F1: calor de 60 graus dentro do carro

A opinião entre os pilotos é quase unânime: o GP da Malásia é o mais difícil da temporada. O calor médio de 35 graus e algo próximo de 60 graus dentro do cockpit submete esses profissionais ao maior desafio físico do campeonato. "Lembro-me de em 1999, na primeira edição da corrida, quando entrei na reta com o sol batendo forte em mim. A queimação era tanta que desviei minha Ferrari para o lado a fim de percorrer a reta num trecho de sombra que havia", contou nesta quinta-feira Michael Schumacher. Tudo é válido para tentar diminuir o estresse das 55 voltas da prova, para permitir aos pilotos manter o nível elevado de concentração que a Formula 1 exige. Nunca é demais recordar que um erro pode lhes custar a vida. Os 22 pilotos inscritos na competição desembarcaram em Kuala Lumpur, a capital malaia, já com boa dose de preparo físico na bagagem para as condições extremas da disputa. "Viajei para Bali, acompanhado do meu personal trainer, e submeti-me, sob temperaturas semelhantes a esta, a um programa intenso de exercícios", disse Kiki Raikkonen, da McLaren. Michael Schumacher trabalhou em Langkawi, ilha na Malásia, David Coulthard, da McLaren, na Tailândia, e Rubens Barrichello, em São Paulo. "Além de seguir o programa de treinamento, recomendamos a ingestão de muita fruta e verdura, como fonte de sais minerais, e de uma bebida isotônica, preparada por mim, também rica de sais e vitaminas", diz Raniero Giannotti, responsável pela preparação de Rubinho. No caso da Ferrari, os mecânicos que operam nos boxes durante a corrida também ingerem a mesma bebida. "Eles trabalham durante duas horas com um macacão e nos pit stops usam até capacete, portanto estão submetidos igualmente a elevado desgaste físico", explicou Giannotti. "Se ocorrer um problema num momento decisivo da prova, como num pit stop, por exemplo?", questiona. "Há três anos fiz um controle criterioso da perda de peso durante as 55 voltas e detectei que Rubens, na época na Stewart, perdeu 4,1 quilos." Ao contrário do que se pensa, os pilotos não podem transportar o volume que desejarem de bebidas hidratantes. "Não há espaço no cockipt. Eles têm de administrar como consumir o pouco mais de um litro de que dispõem", explica Giannotti. Curiosamente, o GP da Malásia será, a rigor, o primeiro da temporada para os três pilotos brasileiros na F-1. Barrichello e Felipe Massa envolveram-se no acidente na largada de Melbourne e Enrique Bernoldi, da Arrows, teve problemas elétricos no grid. "Será, espero, a minha primeira corrida e aquele que é considerada a mais difícil por quase todos", comentou Massa, da Sauber. Ele trabalhou um semana junto do preparador Josef Leberer em Kuantan, cidade de praia na Malásia. "Foi bem puxado." Não há no carro da Sauber nenhuma tomada de ar especial para aliviar a temperatura dentro do cockpit, como na Ferrari. No time italiano há um pequeno orifício na porção frontal do cockpit, que só é aberto para a corrida, a fim de não causar nenhum arrasto (resistência) aerodinâmica nos demais dias, em especial na classificação. Na Williams também não existe tomada de ar para os pilotos, segundo Montoya, embora para ele a etapa mais desgastante seja a da Hungria, em Budapeste. "É igualmente muito quente e a pista não tem retas como aqui, onde ainda dá para relaxar um pouco." Já houve algumas tentativas de se usar macacões equipados com sistema de refrigeração. "Testamos ano passado, mas depois de três voltas paramos nos boxes para retirar tudo. Pesava e incomodava a pilotagem", explicou Barrichello. A Jaguar também chegou a desenvolver, ano passado, uma roupa para ser usada sob o macacão, dotada de canalizações para a emissão de água. Eddie Irvine e Luciano Burti não aprovaram seu uso. Essa é uma das áreas em que a F-1, apesar de muito evoluída em quase tudo o que se refere à redução do estresse do piloto, ainda não investiu como deveria. Menos desgaste do piloto significa maior desempenho.

Agencia Estado,

14 Março 2002 | 20h07

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