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A classe média mostra sua cara

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

05 de março de 2013 | 06h24

Carles: Domingo, dez da noite, temperatura abaixo de zero no País Basco, Real Sociedad e Betis fazem um jogo sensacional, intenso, com seis gols e muitas alternativas. Onde fica a tal bipolaridade, então?

Edu: Não vi, mas acredito. O que já assisti de Real Sociedad e Betis neste ano foi bastante animador. Mas não tem a ver com a bipolaridade, vai me desculpar. Embora os dois tenham feito jogos complicados contra Barça e Madrid, estão longe de ameaçar, mesmo a longo prazo. Ainda assim, é um fato reconfortante. Esse time da Real Sociedad tem bons detalhes e muita ambição ofensiva. Fora a história do clube, que é fantástica.

Carles: Eu não me referia à possibilidade de conquistar os títulos, que esse é um confronte entre talões de cheque. Mas ao entusiasmo por ambos estarem cumprindo objetivos acima das próprias expectativas, disputar postos europeus e não renunciar a um jogo vistoso e competitivo, como nos velhos tempos. Definição do que foi a partida, no dia seguinte.

Edu: Esse mérito eles têm. E acrescento ainda o Rayo Vallecano, outro que está ali na zona da classe média (com Valência, Málaga), incomodando bastante. E o que é melhor jogando sem muitas amarras, buscando o gol, sem aquele conservadorismo do Málaga, por exemplo.

Carles: Essa é a diferença. Málaga e Valencia são presas do compromisso de classificar-se pelo menos, logo atrás dos grandes. Times como Real Sociedad, Betis e Rayo Vallecano, que há pouco tempo estiveram na segunda divisão, têm um compromisso menos ambicioso, o da permanência, e por isso permitem-se ser menos conservadores. Mas isso não desmerece a opção de seus treinadores pelo bom jogo e certo risco. Os jogos de Valencia, Málaga e também do Sevilha não deixam de demonstrar certa covardia, mesmo.

Edu: A questão é quanto isso vai durar. Terminada a Liga, os dirigentes dão uma chacoalhada geral, vendem os principais nomes e pronto. Começa-se do zero outra vez. Leo Batistão, o atacante brasileiro, já está de saída do Rayo, certo? E Isco, fica no Málaga? Quem sabe só a Real mantenha sua base, porque é um pouco a filosofia do clube basco. E o Betis deve segurar o técnico, que parece ter propostas interessantes, Pepe Mel.

Carles: A Real tem um plantel mais homogêneo, a estrela, Griezmann, divide protagonismo com o mexicano Carlos Vela e o veterano Xavi Prieto. É bem provável que Batistão deixe o Rayo rumo ao Atlético, até porque eles precisam disso para sobreviver na seguinte temporada, mas o segredo é voltar a comprar jogadores desconhecidos e prometedores. É o carma dos orçamentos pequenos da Liga.  Considero um trabalho de garimpo muito interessante. Algo que o Sevilha realizou durante anos de forma brilhante e colheu fabulosos resultados, incluindo títulos importantes.

Edu: Bom, o modelo básico de gestão para times médios e pequenos não muda em país nenhum do mundo: toda força à ‘cantera’, média de idade baixa no time titular e contratações de jogadores com potencial, nunca os mais badalados. O resto é com o técnico. Pelo jeito, os dois – Montanier na Real e Mel no Betis – seguem uma cartilha progressista e arrojada.

Carles: Principalmente o francês da Real. Curiosamente os dois estiveram a ponto de ser despedidos no ano passado. Apesar do modelo, são poucos os que conseguem fazer um  bom trabalho. Insisto nos anos em que o Sevilha fez isso com êxito. A estrela do time era o diretor esportivo, tremendo garimpeiro, o ex goleiro Monchi. E não Kanouté, Luis Fabiano, Renato, Daniel Alves, Keita, jogadores que ele trouxe por preços muito acessíveis.

Edu: Nesse sentido, o Brasil ainda está a anos luz do modelo europeu. Os olheiros por aqui – e são milhares – ainda trabalham como na década de 1970. As indicações e amizades valem mais do que aquilo que o cara vê tecnicamente. E a qualificação do olheiro também é um drama. Mesmo assim, de vez em quando surge um time médio consistente, com esse padrão de gestão, como o Figueirense de pouco tempo atrás. Mas é bastante raro. E acaba logo.

Carles: Se não me engano, o Vitória e o Sport também foram exemplos disso, ou estou enganado?

Edu: O Vitória tem um histórico respeitável de formação, assim como o Bahia, de onde saiu alguém que vocês conhecem bem, Dani Alves. Mas o Sport já assumiu os vícios de muitos clubes do Sul, gosta de contratar veteranos famosos para mesclar com suas revelações. E acaba, no fim das contas, privilegiando os nomes, não os garotos.

Carles: Nessa mesma linha teríamos que destacar o Boca Juniors, que domingo estreou um garoto, um tal Juan Román, conhece?

Edu: Um ‘chiquitin’ de 34 anos. E foi enquadrado por um dos piores times do campeonato, o Union: 3 a 1 em pleno La Bombonera. Foi a primeira vitória do Union em quatro rodadas do Torneo Clausura.

Carles: Pois é, parece que ‘los xeneize’, Riquelme incluído, perderam o rumo numa certa noite de julho do ano passado, no Pacaembu.

Edu: Estou certo disso, mas somos suspeitos…

 

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