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A adrenalina chama-se Diego Costa

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de novembro de 2013 | 18h34

Edu: Você e meia Espanha parecem ‘mosqueados’ com a seleção do Marquês Del Bosque e não pode ser só pelo jogo de ontem. O pior foi a volta ao passado ou o problema é o futuro?

Carles: Vamos por partes. O passado, de triste lembrança para o futebol espanhol em campo, representado pelo estilo da Fúria, salvo engano, é página virada. O presente, sem ilusão, como a maioria das coisas neste país que precisam de um, dois ou mais “revulsivos”. No campo, pode ser mesmo Diego Costa, que se não é o maior craque de todos os tempos, tem o que mais ninguém, mais do que suficiente dessa espécie de entusiasmo inconsciente para dar um choque de adrenalina em toda La Roja, Marquês incluído. Para a vida fora do futebol, seguimos procurando quem ajude a recuperar um pouco de entusiasmo também, inclusive mais necessário ainda. O futuro? Tecnicamente está garantido, pelo menos no que se refere aos tempos mais próximos. Existem craques de uma técnica apurada e refinada esperando para entrar no time principal, alguns até melhores dos que estão agora. Isso não é o suficiente, já que o futebol, fora de campo, está nas mãos de gente a quem eu não emprestaria cinco euros, mas isso não é privilégio espanhol, vocês têm sido campeões seguidas vezes e com cada sujeito no comando! Respondi?

Edu: Sim, se bem que me referia não ao passado nefasto – em campo e fora dele -, mas ao passado recente, do time imbatível, com não sei quantas partidas sem derrota e que passou cinco ou seis anos sendo venerado pelo mundo. Não sei se é só o esgotamento da fórmula ou se o peso maior é do esgotamento pessoal dos jogadores, algo que aconteceu também com o Barça, que faz a base desse time. Se você está falando do futuro da nova geração, também acredito, mas vamos reduzir o lapso de tempo: o futuro como junho do ano que vem. Não houve renovação, isso é fato, e não haverá com mais um ou dois amistosos. Ou seja, com a inclusão de Diego Costa e a volta de Alba, talvez uma ou outra chance a Isco, é o que veremos da Roja na Copa. É suficiente?

Carles: Vai ter que ser uma pequena revolução, porque, para uma de verdade, você tem razão, não dá tempo. Na classificação das patologias, está consagrada a tese de que somos bipolares, capazes das maiores festas, carregadas de entusiasmo para no instante seguinte, cair na depressão. Obviamente, no momento, atravessamos a segunda fase e não saberia dizer se essas duas ou três modificações no time serão suficientes. O reforço necessário é mesmo de entusiasmo e por isso me referia a Diego Costa. Tenho a sensação de que existe medo ao futuro. A esse futuro a sete meses daqui, de enfrentar os próprios fantasmas, da responsabilidade de ser o vigente campeão mesclada com a desconfiança de que o modelo esteja esgotado, sim. E, se não me acredita, basta observar o Negredo, aquele jogador que faz muitos meses adverti aqui mesmo de que é bom tecnicamente, capaz de jogadas memoráveis, mas que de repente desaparece do mapa, se esconde na sua Vallecas natal. Por isso a importância de Costa e sua inconsciência. Diego não sabe o que é fracasso, ele vem de um passado pessoal sem nenhuma esperança e por sorte, mérito ou ambos, acabou sendo matéria de capa em toda a imprensa esportiva mundial, disputado pela maior seleção de todos os tempos e atual campeã. Para mim, a entrada dele é decisiva. Só que também pode dar em nada. Simeone, o treinador do hispano-brasileiro no dia a dia, diz que ele é quem enche de entusiasmo ao resto do time e ajuda manter a intensidade durante 90 minutos. O vigor que, por exemplo, não mostrou Koke ontem e que ele desborda quando joga ao lado do Diego. Outra possibilidade? A verdade é que não vejo muitas de hoje até junho.

