Darron Cummings/AP
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Fernando Alonso vai em busca do sonho da tríplice coroa em Indianápolis

Piloto espanhol larga em quinto lugar nas 500 Milhas com o sonho de repetir o sucesso obtido na Fórmula 1

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2017 | 19h54

O espanhol Fernando Alonso vai em busca neste domingo da segunda parte da tríplice coroa do automobilismo. Após ganhar dois títulos mundiais de Fórmula 1 e se ver agora como coadjuvante na categoria, o piloto abriu mão de disputar o GP de Mônaco para participar das 500 Milhas de Indianápolis, a etapa mais tradicional da Fórmula Indy e capaz de lhe colocar em um seleto grupo de vencedores.

Apenas dez pilotos com passagens pela Fórmula 1, cinco deles campeões mundiais, conseguiram ganhar as 500 Milhas. Mas o sonho de Alonso vai até um patamar ainda mais raro. O espanhol quer a vitória nos Estados Unidos para futuramente vencer as 24 horas de Le Mans e ter a tríplice coroa do automobilismo. Apenas o britânico Graham Hill conseguiu esse feito.

O bom desempenho nos treinos e o quinto lugar no grid mostram a vontade do espanhol em fazer história. "Será uma experiência totalmente diferente, porque em um oval você experimenta velocidades altas durante toda a volta. É importante aprender, sentir o carro, mas na hora da corrida será tudo diferente", comentou Alonso.

A rápida adaptação da Fórmula 1 para uma categoria diferente teve como ajudante o brasileiro Gil de Ferran. O ex-piloto treinou Alonso para essa transição. Procurou o espanhol e se ofereceu para fazer o trabalho. A ousada decisão de recusar correr em Mônaco para experimentar a sensação de pilotar a quase 400 km/h em um oval pode render um prestígio que há tempos o piloto espanhol não vive.

Alonso ganhou os mundiais de 2005 e 2006 e depois ficou três vezes com o vice-campeonato na F-1. Nas últimas temporadas o carro pouco competitivo da McLaren deu ao espanhol mais visibilidade pelas piadas do que pelos resultados. 

Em 2015, durante o GP do Brasil, em Interlagos, por exemplo, seu carro quebrou durante os treinos, fazendo o piloto reagir com deboche, ao se sentar em um cadeira para tomar sol ao lado da pista. Na volta aos boxes, correu para tirar foto no pódio e depois comentou: "Passei e disse que não estaria lá tão cedo".

FAVORITO

Em Indianápolis o espanhol revive a sensação de ser estrela e a expectativa de poder vencer. "Ele sempre foi competitivo, de querer chegar mais cedo que você só para botar pressão psicológica", contou o ex-piloto Tarso Marques, colega de equipe de Alonso no ano de estreia do piloto na Fórmula 1, em 2001. "Por ter um talento incrível, não vai sentir a adaptação à Fórmula Indy. Acho até que é um sério candidato a ganhar a prova", completou Marques, que também guiou pela Indy.

Os concorrentes também apostam que o ‘novato’ Alonso vai dar trabalho na pista. "Eu ficaria surpreso se ele tiver dificuldade. Acredito que a experiência será muito boa para a carreira dele", disse Hélio Castroneves, tricampeão da prova.

Segundo o coach da Academia Shell e especialista na formação de pilotos Dennis Dirani, a corrida vai apresentar ao espanhol dificuldades que não foram vivenciadas nos treinos. "Por ser oval, tem muito tráfego e vácuo. Então, terá de se adaptar ao estilo. Nas 500 Milhas o que importa são as duas últimas voltas. Só nessa hora se decide o vencedor", avisou Dirani.

