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A dança dos técnicos e o universo paralelo

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

11 de julho de 2013 | 06h12

Carles: Faz uns dias, deixei barato quando você se referiu ao fato de a próxima Liga Espanhola começar com nove novos técnicos. Parece que por aí a coisa não anda muito diferente…

Edu: Algum espírito do segundo milênio baixou nos clubes, só pode ser essa a explicação… O Brasileirão nem chegou à metade do primeiro turno e oito técnicos já rodaram. Alguns deles de times de ponta – como São Paulo, Grêmio e Vasco -, que tiveram a genial ideia de esperar a retomada do torneio depois da Confecup para colocar os caras na rua. Ou seja, perderam a pequena intertemporada para que um possível novo técnico começasse a remontar seus times.

Carles: Coisa de loucos, por mais que eu pense não encontro uma explicação plausível, a não ser em casos específicos. Você tem alguma teoria que nos ajude a entender, daqui de longe, esse fenômeno? Seria resultado das manifestações?

Edu: Não pensei nessa hipótese, mas seria menos absurda. O São Paulo já é um episódio para teses de pós-doutorado, porque tem feito uma sequência de bobagens que joga por terra anos de uma política que ao menos tinha algo de bom senso. Nos últimos dois anos, foram oito técnicos, contando os interinos. Não sou um fã de Ney Franco, mas a hora da demissão foi a pior possível, após uma derrota nem tão trágica assim para o Corinthians. E o Vasco, que no ano passado disputou palmo a palmo com o Corinthians o título da Libertadores, virou um fogaréu, muito pelos problemas financeiros que terminaram com o pior de todos os males num time de futebol: salários atrasados. No Vasco, foram 12 técnicos nos últimos cinco anos. Agora quem rodou foi Paulo Autuori, que por sinal será o substituto de Ney no São Paulo.

Carles: Era uma ironia, mas a falta de confiança nos comandos técnicos parece algo sintomático, mesmo. Uma certa pressa que poucas vezes permite que os projetos sejam concluídos. Talvez a resposta uma vez mais esteja em que a sociedade vai ficando exigente, mas seus próprios componentes não estão preparados para responder a esse nível de exigência. O extenso limbo que a educação viveu e com ela todos os processos de aperfeiçoamento podem estar agora mostrando seus efeitos. Possivelmente também no esporte. E refiro-me não só aos treinadores, mas aos que os escolhem também.

Edu: Seria uma forma romântica demais de ver as coisas em um ambiente ainda um tanto rudimentar quanto a esse tipo de conscientização, justamente pela visão dos dirigentes. Se chamarmos a pressão da torcida de ‘exigência da sociedade’, aí pode ser. Foi o que aconteceu no São Paulo. Mas é preciso incluir nessa história a ineficácia dos chamados ‘projetos’. É o caso de Wanderley Luxemburgo, um cara que vive utilizando essa retórica do planejamento e tem feito um tipo de gerenciamento que esfacela os clubes financeiramente e não garantem retorno, muito menos deixam algum legado. O Grêmio, um time poderoso, que já teve bons projetos, pecou desta vez por suportar tanto tempo o modelo Luxemburgo, que há ao menos seis ou sete anos vem fazendo água pelos clubes por onde passou. Mas poderia ter mudado tudo muito antes, para renovar o trabalho.

Carles: Olha, se tem uma coisa que funcionou por aqui foi a regulamentação da formação e certificação de treinadores. Uma coisa são os projetos e outra esconder-se atrás da “retórica do planejamento” para ganhar tempo. Só não enxerga o esquema de alguns treinadores quem não quer. Imagino que o clube que os contrata sabe como eles funcionam e até economizam nos salários, conscientes das compensações graças outros esquemas. Para que esses esquemas funcionem, devem durar um ciclo, nem muito curto, nem muito longo, o suficiente para, como você diz, esfacelar as finanças do clube. Se existe esse lado perverso, treiinadores como Ney Franco parecem ser a outra cara da moeda, demasiado ingênuo, para sobreviver nesse mundo, talvez. É assim ou exagerei na minha negação ao romantismo?