Edu: É uma carga e tanto em cima de Diego, que não fez um minuto sequer com a camisa da Seleção e entrará em um ambiente desconhecido para ele. Ao mesmo tempo é um contrassenso se pensarmos que o jogo de conjunto sempre foi o forte desse time e que, agora, fica sob responsabilidade de um estranho, praticamente um alienígena, resolver grande parte dos problemas – sim, porque você sabe que há resistências internas contra a presença dele. Llorente, afetado diretamente pelo possível presença de Diego, já se manifestou e teve respaldo de parte da simpática, apaixonada e igualmente bipolar mídia que acompanha a Roja.

Carles: Aquela parte da mídia que você conhece muito bem, com a qual já teve a “grande honra” de conviver. Essa sempre vai fazer campanha contra tudo o que seja mudança, defendia a Fúria até ontem e agora é a que mais se vangloria das conquistas do futebol anti-Fúria. No caso de Llorente, obviamente, ele está reforçando o seu particular lobby para poder estar no grupo. Mas veja que você mesmo deu a resposta, por um lado refere-se à hipótese de a fórmula vencedora estar se esgotando e por outro, que o jogo de conjunto sempre foi o ponto forte do time. Portanto, o certo é que algo precisa mudar e isso se entende por variações, suficientes para imprimir contundência, leia-se Diego Costa, mas mantendo uma filosofia da que ninguém está disposto a abrir mão, um futebol de toque, de combinações, com Iniesta e Xabi Alonso recuperados, com Xavi Hernández turbinado e dosificado e com os novos jogadores como o próprio Koke ou Isco ganhando protagonismo. Este último precisa de uma recuperação psicológica e isso não parece missão fácil, pois não se encontra o antídoto contra as maldições da ‘casa blanca’ em qualquer esquina. Acho que é preciso, sobretudo, pé no chão, como diria Piqué, nem fomos tão bons, nem somos tão ruins. Tem também a questão da liderança, da luta de egos. Xavi é um líder silencioso, enquanto Ramos é mais ruidoso. Para prejuízo intelectual da Roja, este último é que tem prevalecido ultimamente. Natural, é mais jovem.

Edu: Talvez seja muito disso, de adequação ao momento, mas também de saber trabalhar em uma situação-limite. Esta é, aliás, uma das poucas habilidades que a Comissão Técnica da Seleção Brasileira tem, talvez porque este país seja pós-doutorado em improvisações. O time de Felipão, que ontem resolveu de forma diferente um jogo um tanto complicado com o Chile, tem o mérito de se virar bem em ocasiões extremas, porque não há, na verdade, um esquema rígido, exceto para a formação defensiva, e há jogadores com habilidade para ter posse de bola ou jogar no contra-ataque, fazer pressão ou temperar o jogo. Não é uma determinação tática na maioria das vezes, mas parte do modo como o jogador brasileiro opera nessas ocasiões. Há um esquema razoavelmente estabelecido e uma imensa capacidade de adaptação individual de jogadores inteligentes, que se capacitaram no contexto europeu. Para o time do Marquês, no qual não faltam jogadores inteligentes, talvez um pouquinho de saudável anarquia não fizesse bem nestas horas em que a seleção campeã do mundo precisa de variações para suportar a carga de ser a melhor. Só não me pergunte como injetar anarquia nesse time aparentemente tão certinho.

Carles: Mão à palmatória. Nada como deixar de ser ser presa da rigidez, que às vezes se confunde com disciplina. Do caos se faz a ordem. Os espanhóis são latinos, junto como os italianos, são os pais dessa capacidade de adaptação que os brasileiros souberam utilizar tão bem para surpreender. Por isso, provavelmente têm 5 títulos. Planejamento é necessário, mas no final das contas o que resolve é o fator humano e esse é mais do que imprevisível. Uma vez a Espanha já conseguiu se liberar da obsessão de emular o caráter germânico e é hora de deixar o sangue ferver como se faz em tantas outras questões. Chame-se anarquia, chame-se adrenalina, a grande esperança é Diego Costa. E se não, sempre nos restará Moscou.

 

 

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