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ANÁLISE: 'Se Alonso aprender a andar na turbulência, será o favorito a ganhar'

Para bicampeão Emerson Fittipaldi, espanhol tem que usar a primeira metade da prova para se acostumar ao oval

Emerson Fittipaldi, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2017 | 19h00

Na minha opinião, e já falo isso nos últimos anos, acho que o Fernando Alonso é o piloto mais completo da Fórmula 1 hoje. O talento dele é excepcional. É um corredor nato. Na hora da disputa, está sempre forte. Quando baixa a bandeira, ele é sempre competitivo. Ele já mostrou esse talento excepcional na primeira vez em que andou em Indianápolis, ao se classificar na quinta posição entre os mais de 30 carros que tem lá. É uma prova do enorme talento dele para pilotar. Se eu tivesse uma equipe de Fórmula 1 atualmente, eu contrataria o Fernando Alonso com piloto.

Agora, a dificuldade que ele vai ter nas 500 Milhas é o vácuo, a turbulência, pois em Indianápolis você anda a quase 400 km/h nas retas. A essa velocidade, se estiver andando em um grupo de três ou quatro carros, vai afetar a asa dianteira, a asa traseira e isso requer horas de voo para se aprender a controlar. É só na prática, só na corrida.

Como o Fernando tem muito talento e está largando tão bem, por sair em quinto, acho que ele vai se manter no pelotão da frente e aos poucos vai aprender a andar na turbulência, até alcançar os retardatários. Como isso é rápido em Indianápolis, talvez em umas 12 voltas, ele vai passar a ter a dificuldade de turbulência. Então, as primeiras 100 ou 200 milhas vão servir para ele se habituar ao vácuo, a guiar o carro nessa situação. Depois, na metade da corrida para frente, ele pode atacar os concorrentes. 

Em comparação à Fórmula 1, o estilo de pilotagem precisa ser muito mais suave, porque não aceita erros, pela velocidade altíssima, de quase 400 km/h. O oval exige ser muito mais progressivo quando vira o volante para a curva e isso, para um piloto do nível dele, foi um aprendizado rápido, uma adaptação instantânea. 

A parte física não pesa tanto, é mais o mental. A corrida é longa, umas 3h30, então como você anda no oval, está com a adrenalina no limite o tempo todo e o reflexo tem de estar pronto. Será preciso ter o dom de sentir o que o carro vai exigir antes mesmo da manobra ser necessária.

Quando estreei na Fórmula Indy, em 1984, com a participação em algumas corridas, eu tive dificuldade de adaptação, principalmente pela turbulência. O importante é o Fernando Alonso aprender durante a primeira metade da corrida a como trabalhar no vácuo. Depois, ele vai embora, porque é muito talentoso, é o favorito. Ele certamente está com sede de vitória porque há tempo não ganha na Fórmula 1.

Como um evento em um único dia, não existe no automobilismo algo tão grandioso quanto as 500 Milhas de Indianápolis. Como campeonato, obviamente, ganhar a Fórmula 1 é mais importante. Lembro que nos dias das minhas vitórias nas 500 Milhas foram emoções incríveis, foram muito especiais, porque você entra para a história.

* BICAMPEÃO MUNDIAL DE F-1 (1972/1974), DUAS VEZES VENCEDOR DAS 500 MILHAS DE INDIANÁPOLIS (1989/1993) E CAMPEÃO DE FÓRMULA INDY (1989)

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Antigos campeões da Fórmula 1 fracassaram ao se arriscar nas 500 Milhas

Piquet, Farina e Fangio chegaram a viver a decepção de não conseguir largar em Indianápolis

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2017 | 19h00

Fernando Alonso será o 11.º campeão mundial de Fórmula 1 a tentar a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis, prova que será realizada neste domingo. Se o espanhol teve cinco antecessores que ganharam a prova, também tem outros exemplos de insucessos para usar como alerta.

Na década de 1950, o italiano Giuseppe Farina e o argentino Juan Manuel Fangio ganharam juntos seis títulos mundiais de Fórmula 1. Mas, ao tentarem a disputa da tradicional prova no oval, eles não conseguiram sequer tempo para a largada.

O caso mais marcante de frustração nas 500 Milhas foi o do tricampeão mundial Nelson Piquet. Em 1992, um ano após deixar a Fórmula 1, o brasileiro sofreu um grave acidente nos treinos livres, ao bater forte num muro e ter fraturas nas duas pernas. Na edição seguinte, ele novamente tentou correr, porém teve problemas mecânicos no carro no começo da prova.

