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A Colômbia de Radamel, para exorcizar maldições

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

27 de março de 2014 | 23h46

Carles: Esse time da Colômbia promete! Quantas vezes já ouvimos essa frase de uma seleção cheio de talento, mas com um currículo de títulos bastante modesto? Uma Copa América que eles mesmo organizaram em 2001 e um vice em 1975. Isso, fora algumas proezas como aquela ‘manita’ aos argentinos nas eliminatórias para a Copa dos EUA.

Edu: Em um país, como tantos outros da América Latina em que o futebol é vivido de forma intensa, sem dúvida, uma data em especial é religiosamente celebrada nas últimas duas décadas: 5 de setembro de 1993. Foi a noite em que, diante de 75 mil torcedores, em pleno Monumental de Nuñez, a Colômbia de Rincón, Valderrama e Asprilla…

Carles: Naquela década, a seleção da Colômbia esteve em três das cinco Copas que participou, contando a próxima no Brasil. Foi o treinador Paco Maturana que lançou as bases do time que conquistou aquela Copa América.

Edu: Foi justamente o time sob o comando do revolucionário Francisco Maturana que aplicou, sem pedir licença, o escandaloso 5 a 0 sobre a poderosa Argentina de Batistuta, Redondo e Cholo Simeone. Na tribuna, vestindo a camisa dos hermanos, estava Diego Maradona, então excluído temporariamente do time de Alfio Basile. Dias antes, Maradona proclamava em uma concorrida entrevista para jornalistas de toda a América do Sul, já no clima do jogo que definiria uma vaga direta ao Mundial de 1994: “No se puede cambiar la historia: Argentina esta arriba y Colombia, abajo”. ‘El dios’ errou feio.

Carles: Errou? Como sempre ele saiu fortalecido da situação. Justamente por causa dessa derrota, a alviceleste acabou tendo que disputar uma vaga na repescagem enfrentando a Austrália, e Basile se “reconciliou” com o Pelusa que voltou, dizem as más línguas, junto com algumas substâncias não exatamente legais, que teriam sido consumidas no vestiário argentino. Grondona teria garantido que não haveria exame antidoping e eles podiam consumir o que quisessem. Basile negou tudo anos mais tarde. A ironia foi que tanto colombianos como argentinos acabaram abalroados na Copa pela Romênia, com a diferença de que os argentinos sobreviveram até as oitavas e aquela promissora Colômbia foi a última do grupo na fase inicial, atrás dos anfitriões. Provavelmente Juan Valdez garantiu o fornecimento de café ao tio Sam durante muito anos.

Edu: Assim mesmo, muito da história do futebol da Colômbia mudou a partir daquele dia em Buenos Aires , com a consagração de uma geração de ouro que certamente inspirou os garotos colombianos que viram o atropelamento de um bicampeão do mundo pela TV, incluindo um certo Radamel Falcao Garcia, então com sete anos.

Carles: A paixão exacerbada por esse esporte é própria de um país bipolar, com caráter meio sul-americano e meio caribenho, que tanto inspira talentos como provoca crimes hediondos. Só para recordar, o assassinato de Andrés Escobar depois da desclassificação da seleção na Copa dos EUA em 1994 e em que ele tinha feito um gol contra. Ou Albeiro Usurriaga em 2004, Martín Zapata e Elson Becerra, ambos em 2006, e Edison Chará, em 2011. Normalmente, mortos em discotecas, bares, inferninhos, recai sobre eles a suspeita de envolvimento com drogas, ou até mesmo de que os crimes sejam a mando de capos envolvidos em apostas esportivas. Quem sabe? O certo é que isso tudo não ajuda a progressão do esporte ‘cafetero’.

Edu: A Colômbia sempre foi vista como uma concorrente secundária no futebol sul-americano, disputando ora com o Chile ora com o Paraguai o modesto posto de quarta força do continente, à sombra dos campeões mundiais Brasil, Argentina e Uruguai. Mas essa imagem de segundo escalão também acompanhava a Colômbia em seu perfil sociopolítico, como país estigmatizado por décadas pela submissão narcotráfico, pela violência dos cartéis das drogas e pela insegurança institucional, mais do que por seu consistente crescimento econômico, por sua dinâmica exploração turística e pela riquíssima biodiversidade. Ou seja, mais uma sociedade latino-americana a lutar contra seus problemas crônicos e, ao mesmo tempo, contra os estereótipos e rótulos nem sempre autênticos trazidos de fora para dentro. A ascensão do futebol naquela década de 1990 coincidiu com uma repaginação interna rumo à estabilidade, promovida por um crescente avanço democrático a partir da constituição de 1991, que abriu as portas para um combate mais racional e organizado ao tráfico e até mesmo o encaminhamento de negociações com grupos paramilitares, como as Farc.

