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A despedida de um craque improvável

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

15 de março de 2014 | 21h56

Edu: Foi um craque acima de suspeitas, mas estranho em tudo, alheio ao mundo das celebridades, com um físico que nada tem de atleta e uma cabeça nas nuvens… Talvez por isso tenha dado tão certo.

Carles: Na sua passagem por aqui, Rivaldo deu muitas mostras de que parecia viver mesmo em outro planeta, de nunca ter se integrado à sociedade local, mas mesmo assim seus gols e lances decisivos compensavam tudo. A sempre exigente torcida culé só tem gratas lembranças dele.

Edu: Em um texto de 20 linhas publicado numa rede social, ele, enfim, se despediu. Depois de insistir nos últimos anos, forçando a barra, convicto de que era possível seguir, resolveu se render ao próprio corpo. Mas, nesse mesmo texto, sintetiza sua carreira vitoriosa, qualificada por ele como um ‘milagre’, porque, além das dificuldades financeiras da família e da infância num contexto de exclusão social, foi, segundo suas palavras, ‘desacreditado por médicos e técnicos’. Era mesmo um craque improvável.

Carles: E com nome de Bandeirante: Vitor Borba Ferreira. Talvez por ter conseguido convencer a si mesmo e a todo mundo de que era possível triunfar como atleta e jogador, ele fez questão de espremer até a última gota de energia, até os 41 anos de idade e com o gostinho de ter feito uma partida oficial com o filho. Ainda hoje se ouve a vibração no Camp Nou daquele gol de bicicleta de fora da área que deu a vitória ao Barça sobre o Valencia e colocou os blaugranas (então muito necessitados) na Champions. Um gol dos que hoje assinaria Ibra para regozijo de milhões de internautas.

Edu: Rivaldo sempre foi um desses tipos que existem aos montes no interior do Brasil, mas que ficam pelo caminho vencidos pelas dificuldades de toda espécie – principalmente pela incapacidade de superar limitações. Como jogador, foi pura intuição, talhado para fazer coisas impressionantes como esse gol de bicicleta. Fora de campo, era a antítese dos craques midiáticos, avesso a qualquer tipo de badalação. Fugia das entrevistas e das ocasiões sociais. E em toda a vida teve que provar que poderia ser um grande. Conta-se por aqui a história de um grupo de ingleses que veio vê-lo jogar, ainda no Palmeiras, e que, após 15 minutos de partida, deixaram o estádio decepcionados: “Com esse físico e essas pernas finas e arqueadas, nunca será um grande jogador”, disseram. Rivaldo tinha então 22 anos. Aos 30, liquidou com a Inglaterra na Copa de 2002 com sua canhota toda torta, foi campeão do mundo e já tinha uma história gloriosa de cinco anos no Barça. Gostaria de saber por onde andam aqueles ingleses um tanto afoitos.

Carles: Só outro já aposentado, Augusto Lendoiro, para acreditar no inacreditável e trazer Rivaldo para o Depor. Uma temporada em La Coruña, 23 gols e o velho lobo embolsou 4 bilhões de pesetas, o que hoje seriam 24 milhões de euros. Em 1997!!!! E Lendoiro ainda se deu ao luxo de chorar porque o Barça tinha levado seu grande craque.

Edu: Lembro bem da comoção na Galícia quando o negócio foi fechado, mas muita gente também o chamou de mercenário, como ocorre sempre nessas ocasiões. Quem não aceitaria uma proposta do Barça aos 25 anos de idade? Não que essas críticas não tenham incomodado, mas Rivaldo sempre respondia em campo. Não à toa é ídolo de ao menos duas gerações de jogadores brasileiros que hoje estão por aí (Neymar é um deles). Mas um tipo assim normalmente também é alvo de injustiças, como do próprio Barça, de onde saiu pela porta dos fundos e com uma certa mágoa. Talvez não da torcida, mas do entorno diretivo do clube e mesmo de alguns colegas, coisas que ele, introspectivo como sempre, deixou no ar. Nunca comprometeu ninguém.

Carles: Pois é, assim como Lendoiro usou um certo vitimismo para justificar a saída do ídolo, os dirigentes do Barça quando perceberam que as relações com Rivaldo (e seu representante, claro) se pulverizavam, facilitaram esse clima de desconexão dele com o elenco, só que, até hoje, Guardiola – o Xavi de então – elogia o brasileiro, dentro e fora de campo, o que faz desconfiar sempre dessas versões. Não em vão, ele segue tendo muito prestígio na Catalunha, depois de jogar durante cinco temporadas, um total de 235 jogos, 130 gols, muitos deles decisivos e sem ser um centroavante, ajudando o clube a conquistar duas Ligas, uma Copa del Rey e uma Supercopa de Europa. Isso apesar de na véspera de um amistoso entre as seleções Catalã e Brasileira, em maio 2002 e ainda jogando pelo Barça, ele declarou numa entrevista coletiva diante das câmeras e de toda a imprensa catalã que não temia um jogo contra uma seleção menor e não oficial.

Edu: Certamente cobrava-se de Rivaldo mais atitude, como convém a uma estrela, mas essa manifestação é um prova definitiva de sua ingenuidade, um tanto imprópria no futebol moderno. Ali esteve sempre um peladeiro, que só estava a gosto jogando bola e que queria fazer seus gols, homenagear a família e pouco mais. Talvez por isso Rivaldo não tenha sido um bom colega para a maioria, não era comandante de nada, nem líder de classe, nem leão de vestiário. Desse jeito, ganhou tudo que disputou, inclusive o título de melhor do mundo, em 1999. Precisa mais?

Carles: Missão mais do que cumprida, seo Vitor.

 

 

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