Gerhard Berger abre o jogo sobre a F1

A Ferrari venceu o GP do Brasil. E os pneus da equipe, Bridgestone, tiveram grande responsabilidade na conquista. Mas seu concorrente, Michelin, há apenas pouco mais de uma temporada do seu retorno à Fórmula 1, também já ofereceu a seus times, em especial a Williams, pneus que contribuíram decisivamente para a vitória, a exemplo do GP da Malásia. "Pouca gente sabe, mas fui eu quem, em 1999, foi procurar a Michelin para convencê-los a voltar conosco para a Fórmula 1", afirmou neste domingo Gerhard Berger, diretor-esportivo da BMW, numa conversa em que abordou também as diferenças entre sua era de piloto e hoje, a amizade com Ayrton Senna e o prazer de viajar pelo Brasil. "Posso dizer que essa minha atividade, agora gerencial, não é frustrante porque desde a minha chegada estamos ganhando várias corridas", comenta o austríaco de 42 anos. A ascensão da Williams-BMW, líder entre os construtores, está coincidindo com a da Michelin. "Isso é o mais gostoso de estar neste meio, ver seu grupo crescendo junto com você, num universo de resultados tão imprevisíveis." O segredo: ele responde: "Escolher as pessoas certas. Nada menos de 90% de nossos profissionais não vêm da Fórmula 1." O eficiente desempenho do ano passado da Williams-BMW-Michelin gerou importantes convites a vários integrantes da equipe. "Tivemos a preocupação de não criar nenhum técnico super star. Se ele sai, tudo vai por água abaixo." Caso a BMW perca um dos seus projetistas, "não ficará acéfala, como alguns dos nossos concorrentes." Os dois pilotos da sua escuderia, Ralf Schumacher e Juan Pablo Montoya, segundo e terceiro colocados no Mundial, não têm chances de serem campeões, diz, surpreendentemente. "Nenhuma possibilidade. Talvez possamos ganhar o campeonato de construtores, mas só depois de Barcelona terei uma idéia mais precisa." Sua argumentação: "Não existe na Williams primeiro e segundo piloto. Um tira ponto do outro, o que é bom para o Mundial de Construtores, mas muito ruim para o de pilotos." Ele não demonstra intenção de interferir na política de Frank Williams de não privilegiar um ou outro, como na Ferrari. Inevitavelmente Berger se lembra de seu tempo de piloto. Ele correu de 1984 a 1997 - disputou 210 GPs -, venceu 10 e seu melhor resultado final foi a 3ª colocação em 1988 e 1994. "O que a Fórmula 1 exige de um piloto hoje é diferente da minha época", conta. "Tome como exemplo Jean Alesi (seu ex-companheiro de equipe), mas há muitos outros, que é excepcionalmente rápido, mas se você o chama pelo rádio, seus tempos de volta, vejo no computador, pioram muito."Atualmente um piloto deve ser capaz de desenvolver o seu trabalho e estar atento a várias interferências externas, em especial entender como funcionam os recursos eletrônicos." Em compensação, comenta, é difícil imaginar qual seria a reação dos pilotos hoje se tivessem de disputar o GP de Mônaco sem direção hidráulica e alavanca de câmbio na mão. "Manter a trajetória do carro só com a mão esquerda no volante porque a direita está substituindo marchas seria um desafio para os profissionais de hoje." O avanço tecnológico é inevitável na Fórmula 1, apesar dos efeitos de seu uso se contraporem à filosofia básica das exigências de pilotar, diz. Fale de automobilismo com ele, mas não o rotule de "último romântico das pistas." A resposta é dura: "Não, por favor, esse é um conceito relacionado a sexo. Me considero apenas um piloto de uma época mais charmosa", disse o ex-piloto, que tinha fama de namorador. Berger não esconde sua admiração pelo Brasil. Ele é casado com a portuguesa Ana Corvo, que viveu no Rio de Janeiro, "em Ipanema", informa, até os 14 anos de idade. "Surpreendo-me toda vez que venho aqui, como agora, que estive no Recife, e as pessoas ainda me reconhecem. Deve ser da minha convivência com Ayrton Senna." Os dois trabalharam juntos na McLaren, de 1990 a 1992. "Fomos grande amigos e se ele estivesse vivo certamente o seríamos até hoje." O austríaco não gosta de tocar em velhas histórias engraçadas, como o dia em que pediu a mala de mão de Senna e a lançou do helicóptero em que voavam. "Essas brincadeiras eu faço com qualquer um, Senna era especial." Sua maior habilidade, descreve, era mental. "Senna tinha enorme capacidade de pilotar, mas mentalmente era muito forte e isso fazia sua diferença." Qual o melhor, Michael Schumacher ou Ayrton Senna? Ele responde: "Os dois foram os melhores de suas épocas dentro do carro. Fora dele, no entanto, Senna foi o piloto mais carismático que conheci."

Agencia Estado,

31 Março 2002 | 20h56

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