Quem não fala inglês sofre na F-1

"Do you speak english?" (Você fala inglês?), é certamente a frase mais popular no Autódromo de Interlagos. É praticamente impossível trabalhar no Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 falando apenas português. A Federação Internacional de Automobilismo (FIA), tem o inglês e o francês como línguas oficiais. Nas equipes, para diminuir os problemas de comunicação entre os profissionais que nelas trabalham, o inglês foi adotado como língua padrão para conversas por rádio. O supervisor das áreas de boxe Vágner de Freitas está sentindo na pele as dificuldades. Em seu primeiro ano na função, o inglês sai "aos soquinhos", misturado com gestos, quando precisa explicar para um dos funcionários da Jaguar que precisa buscar um documento assinado mais tarde. No fim, apesar da dificuldade, tudo dá certo. "Ai meu Deus, como meu inglês é ruim", desabafa. Freitas, que fora de Interlagos é sócio de uma empresa de informática, diz que as coisas melhoram quando acha alguém que fala espanhol. "Mas são poucos aqui", constata. O supervisor ressalta que seu maior desafio é "destravar" a língua. "Como eu gosto da língua e estou acostumado a ler, não tenho muita dificuldade para entender, falar é uma desgraça", admite. Mas quem não fala português também sofre. O responsável pela área de catering (abastecimento de alimentos) da equipe Jaguar, o australiano Brandon Kronk, sabe que não pode fazer compras em um supermercado de São Paulo sem contar com a ajuda de alguém que fale português. "Quando não há uma pessoa da equipe para ir comigo, chego ao supermercado e vou perguntando "do you speak english?" até encontrar alguém que fale inglês e possa me ajudar", conta. "Às vezes, também acabo me virando com gestos." Kronk afirma que os problemas no Brasil, um país de língua portuguesa, não chegam a ser tão grandes quanto os enfrentados nos países asiáticos, especialmente no Japão. "Lá, se você não encontra alguém que fala inglês, está perdido", garante. João Carvalho de Souza, almoxarife da Arrows, teve de aprender inglês "na marra" para sobreviver. "Na equipe, os únicos que não são ingleses sou eu e o piloto", diz. O brasileiro conta que quando chegou à equipe junto com Christian Fittipaldi, há oito anos, não falava uma palavra de inglês."Aconteceu comigo o que acontece com jogador de futebol quando vai para o exterior: aprendi falando com as pessoas", diz. A principal ajuda, segundo ele, veio de um mecânico que recebeu do diretor da escuderia na época, Tom Walkinshaw, a incumbência de ensiná-lo no dia-a-dia. Souza, que ganhou o apelido de McGuiver por sua capacidade de "dar um jeitinho" e resolver todos os problemas, diz que superou sua dificuldade prestando muita atenção para aprender a nova língua. Hoje, fala inglês fluentemente e no Brasil, torna-se figura fundamental. Afinal, é o único na equipe capaz de traduzir do inglês para o português.

Agencia Estado,

26 Março 2002 | 19h48

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