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A encruzilhada da renovação

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

16 de setembro de 2013 | 11h23

Edu: Apostar numa renovação talvez seja o momento mais delicado para os times de alto nível, primeiro porque não pode se resumir a um momento, e sim a uma fase, e depois porque é preciso contar com a cumplicidade da torcida e da direção do clube. Ou seja, não é um processo apenas técnico. Tampouco é uma transição, parecida com a que faz o Barça neste momento e que talvez precise fazer a própria Seleção da Espanha. Falo de renovações mais profundas, como a que times brasileiros como Corinthians, São Paulo e Fluminense estão necessitando, por diferentes razões. Talvez aí, por uma questão estrutural, estejam as maiores diferenças em relação ao futebol europeu.

Carles: Digamos que, em tese, o futebol europeu tem estruturas preparadas e prontas para suprir as necessidades dos times principais. Na prática, o sistema é abortado ao primeiro sintoma eleitoreiro, em que os dirigentes sentem as urgências de oferecer às massas, carne humana de alto quilate, no lugar de bons resultados esportivos. Aí se originam os mais recentes desafios dentro do futebol moderno: quem é que pode se gabar de ter feito a contratação mais cara da história ou quem paga o salário mais alto do mercado. Inexplicável para qualquer marciano de bom senso ao que custaria entender o por quê de investir em estruturas de base, na formação de jogadores, para depois gastar dez vezes mais com um único jogador. O sistema de promoção dentro do próprio clube não é fácil, é complicado de construir e de manter, mas muitas experiências práticas de êxito provam que vale a pena.

Edu: Pois é justamente o sistema de promoção que não funciona por aqui. É difícil acreditar que os clubes não tenham material humano farto, ao menos potencialmente, porque as divisões de base dos times de elite são concorridíssimas. Basta ver quantos garotos são testados pelos técnicos de base do Flamengo, ou nos centros de treinamento da Toca da Raposa, do Cruzeiro, nos times do Sul, que têm tradição em formação, sem contar os grandes de São Paulo. A dificuldade está na passagem da experimentação para a vida real, que é quando entram em ação as comissões técnicas e, principalmente, o treinador do time principal. Das duas uma: ou ele prefere não arriscar o pescoço e acaba queimando os garotos, optando por contratar jogadores já formados, ou ele promove de maneira precipitada vários meninos para mostrar que prestigia a base e queima da mesma forma. Aí voltamos ao velho problema da gestão deficiente.

Carles: É, como eu já falei da distorção do sistema, agora posso falar da parte positiva, sem risco de estar fazendo apologia. As estruturas dos grandes clubes europeus foram idealizadas para eliminar essas fronteiras entre as diversas divisões. A ideia do manager geral, quando não se trata de uma tentativa golpista e oportunista em busca de poder absoluto, é muito boa, já que supõe que o clube disponha de um profissional responsável pela intercomunicação de todo o plantel, desde os dentes de leite até o time profissional. Por um lado, quando o time de cima precisa repor algum jogador contundido, algo que é imprevisível no planejamento, sempre pode recorrer aos chamados times filiais. Se esse processo se faz com constância e normalidade, os garotos vão se acostumando a participar de competições de maior responsabilidade. Além disso, os treinadores sempre podem bater o olho nos garotos, que tem um incentivo extra para seguir evoluindo. E o último e definitivo argumento é a inegável economia que representa para o clube. O que se pode questionar, talvez, seja a implicação e vontade dos dirigentes em envolver-se em projetos de longo prazo.

Edu: Depender do desprendimento, da boa vontade e da inteligência dos dirigentes é uma loteria, você bem sabe. Muitos tentam, outro só aproveitam, enfim,  dá uma grande preguiça pensar no que fazer com muitos desses caras. Mas essa importante figura do intermediário dentro do próprio clube, um gerente ou facilitador, a denominação que seja, ganha cada vez mais importância, desde que seu status seja respeitado pelo treinador-diva, essa é questão. Se não houver uma relação de confiança como cara que conhece todo o processo e pode dizer se o garoto está pronto ou não, as apostas nos jovens continuarão sem consistência e responsabilidade. Temos um exemplo gritante: o Flamengo vive colocando jovens na fogueira, um atrás do outro. E grande parte deles passa sem deixar rastro, apesar de terem tido oportunidades. Só que tudo aconteceu de forma precipitada, pulando etapas. Obviamente que não é moleza estrear pelo Flamengo, no Maracanã lotado e com o time pressionado pelos maus resultados.

Carles: Pois é, por isso que antes de estrear em pleno Maracanã, diante de uma multidão, é preciso que o garoto conviva, se sinta parte do grupo, viajando junto sistematicamente e com antecedência, antes de que surjam as urgências. Imagino a alegria do garoto contando em casa que vai ser uns dos 11 no domingo em cima de um gramado legendário e vestindo uma camisa mística. Mas não vai ser ele a dizer, “olha, professor, acho que não estou pronto ainda”. Nos seus sonhos, o garoto aparece celebrando o gol decisivo e sendo consagrado. Aí entra a sensibilidade que deve ter o tal responsável. Ele é quem deve se encarregar de que a transição seja natural e sem demasiada carga emocional. Eu disse demasiada, porque a responsabilidade sempre existe e é parte do aprendizado. Quem sabe estamos falando de formação de jogadores quando deveríamos estar falando da necessidade eminente de formação de gestores de material humano.

Edu: Ah, não tenha dúvida disso. Podemos de falar de critérios, sensibilidade, equilíbrio, mas também é preciso exigir capacidades técnicas e competência executiva. Não basta às vezes ter só experiência e boas intenções. Vários grandes times têm colocado ex-jogadores com vivência no exterior nesses cargos, o que é louvável e também acontece com sucesso nos clubes daí. Mas pode não ser suficiente. Chegamos, por fim, à encruzilhada de sempre: é preciso mexer nas estruturas, mas antes de tudo capacitar as pessoas. O que não deixa de ser uma renovação na gestão, que teria reflexo direto na renovação dentro de campo.

Carles: Por aqui temos visto os mais diversos perfis de profissional encarregando-se dessa função. Nem todos os clubes oficializam um cargo específico e muitos deles veem sua própria estrutura comprometida quando decidem contratar um treinador para o time principal de muito prestígio e que pretende ter total poder sobre todas as divisões. Pessoalmente não gosto dessa história, pois acho que o trabalho que acarreta ser um treinador de campo já é mais do que suficiente. Isso não impede que o treinador vá aos jogos dos times de base, que conheça as características de cada um dos integrantes. Provavelmente, a falta de empenho dos dirigentes em assumir e definir tanto o próprio cargo como a estrutura de apoio, faz com que as iniciativas de prestigiar e profissionalizar esses sistemas de trabalho sejam isoladas e improvisadas. Desde a distância vejo com bons olhos, por exemplo, o trabalho de Edu Gaspar no Corinthians, parece ter o perfil e a vivência ideais para desempenhar a função. Mas é inegável a necessidade de uma preparação específica, mais além de ter sido boleiro e ter um trânsito razoável dentro do clube.

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