SERGIO CASTRO | ESTADÃO CONTEÚDO
SERGIO CASTRO | ESTADÃO CONTEÚDO

Demétrio Vecchioli, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2017 | 17h00

José Roberto Guimarães resolveu contribuir de uma forma diferente para o vôlei: na formação de jogadoras. E já conseguiu os primeiros frutos de um projeto que toca com a alma e o coração, além de dinheiro do próprio bolso no início. Ele sonha também ter um time modelo na liga principal. “O Zé tem todas as medalhas do mundo, só falta da segunda divisão da Superliga’’, brinca, falando de um cenário real, o supervisor técnico do Hinode Barueri, Benedito Crespi, que até o ano passado montava elencos em Osasco pensando em títulos mundiais. Só mesmo a reputação do treinador para levar Benê e tanta gente boa para um projeto tão embrionário, nascido em outubro, mas que já festeja alguns resultados.

Menos de um mês depois veio o primeiro título, da Taça de Prata, terceira divisão nacional – ao menos essa medalha inédita o técnico tricampeão olímpico garantiu no currículo.

É claro que essa turma não foi a Barueri em busca de conquistas em divisões inferiores. Começar de baixo é caminho natural para chegar à Superliga, independentemente das aspirações. A ideia de formar e ter um time mexeu com o treinador.

Zé Roberto ignorou convites de alguns dos melhores times e seleções do mundo para focar na nova empreitada – e começou a correr. “Em vez de conseguir o patrocínio (primeiro) e só depois formar o time, montamos a equipe e (depois) corremos atrás do patrocínio”, diz.

A comissão técnica é praticamente a mesma da seleção e todos sonham com o chefe: transformar Barueri, cidade da Grande São Paulo em que escolheu viver há 30 anos, em referência no vôlei. “Eu coordeno as categorias de base da seleção e, para minha surpresa, quatro meninas do time sub-19 eram de Barueri ou da região. Não poderíamos deixar esse trabalho morrer”, afirma. Culpando a crise econômica, a prefeitura de Barueri encerrou em 2016 os projetos de formação em diversas modalidades, inclusive o vôlei.

Ao fazer isso, deixou de alugar o CT que Zé Roberto construiu na cidade em 1992 e que já foi casa do futebol de base do São Paulo e do time do Desportivo Brasil. O local ficou ocioso.

À essa soma de fatores, inclui-se também a necessidade, detectada pelo treinador, de o Brasil voltar a formar com qualidade. “Acho que o que está mais difícil é encontrar talentos.”

Por isso, mesmo sem ter recursos para o juvenil, mantém 13 jovens atletas no CT. Questionado sobre os motivos, repete em tom de conformação: “Porque senão não acontece. Vale a pena tentar fazer. Se não fizer alguma coisa, não vai sair.”

Zé conta que, certo dia, um pai chegou ao CT às 4h30 da madrugada trazendo a filha. Tomou café da manhã, deixou a menina sob a tutela do técnico da seleção e pegou tranquilo a estrada de volta a Minas Gerais. “Sem essa estrutura do Zé Roberto, o projeto não existiria”, explica Benê. Antes de conversar com o Estado, na quinta-feira, o técnico recebeu o pentacampeão Edmílson, que queria alugar o espaço. Daniel Alves também já havia tentado. Ouviram que o local era a casa do Hinode Barueri, seu novo time.

Ali, o treinador está a apenas 10 minutos de casa. “Mais gostoso do que trabalhar perto de casa é trabalhar com a família”, diz. A esposa, Alcione, administra o CT. As filhas o ajudam a cuidar da carreira. Anna Carolina, a mais velha, ainda é a diretora de marketing da equipe.

Apesar do projeto, Zé Roberto continua técnico da seleção. Na semana que vem, trará pelo menos uma dúzia de barras de chocolate suíço para pagar apostas com as jogadoras. Ficará uma semana na Europa a fim de representar o Brasil na comissão de técnicos da federação internacional. Duas vezes por semana, em média, também viaja para palestras, sempre preocupado em voltar para dar treino.

Sob seu comando, o Barueri está invicto. Venceu três jogos da Superliga B e, se ganhar do Bradesco, pela 5.ª rodada, deve garantir o 1.º lugar da fase de classificação. Aí, vai direto à semifinal. A expectativa pelo acesso, e título, é tanta que a partida final, em abril, foi adiada a pedido de uma emissora de tevê.

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Demétrio Vecchioli, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2017 | 17h00

Há quatro anos, após levar a seleção brasileira feminina ao ouro em Londres, Zé Roberto também iniciava um projeto ambicioso, em Campinas. Porém a equipe, que começou com elenco fortíssimo, durou apenas dois anos. Acabou depois que o treinador anunciou dedicação exclusiva à seleção e que a patrocinadora foi vendida.

