Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Rio-2016 tem dívidas de R$ 117 milhões

Relatório oficial apontava rombo de R$ 132 milhões até dezembro, mas parte das pendências foi quitada. Valor deve ser pago com dinheiro público

Marcio Dolzan, Rio de Janeiro, e Jamil Chade, em Genebra, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2017 | 07h01

Os organizadores dos Jogos Rio-2016 ainda buscam R$ 117 milhões para fechar as contas. O valor refere-se aos gastos para realizar Olimpíada e Paralimpíada. O montante deveria ser oriundo exclusivamente de recursos privados, mas a dívida poderá obrigar prefeitura e governo do Rio – que passa por crise financeira – a abrirem seus cofres.

A pendência chegou aos R$ 132 milhões. Desde então, o Comitê Rio 2016 acelerou a renegociação de valores com os credores. Até o momento, conseguiu reduzir a pendência em R$ 15 milhões. Falta todo o resto.

A maior parte do rombo veio com os Jogos Paralímpicos. Semanas antes do seu início, em setembro, o comitê apontou a necessidade de “reduzir o escopo” da Paralimpíada por falta de recursos. O Comitê Paralímpico Internacional não aceitou e os governos federal e do Rio acenaram com aporte público.

A promessa era de que a União bancaria R$ 100 milhões com patrocínio de estatais, enquanto a prefeitura se comprometeu a liberar até R$ 150 milhões. Os valores, porém, ficaram na promessa. Os patrocínios de empresas públicas renderam cerca de R$ 70 milhões ao Rio-2016 e a prefeitura carioca repassou R$ 30 milhões.

O comitê aguarda pelo restante. “A gente enviou uma conta de R$ 76 milhões e as notas foram carimbadas pela prefeitura, mas o ex-prefeito Eduardo Paes (PMDB) não assinou a liberação do dinheiro”, informou o diretor de Comunicação do Comitê Rio-2016, Mario Andrada.

Paes foi irônico ao comentar os números. “Se teve algo que os Jogos não geraram foi prejuízo. Basta ver os lucros divulgados pelo COI”, disse, em nota. A administração do atual prefeito, Marcelo Crivella (PRB), e o governo do Rio não se manifestaram.

CUSTOS

Andrada nega que os Jogos tenham custado mais do que o previsto. “Nosso orçamento desde o dossiê de candidatura era de US$ 2,8 bilhões (R$ 8,65 bi), e se manteve. O que aconteceu é que não conseguimos arrecadar tudo ao fim do evento”, explica Andrada. 

A previsão orçamentária acabou não se confirmando porque o Rio-2016 não conseguiu vender todas as cotas de patrocínios e não houve interessados nos direitos de transmissão da Paralimpíada. As constantes mudanças sobre quem deveria bancar as obrigações previstas na candidatura contribuíram para o crescimento da dívida. 

Agora, a tendência é que o débito seja bancado com dinheiro público. Quando o Rio ganhou o direito de sediar os Jogos, os governos federal, estadual e municipal se comprometeram a pagar eventuais dívidas do Comitê Organizador. Em 2015, porém, um acordo liberou a União dessa obrigação. 

O Rio-2016 espera encontrar uma solução até o fim do ano. “Queremos resolver todas as pendências até o fim de 2017”, disse Andrada, que defendeu os Jogos. “A gente não se arrepende da maneira como os Jogos foram feitos. Temos orgulho.” 

RELATÓRIO

Dados das demonstrações contábeis do comitê revelam que, entre 2011 e 2016, a entidade havia distribuído a apenas oito diretores-executivos R$ 33 milhões em salários. Quanto aos impostos, a Rio-2016 se beneficiou de ampla isenção e, de uma renda de R$ 6 bilhões de 2016, pagou em taxas apenas R$ 4 milhões, menos de 0,1% da receita. Os executivos começaram recebendo, em 2011, R$ 2,7 milhões. Passaram para R$ 3,1 milhões, R$ 5 milhões, R$ 7,3 milhões e R$ 8,3 milhões em 2015. Os valores de 2016 foram de R$ 6,4 milhões.

Em gastos de viagens, destinaram-se R$ 24 milhões entre 2014 e 2015. Em 2016, o gasto chegou a R$ 22 milhões. Com as festas de abertura e encerramento foram R$ 54 milhões. As instalações temporárias consumiram R$ 668 milhões. Gastaram-se ainda R$ 7,7 milhões com honorários de advogados e R$ 2,9 milhões com serviços de lavanderia.

Levantamento do Estado com dados oficiais revela que os Jogos no Rio destoaram de pelo menos outros três eventos olímpicos que deram lucros aos organizadores. Em Londres, a receita chegou a 2,41 bilhões de libras esterlinas, contra gastos de 2,38 bilhões de libras. Em Atenas (2004), o Comitê Organizador registrou saldo positivo de 131 milhões de euros. Em 1996, em Atlanta, os organizadores não precisaram de um só centavo em recursos públicos e ainda deixaram para cidade instalações esportivas avaliadas em US$ 500 milhões.

No Brasil, “os principais fatores que afetaram a receita foram crise econômica, instabilidade política e surto de zika. Ademais, havia uma baixa procura de ingressos paralímpicos e patrocínios”, indicam os documentou. Mas, de acordo com o balanço, o presidente Michel Temer se recusou a reduzir a dimensão do evento e, num comunicado interno de 15 de julho de 2016, o governo garantiria R$ 250 milhões para o evento. Os recursos seriam divididos entre os diferentes níveis de administração.

COLABOROU ROBERTA PENNAFORT

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