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A linha tênue entre a isenção e o descalabro

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de fevereiro de 2013 | 10h27

Carles: Normalmente, na hora do meu almoço vejo um programa da TV daqui, Deportes Cuatro. Apresentadores simpáticos, grande audiência, mas que pouco a pouco transformou-se num espaço publicitário, chegando ao ponto de dedicar a maior parte do tempo às ações promocionais das estrelas, sobre tudo Cristiano (inclusive os bastidores das filmagens). Nesta semana, o cúmulo foi levar ao ar “um dia normal na vida de Jorge Mendes”, o superagente luso. Press release descarado. Deu nojo. Como anda minha querida imprensa esportiva auriverde às portas de grandes eventos esportivos?

Edu: Sou suspeito para analisar porque me desiludi faz tempo. Mas, para ser econômico, e não generalizando, uso poucas palavras sobre a imprensa esportiva: nada isenta com o que é de seu interesse e incendiária quando lhe convém.

Carles: Por aqui, insisto no personagem José Ramón de la Morena, a voz mais ouvida do rádio esportivo espanhol, de quem já falamos outro dia. Começou como dissidente do programa do José Maria Garcia e de ex-colaborador passou a detrator, adversário ideológico do discurso rançoso de Garcia, este alinhado com os regimes mais autoritários. Hoje, não consegue manter-se neutro quando fala de esportistas fora do eixo de Madrid. Juraria que ouço ele ranger os dentes quando  menciona esportistas ou dirigentes das zonas catalã e basca, principalmente aqueles que defendem ideias de autodeterminação. Você com a sua maior experiência desde dentro dos meios, pode me esclarecer ou augurar certa esperança?

Edu: Huummmm, o cheiro é parecido com alguns que se julgam primadonas da imprensa esportiva por aqui. E não são poucos. A vantagem é que a internet, as redes sociais e outros meios pulverizaram tanto essas personalidades distorcidas que, agora, elas falam apenas para suas turminhas, temos como cotejar ideologias. Não há mais monopólio como antes e há muitas formas de seu buscar opiniões diferentes. Eles vivem de cruzadas pessoais e levam a cambada que faz claque junto nessa empreitada.

Carles: Que bom que existe esperança, pelo menos em um novo meio, apesar de que, muitas vezes, os grandes meios, como formadores de opinião, acabam transformando-se num modelo demasiado influente inclusive para as vozes da internet. Sinto que esses mecanismos funcionam forjando a opinião dos mais incautos (de repente, todos querem a cabeça de um político não porque ele foi um sem vergonha a vida toda, mas por haver perdido o apoio dos grandes grupos de comunicação) enquanto entre os mais críticos acabam criando um sistema de detecção tão afinado que viram incrédulos compulsivos e enxergam conspiração mesmo onde não existe. É claro que o problema não é só de emissão, mas de falta de um desenvolvimento crítico do lado de cá. Não existe uma responsabilidade, um código de ética que prevaleça sobre os interesses dos grandes grupos?

Edu: A trajetória das campanhas supostamente de moralização no esporte – como na política – está forrada de episódios assim. Depende do jogo de interesses, depende dos interesses de quem denuncia, depende das relações pessoais de interessados e não interessados. No fim, nada é transparente e quem tem a obrigação de ser isento também dá suas escorregadas – e se tornam cúmplices. Às vezes involuntariamente, às vezes não. O público percebe algumas coisas, mas separar o que presta do que não preta é tarefa para um arqueólogo. Diria até que este meio pelo qual trocamos estas ideias também entrou na roda. Em troca de um punhado de acessos, que podem significar a diferença entre estar ou não empregado, o sujeito escreve qualquer coisa, defende qualquer tese. Não pondera, não cita fontes, não disfarça seus interesses.

Carles: Então, quanto à esperança, justinho, justinho, não? O blog independente, se é a provável base de uma futura reestruturação informativa, passa pela necessidade de recursos tecnológicos nem tão populares e por isso, por enquanto, é elitista. A velha discussão de se o meio digital é inclusivo ou excludente. Fico pensando se a informação plural é direito de poucos ainda. E, entre esses poucos, boa parte talvez nem tenha interesse em que seja realmente plural.

Edu: A esperança que você pode alimentar é que há sempre gente boa e competente em qualquer círculo. Sempre haverá. Esses nunca desistirão e vão segurando a onda, enquanto os canibais dividem as presas. Só digo que o bom mesmo é não ter chefe, né Carlão?

Carles: Descobri isso faz tempo.

 

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