Lausanne, entre os organizadores brasileiros, COI e 28 federações esportivas, as entidades envolvidas pediram para que fossem consultadas sobre os cortes que os brasileiros teriam de fazer.

O documento indica que o impacto sobre o conforto dos atletas era uma preocupação, ainda que as federações tenham “concordado de uma forma geral em adotar um tom de flexibilização em suas exigências”.

Segundo o informe, oito federações ainda se reuniram no mesmo dia para tratar especificamente da situação do Complexo de Deodoro. O consenso do encontro foi a preocupação relacionada com o bem-estar dos espectadores. Foi criada uma força tarefa para garantir que atletas e espectadores tenham níveis de conforto em linha com os padrões dos Jogos Olímpicos.

Em Deodoro, serão disputadas competições de hipismo, ciclismo (BMX e mountain bike), pentatlo moderno, tiro esportivo, canoagem slalom e hóquei sobre grama. Para as federações, porém, a preocupação é que o local não esteja no padrão do COI para eventos de nível internacional.

INTENSIFICAÇÃO

COI também decidiu que, nesta fase de preparação, vai fazer visitas mensais ao Rio de Janeiro para acompanhar mais de perto o trabalho de equipes que lidam especialmente com marketing, energia, instalações esportivas, além de outros departamentos. Grupos de trabalhos ainda serão criados para lidar com questões específicas.

Teleconferências serão realizadas todas as segundas-feiras entre o COI e o Comitê Rio-2016, enquanto em Lausanne haverá duas reuniões por semana de avaliação.

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Jamil Chade, enviado especial a Lausanne

03 Março 2016 | 07h00

O presidente do COI, Thomas Bach, admite que a crise econômica no Brasil afetou a capacidade do Rio em fechar acordos de marketing para os Jogos de 2016 e decidiu adotar "medidas excepcionais" para ajudar o Brasil a receber o evento em agosto. Depois de ver um corte nos gastos de R$ 900 milhões, Bach afirmou que o COI "aprovou o novo orçamento" do Rio.

Ele, porém, indicou que o novo orçamento foi adotado nesta quarta-feira depois de o COI e as federações esportivas abrirem mão de seus projetos originais. "Federações nacionais, esportivas e o COI reconheceram a situação muito difícil que vive o Brasil. A crise está fora do alcance dos organizadores. E por isso decidimos apoiar nossos parceiros brasileiros. Orçamento equilibrado que o Rio apresentou é resultado de solidariedade do comitê organizador e do movimento olímpico", indicou.

O alemão não esconde que houve uma queda de receita com acordos de marketing. "Os acordos estão mais difíceis num país com tal crise, como no Brasil. Isso é obvio", disse Bach.

Outro ponto fraco das finanças são os ingressos. Os organizadores dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro venderam apenas 47% das entradas. No total, o comitê informou ao COI que arrecadou US$ 194 milhões com os ingressos, 74% da receita que era esperada.

Mario Andrada, diretor de Comunicação do Rio-2016, admitiu que a crise seria um dos motivos das vendas abaixo do esperado, principalmente para os Jogos Paralímpicos. Mas ressaltou que os principais eventos, como a abertura, "estão com as entradas esgotadas". Segundo ele, cabines eletrônicas vão ser instaladas pela cidade para garantir maior venda. Andrada garante que não teme "não vender os ingressos".

Bach também se mostrou confiante e culpou a "cultura" do País pelas vendas abaixo do esperado. "É outra cultura. Os brasileiros não compram tão cedo, como os ingleses ou alemães", disse. Segundo ele, as taxas de vendas são parecidas ao que se viu em Atenas, em 2004.

Integrantes do alto escalão do COI confirmaram ao Estado que, diante do cenário, o Rio "não tem outra opção" senão a de cortar custos. "Além da baixa procura por ingressos, a arrecadação com marketing está abaixo do esperado", confirmou um membro do COI, na condição de anonimato.

Bach, porém, usou sua coletiva de imprensa para afirmar que estava "confiante" que o metrô que liga a Barra da Tijuca a Ipanema estará pronto. "Temos a garantia do Governo do Rio", disse. O prefeito Eduardo Paes participou da reunião do COI por videoconferência.

"O prefeito disse que o apoio público continua acima de 70%. Isso é positivo diante da situação difícil do Brasil neste momento, com crises em diferentes áreas", justificou Bach.

ZIKA

Tanto o COI como o Comitê Rio-2016 deram garantias sobre a situação do zika na cidade. Para Carlos Arthur Nuzman, o surto não será um obstáculo. Bach indicou que recebeu garantias da OMS que o Rio de Janeiro “não é um hotspot” da epidemia. “Recebemos garantias sobre medidas tomadas”, indicou. “O comitê e autoridades estão controlando águas paradas nas instalações olímpicas e adotando medidas. O ar-condicionado na Vila Olímpica vai ajudar, assim como clima em agosto”, afirmou Bach. / J. C.

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Jamil Chade - Enviado especial/LAUSANNE

03 Março 2016 | 07h00

O presidente do Comitê Organizador da Olimpíada do Rio, Carlos Arthur Nuzman, e o diretor de comunicação do órgão, Mario Andrada, mantinham discursos diferentes sobre os cortes no orçamento dos Jogos. “Somos muitos transparentes. Estamos em um caminho muito bom. Não são cortes. Vamos organizar tudo com um orçamento mais equilibrado. Estamos fazendo o que nós prometemos”, disse Nuzman.

Ele afirmou ainda que “os Jogos não serão prejudicados. Os atletas terão tudo. Não há cortes que afetem os Jogos, os locais de eventos e atletas”.

Nuzman admitiu que existe a crise econômica. “Temos uma situação pior (do que em 2009, quando o Rio foi escolhido). Mas temos os pés no chão. Não só no Brasil, mas em todo o mundo, estamos em uma situação completamente diferente.”

Quanto à crise política, Nuzman também rejeita qualquer impacto na preparação. “Não tem nenhum impacto. Eles (políticos) estão todos unidos. Essa é a verdade”, insistiu.

Já Andrada admitiu “cortes impressionantes nos Jogos”, inclusive em construções temporárias e operações das instalações. O orçamento total da Olimpíada, por enquanto, está em R$ 7,4 bilhões.

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