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A mãe de todas as finais

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

27 de junho de 2013 | 20h39

Carles: Ufa!!! Já quase recuperei as pulsações.

Edu: Isso é para todo mundo aprender a nunca duvidar da Itália.

Carles: E quem duvidou? Esta Itália é a que mais gostei.

Edu: Nós não, mas muita gente, até mesmo entre os espanhóis.

Carles: Não na seleção, Del Bosque sabia das dificuldades, mas Prandelli surpreendeu. Digo mais, se Pirlo e De Rossi tivessem 24 anos de idade talvez não estivéssemos celebrando.

Edu: O fato é que a Itália articulou no calorão de Fortaleza não só para impedir a Espanha de fazer seu jogo, mas para obrigar a Espanha a atuar de uma forma que não sabe, que não está acostumada, com lançamentos longos, cruzamentos em excesso. A ‘Roja’ perdeu o privilégio do passe. E a Azzurra ainda teve momentos de domínio, muitos, no primeiro tempo principalmente.

Carles: Estou adorando que os treinadores justifiquem seus salários e deixem de ser só motivadores. Em alguns momentos do primeiro tempo, a Espanha tinha a bola e literalmente não sabia o que fazer com ela. Ficou claro que a Itália tinha preparado o jogo. Conseguiu seccionar o adversário e os jogadores espanhóis não encontravam uns aos outros. Por outro lado, Del Bosque esteve feliz nas substituições.

Edu: Vinha bem até inventar Javi Martínez de centroavante. A ideia pode ter sido elevar a estatura para incomodar mais a defesa italiana, mas a improvisação acabou atrapalhando mais que ajudando. Javi incomodou seus próprios companheiros em determinados lances por falta de jeito para jogar ali. Tirou inclusive de Iniesta a chance de gol no último ataque da prorrogação. Em compensação, o Marquês reverteu o eixo do jogo com a entrada do Navas.

Carles: Torres estava morto, ele precisava de altura no ataque mas já tinha decidido reforçar o meio na última parte do jogo. Se você reparou, quando a Espanha tinha a bola, Javi Martínez se posicionava como centroavante-pivô, quando perdia a bola, ele recuava para o meio-campo e Mata ficava mais avançado. Duas substituições em uma, do Marquês. Mas você tem razão, Javi estava meio sem jeito lá na frente. O problema é que se ele tivesse colocado o Villa o time provavelmente voltaria a estar partido ao meio.

Edu: Mas Prandelli esteve praticamente perfeito, uma aula de o que fazer com um time esfacelado fisicamente, diante de uma proposta vencedora de jogo e aparentemente insuperável. E a certa altura esteve bem perto de vencer o grande favorito. Fico imaginando se Felipão pode ter tirado algum proveito desse jogaço. Ou Parreira, que seja.

Carles: Tirar proveito do cansaço da semifinal? Não, eu entendi, você se refere à humildade para aprender. Vamos conceder a eles o benefício da dúvida. Estou de acordo, o destaque do jogo foi Prandelli. Só que, uma vez mais, fica comprovado que para as novas fórmulas táticas não só é necessário ter condição técnica, mas preparação física, para manter a pressão durante a maior parte do jogo. Até achei que a Itália tinha começado o segundo tempo num ritmo lento para dar o bote nos últimos 15 minutos. Enganei-me, o gás tinha acabado mesmo.

Edu: Chegamos enfim à final que nós e o planeta futebol esperávamos. Não acho que o ambiente será fácil para a Espanha, menos pelo cansaço, mais pela pressão do Maracanã. Mas certamente a ‘Roja’ pode contar também com a instabilidade emocional do time brasileiro, um grupo um tanto desmiolado, que já mostrou descontrole contra o Uruguai, mesmo alguns jogadores nem tão jovens como David Luiz e Thiago Silva. Imagine diante do Maracanã lotado, com a pressão de uma final e o campeão do mundo do outro lado?

Carles: Moralmente a seleção espanhola sai até reforçada deste jogo, se bem que o futebol se joga é com as pernas e estas vão ter que estar recuperadas até domingo. O Brasil é especialista em motivação, você sabe que, a partir de amanhã, não vão faltar os slogans empurrando a seleção a derrotar os campeões do jogo de computador, do cansativo toque-toque-toque… como tem sido qualificado o estilo de ‘La Roja’ pelos torcedores brasileiros. A verdade é que assim como arrisquei previsões para o resto dos jogos até aqui, para mim o jogo de domingo é imprevisível. Brasil e esta Espanha nunca se enfrentaram, nem imagino o resultado desse confronto.

Edu: Não generalizemos as qualificações quanto ao jogo da Espanha. Quem gosta do futebol aprecia esse estilo, disso não tenho a mínima dúvida. O menosprezo de alguns não é sincero, todo mundo tem acesso ao futebol globalizado. Também acho, por outro lado, que a Espanha sabe usar a seu favor as adversidades. Pode não ter influência sobre muitos torcedores daí, você inclusive, mas tem peso o papel da mídia, que vem clamando por um encontro contra o Brasil faz tempo em tom às vezes provocativo, ainda mais agora, com as vaias que receberam aqui e o fato de enfrentar um jogo desses em um templo do futebol, contra o país que mais venceu em todos os tempos. Certamente saberão usar esse fator como motivação extra.

Carles: Tem tudo para ser um grande jogo, mesmo. Verticalidade contra associação, vitalidade contra paciência… Nas finais, o nervosismo costuma incrementar a quantidade de erros, mas eu tenho o palpite que os jogadores deste torneio resolveram se divertir e pode ser que isso acabe fazendo desta, uma final diferente e inesquecível.

Edu: Foi, de longe, a Copa das Confederações com os melhores confrontos, muito bons jogos, quase todos. Neste momento de rearranjo geral no país organizador da Copa, não poderia ser melhor fechar o torneio com a mãe de todas as finais.

Carles: A final 500 aC!

 

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