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A primeira Copa do novo rei da Espanha

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

02 de junho de 2014 | 17h27

SUCESSÃO NA CORTE

Carles: De que seriam Felipe de Borbón (Bourbon para vocês) e Letizia Ortiz, os príncipes de Astúrias, os que iriam sentar na tribuna de autoridades da Fonte Nova no próximo dia 13, quase ninguém tinha dúvida. A surpresa é que possivelmente seja esse Espanha-Holanda um dos primeiros atos oficiais aos que vão assistir como rei Felipe VI e rainha Letizia I de Espanha, doa a quem nos doer…

Edu: Antes de mais nada, parabéns pelo novo monarca!! Juan Carlos era um leal apoiador do esporte espanhol, isso você não vai negar (nem os dividendos populistas que ele tirava dessa faena). E, pelo sei, era também um escudeiro moral de Vicente del Bosque, a julgar pelas muitas recepções que deu no palácio ao time bicampeão europeu e mundial. Don Felipe VI vai pelo mesmo caminho?

Carles: Não tenho a menor dúvida, não só vai apoiar o esporte como seguramente vai tentar se apoiar nele, como fez o pai. Lembremos que Felipe de Borbón foi o porta-bandeira da delegação espanhola nos Jogos Olímpicos 1982. Agora, uma eventual conquista de um título esportivo importante não só favoreceria o escasso otimismo da corte como convenientemente massagearia o ego de todos os premiados. Não seria um total absurdo pensar que a proximidade da Copa faz parte do plano sucessório, sem esquecer outros eventos menos alegres para a Casa Real, como o julgamento da Infanta Cristina e do consorte Urdangarin (o “fichaje” ideal para a imagem esportiva de uma família simpática e saudável) e o fato de que Juan Carlos I já não se sustentava em pé. Literalmente e como marca.

Edu: Vários jogadores e técnicos demonstraram seguidas vezes muita aproximação e até intimidade com Juan Carlos, protagonista por motivos óbvios das finais da Copa do Rei. É verdade que os do Real Madrid eram especialmente efusivos, mas a impressão que temos de longe é que os catalães também se portaram adequadamente, ou havia ali uma frieza que não detectamos?

Carles: Bom, se as preferências futebolísticas prevalecerem, é a vez do Atleti, tido como o time de Felipe. Você sabe, adequação é o nosso primeiro sobrenome. Ninguém desrespeitou e a maioria não pretende desrespeitar nenhuma instituição, o que não evita que tenhamos nossa opinião sobre a necessidade de modernizar e democratizar o Estado espanhol. Que eu me lembre, só um jogador argentino de segunda linha, do tipo combativo, Oscar Mena, que jogou no Mallorca, Racing Santander e  Atlético de Madrid, recusou-se a cumprimentar a rainha ao receber dela a medalha de vice-campeão da Copa del Rey de 1999, vencido pelo Valencia de Gaizka Mendieta e Piojo Lopez… Quanto aos catalães, respeitosamente preferiram dizer não à Monarquia nas urnas, nas recentes eleições europeias em que fizeram vencedora a Esquerra Republicana.

Edu: Devemos entender então que a dinastia seguirá de mãos dadas com o esporte, ainda que as urnas definirem outros caminhos para Espanha – o que parece não ser o caso deste momento específico? E quanto à posição do novo rei sobre a emancipação da Catalunha? Traria consequências a essa convivência elegante?

Carles: As vozes discordantes, melhor, reivindicativas não vêm só da Catalunha ou de Euskadi, mas de todo o território. Cada vez mais gente se soma aos que pedem uma consulta, um referendum que possa medir a verdadeira preferência da população quanto a ser uma Monarquia ou uma República. E como o tema é futebol, é importante dizer que muitos súditos andaram cruzando a bola para o futuro Rei para que seja ele mesmo quem tome a iniciativa de realizar a consulta. E coisas da vida, hoje, a delegação de La Roja partiu em cima da aeronave Juan Carlos I a caminho do Brasil (via EUA) e na cerimônia de despedida com Rajoy, este que não se esqueceu de, em nome do monarca, transmitir os desejos de êxito aos jogadores e comissão técnica. Na indisfarçável expressão pasmada de muitos dos jogadores durante a solenidade, o impacto da inesperada notícia. Aliás, como a maioria de nós.

Edu: Bom, o que posso dizer é que o Brasil sempre recebeu como se deve a família real espanhola, com as ressalvas políticas de sempre, e será assim com Felipe em pleno clima de Copa. Talvez você não seja um dos adeptos dessa ideia, mas ficou bem claro por aqui o papel do rei Juan Carlos no momento da morte do ditador, há quase 40 anos, quando ele abriu o caminho para a redemocratização – ou, pelo menos, tirou o time de campo quando os defensores de Franco ainda confiavam que o monarca batalharia pela continuidade. É certo que esse é só um lado da moeda, mas, bem ou mal, ficará na biografia da família Borbón.

Carles: Ninguém em sã consciência negaria o papel estabilizador desse personagem, apesar de ser incontestável que nem tudo na narração dessa transição é crível – o Rei é cria do próprio ditador que foi quem lhe entregou o poder. Na sensação de estabilidade quiçá esteja o maior mérito dessa figura de aparente espontaneidade, que faz parte da memória afetiva da maioria dos espanhóis contemporâneos. Já é parte da história, como uma das peças fundamentais no processo que abriu o país política e economicamente. Mas é uma história que segue pedindo passagem.

Edu: De volta ao futebol, o que veremos agora é se o pé quente de Juan Carlos (não o que levou tiro, o outro talvez) se reproduz na figura de Felipe. Próxima parada, Salvador.

Carles: Então, amanhã, falamos dos 23 súditos que estão a caminho.

Edu: Depois de amanhã, porque amanhã tem Seleção Brasileira contra o empolgante Panamá.

Carles: Combinado.

 

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