Edu: Ele é ingênuo sim, bastante aliás. Mas já deve ter sentido o tamanho da encrenca e vai adquirindo essa experiência na adversidade, ao menos. O mais irônico de tudo é que os dirigentes, que, na maioria, nem podem ser chamados de gestores, sequer absorvem os bons exemplos. Nos últimos anos, só deu certo quem apostou nos ciclos. Se você partir do princípio que é impossível ganhar tudo durante muito tempo, pelo menos é preciso saber avaliar quando um trabalho tem rumo, tem estofo, não é invertebrado. É muito básico o raciocínio, mas os caras não enxergam. Neste momento, Mano Menezes, que é um cara que sabe trabalhar a médio e longo prazo, está começando um projeto no Flamengo. Substituiu Jorginho – aquele que era auxiliar de Dunga na Copa – antes da Confecup e teve tempo para elaborar algumas coisas, planejar treinamentos etc. Agora é pagar para ver se a direção do clube mais popular do país quer mesmo algo consistente ou já vai torcer o nariz depois de perder o primeiro clássico.

Carles: Isso até o próximo movimento de terra debaixo dos pés dos dirigentes da Gávea. Tentemos ser positivos durante um momento e consideremos a hipótese de que essa instabilidade deve-se a mesmo uma exigência de um novo modelo de treinador. Dentro desse exercício de imaginação, você conseguiria me dizer qual é o paradigma do treinador brasileiro para um futuro próximo? Um que cumpra as expectativas de imediatismo do sistema e, ao mesmo tempo, que consiga elevar o nível técnico-tático, algo mais acorde com o padrão do futebol brasileiro.

Edu: O paradigma ideal, se fôssemos imaginar um esquema e não nomes, é a ação coordenada entre gestor e equipe técnica, o que seria hoje no Brasil uma viagem a um universo paralelo, porque simplesmente não existe. Os modelos que se aproximam minimamente disso já são bem-vindos e aí voltamos aos exemplos que vêm dando certo, de Atlético Mineiro, Corinthians e Fluminense, com algumas particularidades a favor dos mineiros e dos paulistas. Se formos falar em nomes, Tite e Cuca estão adiante dos demais, Mano Menezes é um cara meticuloso e se tiver apoio pode seguir esse caminho com sucesso. Também Paulo Autuori tem algo desse perfil. No mais, vivemos um período de estagnação, de falta de renovação. Nesse cenário, atender o imediatismo do sistema parece impossível. No fim das contas, estamos chovendo no molhado.

Carles: E mesmo com a carência de profissionais que respondam a esse perfil e pelos quais alguns cartolas andam procurando (meio aos trancos e barrancos, por modismo ou por exclusão), o Mano Menezes ficou uns meses sem clube. Foi só a descompressão pela saída traumática da seleção ou ainda não é consenso o reconhecimento da importância, pelo menos para um clube, de um tipo de treinador mais moderno como ele?

Edu: Nem diria que ele tem ideias tão modernas, mas é uma sumidade se compararmos com o que há por aí. Só que pouca gente reconhece. A verdade é que o mundo está andando enquanto esse pessoal parou de vez. A Copa do Mundo, antes de mais nada, deveria servir para reciclar todo esse entulho em matéria de recursos humanos na área de gestão que sobrevive no futebol brasileiro. Mas, nesse ponto, tenho mínimas esperanças.

Carles: E não seria tudo “culpa” do talento do jogador brasileiro que numa genialidade acaba ganhando uma Copa do Mundo, apesar de todos os problemas crônicos? Desse jeito não tem estrutura que se renove. O problema é aguentar as competições internas que nem sempre estão à altura.

Edu: Só nos faltava essa, Carlão, crucificarmos quem tem talento. Melhor imaginar o que seria desses talentos se houvesse uma estrutura decente.

Carles: Era outra ironia.

 

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