Zé Roberto garante que aquele projeto e o atual são diferentes. Em Barueri, ele quer massificar o vôlei a ponto de, se um dia precisar sair, o time continuar. “Independentemente da minha pessoa, é muito importante conseguirmos que a cidade abrace o vôlei como a população de Osasco abraçou. Que tenha orgulho do time’’, diz.

A comparação com Osasco é natural. A cidade vizinha desenvolve o vôlei há mais de duas décadas e o próprio Zé Roberto trabalhou lá de 2000 a 2005. “Foi o grande projeto da minha vida’’, lembra. Lá, foi tricampeão brasileiro enquanto, como coordenador da base, revelava Jaqueline, Paula Pequeno e Mari, entre outras. Desde 2009, porém, Osasco tem dois clubes. Um que é referência na base (o Bradesco, antigo Finasa), outro no adulto (o Vôlei Nestlé).

Para Zé Roberto, a chave de seu novo projeto – diferente do de Campinas – é ter base e adulto num clube só. No caso, o Grêmio Recreativo Barueri (GRB), filiado à CBV e ligado à prefeitura. Esta entrou no projeto sem dar dinheiro, mas cedendo estrutura, incluindo o moderno ginásio José Corrêa. Lá, a estreia na Superliga B teve público de 3,7 mil pessoas.

Uma peneira já selecionou 60 meninas, mas, para o efetivo início das categorias de base, Zé Roberto aguarda a aprovação de um projeto de lei de incentivo estadual. A Hinode deve ser uma doadora, em troca de isenção fiscal. Foi a empresa, do ramo de cosméticos, que, segundo o treinador “salvou o projeto’’, em dezembro.

Com as melhores jogadoras do País já empregadas – até as baruerienses da seleção sub-19 preferiram ficar no Bradesco –, Zé Roberto montou seu time com quem havia sobrado no mercado em outubro. Destaque para a medalhista olímpica Erika, de 36 anos, que estava havia oito meses sem pegar numa bola e estreou apenas três semanas após o primeiro treino. O nível, porém, é baixo. Exceto a ponta Suelle, ex-Sesi, que vale 4 pontos no ranking da CBV (de 7 a 1), e a central Fê Isis, que vale 3, todas são de dois para baixo.

Quando a notícia da criação do time se espalhou, não faltou quem se oferecesse para jogar com o técnico da seleção, mas Zé Roberto fechou o grupo. “Quando o elenco chegou a 11 atletas, comecei a ficar com receio. Não tinha nada para oferecer.’’

Atendendo ao convite de Zé Roberto, todas ficaram dois meses sem saber se teriam salários, pagos retroativamente quando a Hinode acertou o patrocínio. Nesse período, o treinador garantiu, via Sportiville, moradia e alimentação. Na conquista da Taça de Prata, ninguém tinha salário.

As coisas só melhoraram com o patrocínio, acertado um dia antes do prazo para pagamento das taxas exigidas pela CBV para a disputa da Superliga B. Mesmo assim, todos continuam recebendo muito abaixo do que pagam os clubes da elite, confiando que, conseguindo o acesso, as coisas melhorarão.

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Demétrio Vecchiolli, Estadão Conteúdo

11 Fevereiro 2017 | 17h00

Principal jogadora do Barueri, Érika já está totalmente adaptada com o novo status na carreira. Ela aceitou o desafio de atuar pela renovada equipe após ter ficado sem jogar vôlei profissionalmente por oito meses, e contou que o apoio do técnico Zé Roberto Guimarães, idealizador do projeto, foi fundamental para que ela escolhesse voltar às quadras.

Atualmente com 36 anos, a jogadora, que já conquistou uma medalha olímpica - foi bronze nos Jogos de Sydney-2000 -, afirmou que não esperava ser protagonista novamente em uma equipe. Tanto que, revela, recusou propostas do voleibol europeu enquanto estava sem clube.

"Saí de Bauru e só veio proposta de Rússia, Polônia, Romênia. Não queria ir para fora, ter de atacar 100 bolas por jogo. Em outubro, surgiu a ligação do Zé Roberto. Eu disse: ‘Zé do céu, você está doido? Não pego numa bola há oito meses’. Ele disse: ‘Você é craque’. Cheguei cheia de dúvidas e hoje não quero mais parar", contou.

Erika contou que a paixão pela modalidade falou mais alto no seu retorno, uma vez que ela voltou a atuar no vôlei nacional apenas pela terceira divisão, mesmo tendo uma olimpíada na carreira.

"Eu vim por amor ao esporte, sem ganhar nada. Nem sabia se a gente iria receber. Pedi um salário bem abaixo do que ganhava na Superliga A, 20% do que ganhava. Mas meu interesse não era financeiro", explicou.

A experiente atleta admitiu que vive uma situação parecida com a qual estava fugindo: ela é protagonista da sua equipe, mas não vê problema na situação de 'atacar 100 bolas por jogo'. "Acaba sendo isso, mas estou em casa, amando. A responsabilidade é minha. Estou com 36 anos, mas me sinto com 26", brincou.

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