Baixa estatura não inibe Valeskinha

O meio-de-rede da seleção brasileira Gustavo tem 2,03 metros, altura considerada boa para um bloqueador em âmbito internacional. Pega a bola, para o bloqueio, a 3,25 metros do chão. Em duas ocasiões, na Liga Mundial de 2001 e no Campeonato Mundial de 1998, foi eleito o melhor bloqueador do mundo. A também central da seleção Valeskinha tem 1,80 metro. É baixa para a função no vôlei feminino mundial. "Para uma bloqueadora, o ideal é ter 1,90 metro", afirma a jogadora, que desbancou a gigante e experiente russa Tichtchenko, de exato 1,90 metro, e foi considerada a melhor bloqueadora do último Grand Prix. "Um bloqueio aqui, outro ali e fui acumulando uns pontinhos. No fim da história, tive o melhor aproveitamento. Dá para acreditar?", pergunta a atleta, peça importante da seleção no Mundial, que está sendo disputado na Alemanha. Neste domingo, o Brasil enfrenta a Austrália, às 12 horas (horário de Brasília), com transmissão da Globo e SporTV. Valeskinha, de 26 anos, que alcança a bola a 2,90 metros do chão para bloquear e a 3,02 metros para atacar, compensa a pouca altura com a impulsão. E aqui cabe uma explicação básica: é filha de Aída dos Santos, do salto em altura, quarta colocada na Olimpíada de Tóquio, em 1964, primeira brasileira a disputar uma prova de atletismo em olimpíadas. "Deve ser genético", brinca a jogadora, que já conquistou outros dois prêmios individuais na carreira: o de melhor bloqueio no Mundial Infanto-Juvenil, em 1993 (o Brasil ficou em quinto lugar), e o de melhor atacante no Mundial Juvenil de 1995 (medalha de prata). "Acho que o negócio é não pensar em bloquear todas as bolas porque assim não pego nada. É preciso treino e perseverança. Consegui um prêmio, tê-lo de novo é outra história." Antes de chegar ao vôlei, Valeskinha experimentou várias modalidades, por insistência da mãe - natação, balé, basquete, ginástica rítmica, atletismo... Treinou salto em altura, corrida com barreiras, arremesso do peso... A mãe era a treinadora na Mangueira e depois no Vasco. "Na pista, ela dizia que não era a minha mãe. Eu não tinha moleza..." Aprendeu os fundamentos do vôlei nas aulas de educação física que Aída dava na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Para não atrapalhá-la, ficava batendo bola na parede - Aída joga vôlei em torneios de veteranos. "Aos 13 anos, quando tive de optar entre vôlei e atletismo, fiquei com o vôlei porque dividia a quadra com outras jogadoras. O atletismo me cansava muito." Completa - Valeskinha chegou à seleção adulta este ano com Marco Aurélio Motta - a primeira convocação foi em 1992, para o Sul-Americano Infanto-Juvenil. Mas já trabalhou com treinadores selecionáveis como Bernardinho (Rexona) - foi campeã da Superliga na temporada 1999/2000 -, José Roberto Guimarães (BCN/Osasco) e Luizomar de Moura (Flamengo). Zé Roberto e Bernardinho disseram certa vez que se Valeskinha tivesse mais 10 centímetros seria uma boa bloqueadora. "Ela nunca aceitou essa condição de ser baixa para uma central. Mas esse foi seu combustível", declara Luizomar, um fã declarado da jogadora. "O sangue olímpico corre nas veias dessa menina. Ela é batalhadora, inteligente, completa. Chegou a jogar de líbero no Rexona e hoje, com a seleção, também faz o fundo de quadra." Para Luizomar, campeão da Superliga em 2001/2002 com ela no time, a atleta explora as deficiências das adversárias. "No Grand Prix, subestimaram sua altura. Quando estava na rede, as levantadoras rivais forçavam o jogo nela. Mas a Valeskinha ia lá e pegava a atacante no bloqueio. Digo com toda a felicidade que está quebrando tabus no vôlei."

Agencia Estado,

31 Agosto 2002 | 13h51

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