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A redescoberta do ataque, com sotaque latino

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

09 de fevereiro de 2014 | 18h57

Edu: Pode ser pela invasão espanhola ou pela mudança nas hierarquias do futebol, ou por acaso, quem sabe. Mas os primeiros quatro colocados da Premier League jogam futebol ofensivo dos mais autênticos, inclusive o Chelsea, do técnico que fez fama porque ganhou títulos com retrancas. Não dá para desprezar o fato de que esses quatro clubes – Arsenal, City, Liverpool e o agora líder Chelsea – tenham feito 228 gols em 25 rodadas.

Carles: Comecemos por descartar o acaso como causa do que for na Premier. Talvez por recalque, pura dor de cotovelo ao ver como a ‘Liga de las Estrellas’ vai ficando para trás, mas não consigo ver inovação tática nos jogos da Premier aos que tenho assistido. Os times seguem roteiros bastante previsíveis, atacam com rapidez e disciplina e defendem cada vez com menos empenho. Isso sim mudou, e para pior. Também é verdade que ao reino tem chegado qualidade técnica individual de todas as latitudes, e não só espanhóis ou brasileiros. Vimos, por exemplo, uma grande exibição do moleque de origem jamaicana Raheem Sterling, na goleada do Liverpool sobre o Arsenal na rodada deste fim de semana.

Edu: Figuras como Sterling, que há duas décadas nem teriam lugar na Premier, já significam considerável avanço. Talvez você tenha visto os jogos com a tradicional má vontade latina, coisa que eu mesmo fiz durante a maior parte da vida, não sem motivo e com uma certa arrogância diante daquele futebol tosco. Mas pegue o Liverpool, quarto colocado, já que foi o que você citou. Não tem o menor pudor de colocar quatro atacantes no time e jogar sem volantes. O técnico Brendan Rodgers simplesmente adaptou o capitão do time, Steven Gerrard, por ali e deixou que o resto nas mãos de Luis Suarez e sua turma de atacantes. Será campeão? Certamente não. Mas é um time que dá gosto ver.

Carles: Insisto que a minha crítica traz essa ponta de inveja de ver jogos vistosos, disputados entre todos e por isso vasculho à procura de possíveis defeitos. O Liverpool joga com o descarado atrevimento de um inglês de bermudas em Mallorca. Incisivo sem deixar de ser tradicional. E isso significa ser eficiente, cumprir os objetivos e competir com obstinação. Para não ficar só na comparação com as competições latinas, também estive espiando o Bayern em Nuremberg e pude ver algumas combinações entre Thiago Alcântara e Götze de extrema eficiência e beleza plástica, sem obsessão pela verticalidade, mas com grande capacidade de construção. Sim, sim, já sei, o Pep… Mas não sou capaz de imaginar outro exemplo melhor para ilustrar a inovação sem sacrificar os objetivos mais puros e simples do futebol.

Edu: Não falo em inovação, mas em redescoberta do ataque, só isso. E ainda mais relevante por se tratar do futebol inglês. Pode ser pelo papel dos técnicos estrangeiros (exceto o próprio Rodgers, que é irlandês) e dos muitos atacantes contratados a peso de ouro de  outros centros europeus, do Brasil, da Argentina e do Uruguai. Claro, isso é evidente. Mas hoje existe o gosto por esse tipo de jogo, coisa com que as torcidas nunca foram muito acostumadas por lá. É mudança clara de parâmetros ou uma saudável volta ao passado. Se o time mais retranqueiro dos últimos anos, o Chelsea, tem jogadores como Hazard, Oscar e Willian alimentando o centroavante (Torres ou Eto’o) e dois volantes que chegam em todos os ataques (Lampard, Ramires ou Matic) algo deve ter mudado. Acabou o líbero, acabaram os três zagueiros centrais, não se fala mais em volantes exclusivos de marcação. Nem o modélico e supertudo Bayern, do revolucionário e iluminado Guardiola, tem tão pouca gente defendendo.

Carles: É o que falamos no começo, o desprezo pela mais tradicional forma de defender, lá atrás. E nessa história, o treinador catalão escreveu algumas das páginas. É a grande mudança e não só na Premier, mas uma exigência global que, de quebra, mantém todos, zagueiros, meio-campistas e atacantes de prontidão o tempo todo que estiverem em campo. Isso exige uma grande capacidade física deles e principalmente do talão de cheques do clube, que precisa manter o alto nível nos principais 14 ou 15 jogadores do plantel. Nesse quesito, a Premier ganha de goleada de todas as outras ligas.

Edu: Goleada? Não mesmo. Os negócios mais vistosos dos últimos oito meses foram feitos em Madrid, Barcelona e Munique, sem contar os de Paris. Os clubes ingleses têm mais dinheiro no mercado, sim, mas contratam times inteiros, não sem o desperdício que também existe nos outros campeonatos. Podemos e vamos discutir esse mecanismo perdulário em outra ocasião. Mas, dentro de campo, contratar times inteiros significa justamente a confirmação dessa etapa redentora – um futebol reconstruído. E olha que os líderes da Premier não têm essas defesas relapsas a que você refere. O Chelsea, mesmo enfrentando ataques devastadores, sofreu 20 gols em 25 jogos. Ah, esqueci, tenho que levar em conta o seu desprezo pelas estatísticas.

Carles: Quis me referir à capacidade de investimento global, não manipule! E por falar em manipulação, acho que “desprezo” é um tanto exagerado. Mas se o que você quis dizer foi que para mim as estatísticas têm o seu devido valor como instrumento de análise, mas que nunca serão mais importantes do que a capacidade de observação das tendências do comportamento humano, então, nesse caso confirmo que desprezo as estatísticas. Sou assim de latino.

Edu: Me deixe sugerir, então. Qualquer sábado destes, livre por alguns minutos dos seus dogmas exageradamente latinos e veja com o espírito desarmado um ou dois jogos da Premier. Mas não vale Fulham e Southampton. Você corre até o risco de se divertir tanto que não vai querer fazer outra coisa depois. Pode ser acompanhado de um vinho e uma tortilla, como homenagem às raízes.

Carles: Em nenhum momento neguei minha inveja, nem disse que a Premier não me divertisse, mas aceito o convite ou a sugestão.

 

 

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