Carles: É o mínimo que o grande amiguinho de George “Doubleyou” Bush, Álvaro Uribe poderia ter feito para se firmar no poder e conseguir eleger seu sucessor, José Manuel Santos. Fingir uma normalização. Impossível desassociar os processos de negociação entre a Colômbia oficial, a marginal, os grupos armados sempre esteve sujeito a política exterior dos EUA. A permanente desconfiança sobre o processo que manteve a senadora Ingrid Betancour sequestrada durante seis anos. Ela que era a grande ameaça ao poder constituído, sua estranha conversão política e de crença da senadora, mesmo considerando a dura experiência da prolongada permanência em cativeiro ou em peregrinação pela selva. Ou ainda os aspectos obscuros da sua liberação, todavia mal explicados. É preferível mesmo recuperar as lembranças dos Asprilla, Rincón ou Valderrama, que não deixam de ser um projeção de uma sociedade festeira e um tanto malemolente.

Edu: Aquele timaço que colocou a Argentina de joelhos pegou carona nessa nova realidade e expôs ao mundo alguns dos craques da década – Faustino Asprilla foi fazer sucesso na Itália e na Inglaterra, antes de jogar no Brasil; Freddy Rincón também arriscou passagens por Napoli e Real Madrid, mas foi ídolo de algumas das maiores torcidas do Brasil; Valderrama andou pela França e pela Espanha (Valladolid), mas fez sucesso mesmo como um dos pioneiros da Major League Soccer. Outros, como Adolfo Valencia, fizeram seus golzinhos por Bayern de Munique e Atlético de Madrid, enquanto o goleiro Oscar Córdoba foi uma das pilastras do Boca Juniors por quatro temporadas, conquistando, entre outros títulos, o bicampeonato da Libertadores. A geração de hoje, com Falcao à frente, é considerada a mais brilhante desde aquele time endiabrado da década de 90. O técnico argentino Nestor Pekerman tempera muito bem veteraníssimos como os zagueiros Mario Yepes (Atalanta, 38 anos) e Amaranto Perea (Cruz Azul, 35), este, velho conhecido seu das oito temporadas no Atlético de Madrid, com garotos como James Rodriguez, do Monaco, e a grande esperança do ataque, Eder Balanta, 21, do River Plate. Há ainda uma consistência como há muito não se via no meio de campo, onde brilham especialmente Juan Cuadrado, da Fiorentina, e Freddy Guarín, da Inter. Com a dúvida sobre o estado físico de Radamel.

Carles: Falcao era uma das grandes esperanças de gols nesta Copa e acabou como mais uma das vítimas do vírus pré-copa. Será que sem a sua grande estrela, a Colômbia seguirá na sua senda de eterno time segundão? As previsões de que ‘el tigre’ possa estar no Brasil jogando a Copa não são muito promissoras e pode até sobrar um lugarzinho para Carlos Bacca, em grande fase no Sevilla e responsável pelo estrago no Real Madrid. Mas também pode pintar a volta de Adrián Ramos à seleção. Adrián, em cinco temporadas pelo Herta de Berlin alternando a primeira e segunda divisão, fez 66 gols e já parece seguro que, depois de uma disputa com o Atlético de Madrid pelo seu passe, o Borussia Dortmund vai confiar nele para ser o substituto do seu goleador de Lewandwoski.

Edu: É bom ressaltar que os torcedores colombianos estão entre os que mais procuraram ingressos e lugares em hotéis para a Copa. A seleção de Pekerman vai ficar no centro de treinamento do São Paulo, em Cotia, um dos principais e mais bem equipados do país, e o fato de o time jogar no Mineirão, em Brasília e na Arena do Pantanal na primeira fase certamente não será problema mesmo para os torcedores que vierem direto da Colômbia para acompanhar as partidas. O fato é que, com ou sem Falcao, a Colômbia é favorita nesse grupo e só não vai às oitavas por uma desgraça.

Carles: Por aqui, nossa maior lembrança de José Néstor Pékerman é daquela “invasão” argentina a Leganés em 2003, quando o empresário, representante artístico e produtor de espetáculos Daniel Grinbank comprou o clube espanhol e o nomeou diretor técnico. O projeto soçobrou na metade da temporada e tanto o treinador Carlos Aimar como o proprietário abandonaram o barco. Pékerman se ofereceu para assumir o cargo de treinador mas ele não dispunha da formação e experiência necessárias e não recebeu a permissão da Federação.

 

 

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