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Ex-carroceiro favorito no Favela Open

Agencia Estado

16 Dezembro 2004 | 09h 26

Uma bolinha está mudando a vida de Gilmar da Silva Rocha, o Urango Senna. Há nove meses, o jovem de 18 anos ganhava a vida como carroceiro e não conhecia Gustavo Kuerten. Hoje, com um emprego e planejando a volta aos estudos, é um dos favoritos ao título no Favela Open, competição para 300 jovens da favela entre 7 e 18 anos que, nesta edição, terá a premiação feita por Maria Esther Bueno e dará espaço especial aos malabaristas de rua. Os jogos serão disputados de hoje a sábado em várias quadras do Capão Redondo e a final será na quadra central do bairro, apelidada de Rolangabrejo, que foi um antigo cemitério clandestino. O vencedor ganha um emprego em uma academia de tênis e material esportivo. A vida de Urango tem lances de novela. Sempre viveu no Capão Redondo, lugar de alto índice de pobreza e de fácil acesso à criminalidade. Para tornar tudo mais difícil, o pai deixou a família e o rapaz, para ajudar a mãe, abandonou os estudos e começou a ganhar a vida como carroceiro nas ruas do Itaim. "Era um trabalho duro. Começando cedo e terminando à noite rendia R$ 15,00." A vida de Urango começou a mudar quando jovens do Itaim começaram a criar um novo esporte: rachas entre carroceiros. Nas disputas, que incluíam apostas, Gilmar se tornou Urango Senna. "Urango porque sou forte e Senna por ser muito rápido." Na corrida mais importante, o rapaz venceu uma disputa que lhe rendeu R$ 5 mil. "Corri 5 km na Faria Lima em uma manhã de domingo. O dinheiro deu para fazer umas melhorias em casa." Espectador dos rachas, o cantor de músicas italianas Paolo, contou a história de Urango para o professor de tênis Jorge Nascimento, um ex-favelado que escapou da miséria por meio do tênis e recruta jovens carentes para o trabalho de pegadores de bola nas academias do Itaim. Com o patrocínio de Paolo e Luís Lara, mais a ajuda de Jorge, Urango trocou a carroça pelas bolinhas e, por sua força, foi promovido a rebatedor. "Dá para tirar uns R$ 20,00 por dia em bem menos tempo", conta o rapaz. "Minha idéia é ver se no ano que vem consigo voltar a estudar, fazer um supletivo, e fora isso já estou fazendo aulas de violão." Urango é um dos 86 jovens que Nascimento já encaminhou em seu projeto, cujo lema é, na verdade uma frase em tom de desafio: "eu quero ver dar errado..." Fila - Se Urango está sendo encaminhado, outros garotos do Favela Open estão na fila por uma oportunidade. É o caso do malabarista Daivid Lucas Prates, 13 anos, que assim que sai da escola no Bairro Aracati, próximo ao Jardim Ângela, vai para a Faria Lima. Enfrenta a vida e ajuda a família com quatro bolinhas de tênis, fazendo malabarismos. Agora está começando a aprender a jogar tênis para participar do Favela Open. "É um esporte legal, mas na TV parece mais fácil. Tem de ter o braço forte." Leonildo de Andrade, 14 anos, aproveita as férias da escola para ajudar o tio no trabalho de carroceiro e sonha em mudar de vida. "Eu via na TV e parecia que era baba. Não é tão fácil, mas é gostoso."

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