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A Liga de Charles, Baptistão… e Neymar

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

16 de agosto de 2013 | 19h38

Edu: Defina aí a sua Liga.

Carles: Qual? A liga das estrelas caídas, cada vez menos errantes?

Edu: Ou então a Premier League, onde estão tantos espanhóis.

Carles: Mas aqui também tem muito espanhol, começa a versão da Liga com menos estrangeiros dos últimos tempos, só 22 brasileiros! Se bem é certo que já fazia alguns anos que não tínhamos nenhum brasileiro concentrando tantas atenções quanto Neymar.

Edu: Já é um bom sinal, valorização das ‘canteras’. E o que importa é que serão, além de Neymar, alguns bons brasileiros: Baptistão, Diego Costa, Siqueira, Casemiro, Rafinha…

Carles: E Kaká, talvez quem sabe. E não nos esqueçamos de Charles Dias, o alter ego de Neymar, para mim, não menos importante. O novo centroavante que o Celta trouxe de um Almeria que ele e seus gols ajudaram a promover à elite, para tentar cobrir a ausência do ídolo Iago Aspas. Charles é um desses jogadores brasileiros que, a exemplo de Diego Costa, fazem o caminho inverso e conseguem certa projeção fora do seu país. Charles está cumprindo 11 anos de carreira na Europa e provavelmente pouca gente no Brasil conhece esse goleador feito à base de temporadas em times pequenos e muita Segundona, mas que soube se transformar num jogador notável.

Edu: Não é nenhum garoto, 29 anos, e só agora estreia na Primeira Divisão. Ninguém conhece mesmo por aqui. Foi artilheiro da Segundona na última temporada, é isso?

Carles: Isso, ano a ano, Charles foi se transformando num jogador mais goleador, se não me engano, ainda garoto, teve uma passagem pelo Santos, depois do seu clube de origem, o Tuna Luso. Mas o primeiro contrato profissional ele assinou com o clube português Feirense, trazido por dois primos, Yuri e Igor, também futebolistas profissionais e que já estavam entre Portugal e Espanha desde a infância. Na última temporada, Charles fez valer seus 32 gols pelo Almeria, mas as suas passagens por Pontevedra e Córdoba já tinham feito dele um jogador de gols importantes. Ao lado vai ter o caçula dos Alcântara, Rafinha, que se vai estar longe da sua Cidade Condal, terá a compensação dos mimos do seu mentor Luis Enrique no clube e em casa, da mãe, que mora em Vigo.

Edu: Charles certamente entrou no ‘pasillo’ que foi criado no fim da década de 1980 entre o Nordeste brasileiro e Portugal. Por ali circularam centenas de jogadores, muitos a duras penas, que nem nível técnico tinham, mas que foram tentar algo nos clubes pequenos de Portugal. Como da quantidade também sai algo de qualidade, sempre alguns se destacam. O próprio Diego Costa, sergipano, desembarcou aos 18 anos no Sporting Braga e disputou o Campeonato Português pelo Penafiel antes de iniciar sua aventura espanhola. Dessa legião nordestina na terrinha o mais célebre, sem dúvida, é um de seus preferidos, Hulk, que ainda garoto passou pelo empolgante Villanovense, antes de se profissionalizar no Japão e retornar em seguida ao Porto. Aliás, Guilherme Siqueira também jogou em Portugal. Mas esse é de Santa Catarina.

Carles: Charles pegou o fim desse “pasillo” que alimentou durante ano os times galegos, o morto-vivo Salamanca, entre outros. Quanto a Siqueira, esteve na mira de alguns clubes maiores que o seu Granada, onde é tratado como ídolo, inclusive Real Madrid. Imagino que o carinho é capaz de fazer os profissionais reconsiderarem, vez por outra, uma oferta, pelo menos as terrenais. A ele se junta uma das promessas, Douglas, que vem do Náutico e justamente, até prova em contrário, é concorrente do compatriota. Não vi Douglas jogar, tão desconhecido por aqui como Gabriel Paulista, de quem não vimos jogadas e em seu lugar, um vídeo com uma emotiva despedida do Vitória.

Edu: De todos os brasileiros, ponho a maior fé em Léo Baptistão, ‘parça’ de Neymar nos tempos de garoto em Santos – ou seja, não faz muito tempo. Provavelmente não será titular do Atlético de Madrid de início, mas acho que não vai demorar. É o tipo de jogador que completaria bem a linha de ataque com Villa e Diego quando Cholo Simeone precisar de uma formação mais ofensiva. Esse sim é uma grande promessa e tem uma característica que os europeus prezam muito: não é egoísta, gosta de assistências e das pequenas associações, ‘hacer una pared’, como vocês dizem, nossa velha e boa tabelinha.

Carles: A vitalidade do Diego Costa parece inesgotável e isso Simeone sabe apreciar. O problema é canalizar sempre para o lado produtivo. Esse filme a gente cansou de ver. O pior é que é um bom jogador. Mas Leo Baptistão é do tipo que sabe comer pelas beiradas, tem paciência e o tempo joga a favor dele. Não que necessariamente eles vão brigar por uma vaga no time, mas pode acontecer, inclusive porque os dois sabem fazer gols e também esse jogo de triangulação que pode consagrar David Villa. E o ‘guaje’ que se cuide também. E já que o assunto é o clube do Manzanares, aproveito para lembrar que ‘El Cholo’ tem o maior contingente de brasileiros de toda a liga sob seu comando: quatro. Mais os três do Madrid fazem da capital o maior reduto de conterrâneos seus. Barcelona conta com Neymar, Dani, Adriano e os gaúchos do Espanyol, Felipe Mattioni e o recém chegado Sidnei Rechel.

Edu: Por mais que você se deprima com o abismo econômico (ok, você está certíssimo!), será, mesmo assim, uma liga interessante. Veremos Atlético, Valencia, Real Sociedad, Sevilla e talvez Bilbao e Betis disputando uma liga paralela pelas vagas na Champions e, praticamente em outro planeta, Madrid e Barça lutando pelo título. Arrisco a dizer que a Catalunha precisará de muito Messi e Neymar para superar esse Madrid, que me parece bastante confiável. Ainda mais se chegar o galês.

Carles: Definitivamente um Madrid forte e equilibrado. E, com já dissemos neste espaço, espanholizado, como o resto da liga, a começar pelos ‘banquillos’ já que são 14 treinadores espanhóis da gema (incluíndo o Txingurri Valverde, hehe) e outros quatro adotados e radicados, Simeone, e o trio que certamente vai nos deleitar nas conferências para a imprensa, Aguirre, Shuster e Djukic. Ou seja, diversão não vai faltar, dentro ou fora de campo. Os únicos dois plantéis comandados por “estrangeiros de verdade” serão Madrid e Barça.

Edu: Nos falamos amanhã, após a estreia de Neymar.

Carles: Ansiada estreia como a do resto de brasileiros citados além dos não citados Diego Alves e Jonas (Valencia), Cicinho (Sevilla), Paulão (Betis) e o glorioso Weligton (Málaga).

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