Arte/Estadão
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Pilotos apostam em malhação para guiar os novos carros na Fórmula 1

Atletas vão à academia a fim de ganhar condicionamento para pilotar monopostos mais velozes e robustos

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

20 Março 2017 | 06h00

Mais velozes e mais fortes. Assim serão os carros da Fórmula 1 nesta temporada, que começa no fim de semana, na Austrália. Para acompanhar os robustos monopostos, os pilotos suaram a camisa nos últimos meses. Do jovem holandês Max Verstappen ao veterano finlandês Kimi Raikkonen, todos deram atenção especial à preparação física, uma consequência direta das mudanças no regulamento técnico que deixaram os carros mais pesados e maiores, e até cinco segundos mais rápidos do que os do ano passado.

Bicampeão da F-1, o espanhol Fernando Alonso se concentrou na musculação e intensificou as pedaladas em sua bicicleta. Seu compatriota Carlos Sainz Junior optou pelos treinos de boxe e crossfit para aperfeiçoar força e agilidade. Já o alemão Sebastian Vettel, dono de quatro títulos, voltou a dar atenção ao badminton para melhorar o reflexo. O australiano Daniel Ricciardo, assim como quase todos os rivais, escolheu o treinamento funcional. Em comum, todos se mexeram mais.

Único brasileiro do grid de 2017, Felipe Massa foi além e contratou um personal trainer para acompanhá-lo 24 horas por dia nas 20 etapas do ano. “Estou me exercitando e treinando mais do que nunca. E, como estou com 35 anos, preciso trabalhar ainda mais. É um desafio”, diz o experiente piloto.

Toda essa preocupação não é por acaso. Os carros deste ano podem ser até 40 km/h mais velozes nas curvas. E a aceleração da gravidade poderá atingir até 5G em trechos mais rápidos. Essas mudanças técnicas vão exigir mais do coração e dos músculos dos pilotos, principalmente do tronco e do pescoço.

“Com os carros mais agressivos, estamos fortalecendo mais o pescoço e fazendo um trabalho cardiovascular intenso”, explica ao Estado o preparador físico de Massa, Alex Azevedo. O pescoço tem atenção especial por sustentar a parte do corpo que fica para fora no carro e recebe a “pancada” do vento.

A mesma força da gravidade que balança a cabeça de um lado para o outro, a cada curva, exige um tronco mais forte e coração mais resistente. “A musculatura na região do abdômen e da lombar precisa se fortalecer para aguentar o tranco do carro”, diz Azevedo, que já trabalha com Massa há um ano e meio, mas somente em janeiro passou a fazer a preparação completa do piloto da Williams. Em dez dias, Massa já ganhou 2 kg de massa muscular.

Ao mesmo tempo que exige do tronco, a maior velocidade cobra mais do coração. Isso porque o piloto sofre maior força da gravidade no carro, o que dificulta os movimentos. Por consequência, cada ação exige mais esforço, o que causa mais estímulo ao coração. “A frequência cardíaca pode atingir até 200 bpm (batidas por minuto)”.

A concentração do atleta precisa ser tão intensa quanto os batimentos cardíacos. “O raciocínio tem de ser muito rápido porque ele precisa controlar o carro, que está a mais de 300 km/h, ao mesmo tempo em que recebe orientações do engenheiro pelo rádio, administra os pneus e presta atenção nos ‘caras’ querendo ultrapassá-lo”, diz o preparador.

Para dar conta de todas as ações, Massa faz exercícios inspirados em diferentes técnicas, como crossfit, pilates e funcional. “Fazemos um trabalho multidisciplinar, com parte aeróbica, anaeróbica, força, equilíbrio, coordenação motora, flexibilidade, além de concentração e raciocínio”, explica Azevedo.

Como trunfo, o brasileiro conta com a experiência de já ter pilotado carros como esses, com aderência e forças de aceleração semelhantes, no início da sua carreira na F-1.

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Preparador físico de Felipe Massa fala sobre treinamento do brasileiro

Alex Azevedo responde a três perguntas da reportagem em rápido bate-papo

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

20 Março 2017 | 06h00

Como é um dia de treinamento do Felipe Massa?

Acordamos cedo, tomamos café juntos e já vamos para a rua correr cerca de 8 quilômetros. Depois, treinamos na academia, com circuitos, focando também na frequência cardíaca. Descansamos um pouco após o almoço e, à noite, o Felipe faz repetições laterais, frontais e rotacionais com o capacete com 7 kg de chumbo, sendo que o capacete normal tem apenas 1 kg. Por fim, faço um alongamento passivo, uma soltura muscular e aí ele vai dormir.

Com 35 anos, que é a idade do Massa, o piloto exige um trabalho diferenciado em relação aos mais jovens?

Não. Ele está em extrema boa forma. A breve aposentadoria não atrapalhou em nada. Se pegar uma foto dele de um ano e meio atrás e outra de agora, vai se surpreender. Eu até brinco que ele tem de procurar o halterofilismo porque a F-1 não dá mais para ele. Em Barcelona, nos testes da pré-temporada, o paddock inteiro comentava que o Felipe estava mais forte.

Como é o trabalho para aperfeiçoar o reflexo do piloto na pista?

Fazemos um exercício em que ele fica de joelhos sobre a bola suíça. Eu coloco números de 1 a 10 na parede e fico de longe cantando os números enquanto ele toca no número correspondente o mais rápido possível. Se errar, faz flexão de braço. Paga dez!

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