Apesar de não ter sido campeão mundial, o francês Jean Alesi foi o fracasso mais recente de um ex-Fórmula 1. Em 2012, ele foi desclassificado da corrida por estar lento demais.

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Dez pilotos da Fórmula 1 já venceram as 500 milhas de Indianápolis

Desde campeões mundiais até nomes com passagem pouco expressiva conquistaram o sucesso no circuito oval

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2017 | 19h00

A mesma incursão nos ovais americanos que será arriscada por Fernando Alonso, neste domingo, já foi feita por dezenas de outros pilotos da Fórmula 1. O espanhol bicampeão do mundo com a Renault em 2004 e 2005 tenta se inspirar nos exemplos de dez antigos competidores da F-1 que conseguiram vencer as 500 milhas da Indianápolis em edições anteriores. 

1965 - Jim Clark

O escocês bicampeão mundial de Fórmula 1 teve a mesma atitude de Fernando Alonso, ao abrir mão do GP de Mônaco e optar pelas 500 milhas de Indianópolis. O piloto vencer a prova americana na terceira tentativa.

1966 - Graham Hill

O inglês conciliou a carreira de dois títulos mundiais na Fórmula 1 com passagens vitoriosas nas 24 Horas de Le Mans e nas 500 milhas de Indianápolis, prova que disputou três vezes e ganhou logo na primeira disputa.

1969 - Mario Andretti

O americano iniciava carreira na Fórmula 1 quando em uma das suas 29 largadas nas 500 milhas, obteve o primeiro lugar. Anos depois, em 1978, ele conquistou o título da principal categoria do automobilismo, com a Lotus.

1972 - Mark Donohue

Com uma carreira abreviada pelo acidente fatal em 1978, o americano de apenas 14 corridas na Fórmula 1 conseguiu ser mais marcante nas 500 milhas de Indianápolis. Em cinco provas no oval, ele foi o segundo em 1970 e o vencedor, dois anos depois.

1985 - Danny Sullivan 

Apesar de ter se frustrado na única temporada na F-1, com dois pontos marcados em 1983, o americano se deu bem em Indianápolis dois anos depois, ao vencer após evitar uma forte batida no muro enquanto rodou em uma das curvas.

1989 e 1993 - Emerson Fittipaldi

O brasileiro bicampeão mundial de F-1 estreou na Indy em 1984 e conquistou duas vitórias em Indianápolis. Na primeira vez, a conquista lhe ajudou a terminar como o campeão da temporada e na outra, o primeiro lugar veio depois de uma disputa acirrada com Nigel Mansell.

1995 - Jacques Villeneuve 

Antes de ser campeão mundial de Fórmula 1, em 1997, o canadense experimentou a glória da Indy. Dois anos antes, ganhou a temporada e a prova em 1995, ao superar o brasileiro Christian Fittipaldi, o segundo colocado.

1998 - Eddie Cheever 

O americano com mais corridas pela Fórmula 1, 132, voltou ao automobilismo do seu país na década de 1990. Já aos 40 anos, em 1998, ganhou as 500 milhas de Indianápolis na nova tentativa e a bordo do carro da própria equipe, a Team Cheever.

2000 e 2015 - Juan Pablo Montoya

O colombiano de estilo arrojado de pilotagem está na segunda passagem pela Indy. Na primeira, ganhou a prova em Indianápolis e se credenciou para disputar seis temporadas na F-1. Após voltar aos Estados Unidos, retomou os bons resultados nos ovais e ganhou de volta as 500 milhas, em 2015.

2016 - Alexander Rossi

Após disputar apenas cinco corridas na Fórmula 1 e sem bons resultados, o americano ganhou e venceu na estreia nas 500 milhas. No ano passado, Rossi surpreendeu os favoritos e conseguiu cruzar a linha de chegada com o combustível quase no limite.

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