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A caminho da final dos sonhos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

22 de junho de 2013 | 20h10

Carles: Andei reclamando que o time do Felipão nem divertia, nem usava a inteligência. Você se queixava da falta de padrão de jogo. Hoje, pelo menos, houve uma série de correções de posicionamento do time, a defesa jogando uns cinco passos mais adiante facilitou a conexão as coberturas. As individualidades ficaram um pouco sacrificadas, como Oscar que, em compensação trabalhou como ninguém para a equipe. Enfim, o homem esteve a ponto de me convencer da sua reabilitação, quando resolveu colocar Fernando em campo.

Edu: Acho que vi outro jogo. Nem ordem nem segurança, as duas virtudes que ambos – Felipão e Parreira – mais pregam. Claro, é divertido ver esse time caótico. Não tem jogo simples, não tem vitória fácil. É, como sempre, a lógica do sufoco.

Carles: Mas o sufoco foi justamente quando ele colocou o Fernando, as linhas fixas e a defesa na própria área, antes, pelo menos, vi algo de coerência, muito pouco para uma seleção pentacampeã do mundo, é verdade, mas até isso tem uma defesa, a carência de talentos desequilibrantes, algo que você mesmo andou defendendo aqui.

Edu: Passamos tanto tempo falando que o Brasil vive um momento de poucos jogadores desequilibrantes, de confusão estratégica, de falta de padrão. Então, em busca de padrão, quem são os sacrificados? Justamente os jogadores mais habilidosos. Trata-se de um time que não se incomoda de ser chamado de tosco, em função do número absurdo de faltas que comete. Neymar fez cinco ou seis faltas, algumas estúpidas, desnecessárias. Oscar, o mais sacrificado de todos, também. Deu carrinhos, tentou ganhar as jogadas no corpo a corpo, fez coisas que não são de sua natureza. Aliás, o time todo entrou batendo. David Luiz seria expulso não saísse por lesão. Sinceramente, pode até ser campeão uma vez ou outra jogando assim. Mas é muito feio.

Carles: Feio? Pode ser. Aplicado? Talvez. Tosco não achei tanto, hoje. Confesso que este foi o jogo da era Felipão com o time melhor postado, na minha opinião. É verdade que tivemos que nos privar de um jogo mais esplendoroso de Oscar, por exemplo, mas, por outro lado, ele demonstrou que é capaz de fazer um papel tático com a mesma solvência e humildade. O Neymar tentou a todo custo colaborar na marcação, mas para isso tem que aprender a ganhar a posição, sem fazer falta. Já o Marcelo, quiçá por não poder se divertir, mostrou-se irritado e fez-me lembrar o Marcelo dos tempos de Mourinho. Quanto ao time de Prandelli, achei indeciso entre ser Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

Edu: A Itália perdeu todo o meio de campo, né Carlão. É uma justificativa e tanto. Já não tinha Pirlo e De Rossi, depois ficou sem Montolivo. É toda a área pensante do time. Por isso considero que o Brasil desperdiçou uma oportunidade única de resolver o jogo com toque, manejando a bola com menos ansiedade, apostando no desgaste físico dos italianos, que ficou evidente nos jogos anteriores da Confecup. Mas não, a estratégia é a do choque e da pressão. Já veremos o que a Espanha vai fazer com o esquema de Prandelli.

Carles: Mais aí você está pedindo muito para um time do Felipão, jogar no toque… Não estou dizendo que esse jogo da seleção me satisfaça, nem de longe mas, pelo menos, hoje eu vi a adoção de uma certa coerência com o futebol mesquinho. Volto a dizer que tudo mudou com a entrada de Fernando, e para pior. Nesse momento, Prandelli, até porque não tinha nada a perder, adiantou os dois laterais simultaneamente e acabou ocupando o meio de campo. Claro, o problema foi o contra-ataque e assim saiu o quarto gol, justamente quando a Itália tinha o jogo na mão. A vantagem da Espanha é a mobilidade das linhas e dos diversos ‘tandens’ que estão acostumados a formar pelo campo. É muito difícil de controlar o jogo contra um esquema assim. Muitas vezes o problema da Espanha é conseguir converter esse domínio em gols. Por isso, acredito que Del Bosque optou por um sistema híbrido, acrescentando um centroavante legítimo ao esquema original, consagrado pelo Barça e pela Roja campeã.

Edu: Tem razão. Bola no chão e Felipão é só uma rima, nada além disso. Em todo caso, ao pensar num Espanha-Itália, já decidimos que o jogo da ‘Roja’ contra a Nigéria é uma passagem burocrática de tempo para a semifinal, um mero cumprimento de protocolo?

Carles: Assim espero, porque o último encontro entre ambos em um Mundial, na França 1998, os espanhóis acabaram desclassificados, derrotados por 3 a 2 com o goleiro Zubizarreta empurrando um cruzamento para dentro, ao estilo Taffarel na Bolívia. Curioso que neste domingo o goleiro titular será Victor Valdés, que antes de viajar passou horas conversando com Zubi, atual diretor de futebol do Barça, até ser convencido ou coagido a cumprir seu contrato com o cube até o fim. Espero que o contato não tenha contagiado o Victor.

Edu: Tranquilo, tranquilo. Não há a menor possibilidade de uma surpresa dos africanos, que vão voltar para casa com uma participação razoável, algo que já é bem decente para o time remendado que veio ao Brasil. Para a ‘Roja’, na real, agora é pensar na Itália.

Carles: ‘Arreda’ fantasma da Finlândia!!!

Edu: E tudo aponta para uma decisão contra o Brasil.

Carles: Como em 2009 na África do Sul, até encontrarmos os ianques.

Edu: E isso se o Uruguai não aprontar um ‘Mineirazo’.

Carles: Então, ‘arreda’ fantasma de Zubi, fantasma de Obdulio e viva a tão esperada final do 500 aC.

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