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A revolução do Barça, em xeque.

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de março de 2013 | 06h25

Carles: Se você fosse o Roura, técnico interino do Barça, qual seria sua tática para abrir a lata do Milan? Porque, suponho, os italianos vão jogar para não tomar gol e são especialistas nisso.

Edu: Estarão jogando contra o Barça, têm um time com bem menos recursos técnicos e podem até perder por 1 a 0. Compreensível que os italianos joguem para defender. Acontece que se defenderam em Milão e souberam beliscar uma coisinha lá na frente, no que também são especialistas. O problema é a falta de punch do Barça nos últimos jogos. Ninguém imaginaria ver o Barça sem pegada. É essa a missão do plácido Roura, recuperar o punch, o espírito.

Carles: Então você entende que a estratégia defensiva pode ser uma legítima proposição de jogo, dependendo das circunstâncias? E dependendo da pegada do adversário não é infalível? É o que tem acontecido nos últimos clássicos paulistas, sem gols, o requinte tático está prevalecendo?

Edu: É uma proposição legítima porque ganha jogos. E campeonatos, infelizmente. E não é infalível, claro, felizmente. Tivemos dois clássicos seguidos aqui em São Paulo que ficaram no 0 a 0. É certo que as circunstâncias são muito outras. É um campeonato regional, não um mata-mata da Champions. Mas vimos um jogo tático com marcação dinâmica entre Corinthians e Santos e um jogo tático com marcação passiva entre Palmeiras e São Paulo. A desculpa para este último é que os dois técnicos estão ameaçados. Mas o torcedor em geral e a mídia chamada de especializada não gostaram de nenhum dos dois, o que é compreensível.

Carles: Voltemos ao Barça como modelo de futebol ofensivo e os possíveis antídotos. O ano passado foi o Chelsea com uma situação semelhante à deste ano. Disseram que os ingleses (mais italianos que nunca) tinham colocado o ônibus na frente do gol para garantir a classificação. Mas em teoria era um Barça ainda ambicioso e com pegada. Será que em ambos os casos não faltou um pouco de humildade e sobrou uma certa prepotência para reconhecer que era preciso um plano B?

Edu: Diante de tudo o que o Barça fez nos últimos anos é até natural uma certa prepotência. Não dá para culpar esse time por isso. O que ficou fora do planejamento foi o possível esgotamento do modelo. É aí que entra o plano B. Mas o plano B não seria contrariar as raízes e montar um esquema defensivo mais eficaz? O Barça estaria nessa situação se não tivesse uma defesa tão vulnerável?

Carles: Eu não propus em nenhum momento abdicar ao modelo, mas aos poucos torná-lo mais flexível, sob o risco de a revolução precisar de uma contrarrevolução. Nem acho que o erro tático tenha sido de San Siro, apesar do jogo medíocre. Aconteceu e agora é o momento de demonstrar que eles próprios não são seu pior inimigo. Existem boatos de que vão jogar com três zagueiros para liberar os dois laterais e prevenir os contra ataques, já que a defesa possivelmente não tenha que vigiar mais do que dois atacantes adversários. Acho muito pouco. Se o objetivo é “ensanchar el campo”, Tito/Roura deveriam sair com dois pontas e permitir ao Iniesta trabalhar mais desde o centro. Deixar o Andrés esquecido lá na linha lateral é um luxo a que eles não podem se permitir hoje.

Edu: É pouco sim, bem pouco. Mesmo porque os italianos estão acostumados a jogar contra times assim. Acho que é mais uma questão de postura do que nomes ou posições. Não tem nenhum jogador que será um revulsivo além dos que estão aí e são, no geral, excepcionais. A questão é de se propor ao enfrentamento, à pressão o tempo todo, controlar e agredir. O Barça, pela qualidade que tem, vencia tudo de forma muito natural. Agora ninguém permite que seja natural. Até o Depor deu uma engrossada básica no sábado. Insisto no problema de falta de espírito, só não vejo o Roura como o cara que vai promover isso.

Carles: Recuso-me a reconhecer que o futebol profissional dependa tanto de entusiasmo ou espírito. É incompatível com os compromissos financeiros adquiridos. Tem que decidir, ou voltamos ao bom e velho amadorismo ou o tal espírito tem que estar sempre presente na hora do jogo. E não vale dizer que são seres humanos, sujeitos e influenciados por outros fatores. Por isso reluto em atribuir a baixa forma do Barça ao tal espírito, ou à não presença do paizão. Tito não faz o gênero entusiasta, ele é mais bem uma pessoa sonsa. Se fosse assim, o Yustrich teria sido campeão de tudo.

Edu: Espera aí, não precisa apelar. Yustrich!!! E é bastante ingênuo da sua parte achar que o espírito não influencia. Por favor… A execução tática e a precisão técnica dependem diretamente do estado de ânimo dos caras. Não há profissionalismo e milhões de euros que neutralizem isso. E o futebol só é o que é por causa dessa influência e dessa inconstância. Do contrário seria totalmente previsível e o Barça nunca teria voltado de Milão com aquela chacoalhada.

Carles: Influencia sim, mas não deveria ser mais do que dez por cento. Tito e Roura têm que botar a cabeça para funcionar e não irem para o trabalho como funcionários públicos, para bater cartão. Revoluções táticas como a do Barça têm que se renovar diariamente para poder seguir surpreendendo. Quer proteger a defesa? Bota o Busquets junto com os dois zagueiros, mas se abrir o campo é para facilitar as coisas pelo meio e aí tem que ter máxima qualidade possível. É o forte do Barça. Repito, tem que reinventar para poder aproveitar o que eles construíram. Se a necessidade de fazer gol for solucionada com a colocação do Villa simplesmente, prometo que desligo a televisão. É muita preguiça de pensar. Villa ou Alexis, dá no mesmo.

Edu: Carlão, entenda bem. Nós, brasileiros, mais do que ninguém, fomos vítimas de técnicos apenas motivadores, paizões. Está aí o pujante Felipão para nos assombrar mais uma vez. Mas aqui não se trata disso e sim de equilíbrio. Justamente para sair dessa via burocrática é que o cara precisa mesclar suas soluções. E é possível trabalhar com dedicação e criatividade tática e ao mesmo tempo ter sensibilidade para detectar o baixo astral. E agir contra ele. Essa também é uma função primordial de um treinador que seja líder e especialista técnico ao mesmo tempo.

Carles: E você não acha que o entusiasmo é algo demasiado instável para que uma estrutura tão gigantesca como o futebol de alta competição dependa disso? E olha que eu sou o primeiro a desfrutar de um jogo de várzea!

Edu: Não falei que ‘depende’ disso, falei de ‘equilíbrio’ entre vários fatores, o que o Barça, aliás, sempre teve. Mas acho que você está em visível TPD (Tensão Pré Decisão) para me entender hoje. Conversamos depois do jogo…

Carles: Então falamos mais tarde porque agora tenho que comer umas quantas unhas.

 

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