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A sacada de Klinsmann e outras habilidades

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

21 de janeiro de 2014 | 09h22

Edu: Se não me engano você incluiu nas suas previsões da Copa uma possível surpresa americana, foi isso?

Carles: É a minha zebra, dessas que se um acerta se consagra. Seus amigos cronistas sabem do que estou falando.

Edu: Sabe que eles estão por aqui né? Fazendo uma espécie de pré-temporada…

Carles: Pensei que nunca tinham ido embora.

Edu: Foram, sim, e como foram! Mas sempre voltam e continuam os mesmos, tem mais gente na segurança do que no elenco.

Carles: Bem ao estilo ianque. Mas conte, conte, que planos eles têm? Pelo visto estão dispostos a, pelo menos, confirmar a hegemonia na Concacaf.

Edu: Mais do que isso. Ninguém desaba de lá para fazer um estágio aqui com 24, 25 jogadores, por algumas semanas, só por turismo. Parece um planejamento bem consciente, iniciativa do Klinsmann durante as férias da Major League.  Ótima sacada. Vieram conhecer e treinar em São Paulo, visitaram os estádios em que vão jogar no Nordeste e estão fazendo uma tradicional média com a imprensa. O alemão é muito bom nisso, tem habilidade social. E conhece futebol tanto quanto relações públicas.

Carles: Verdade, o trabalho de Jürgen tem muito a ver com essa evolução do “soccer”. Imagino que ele deve estar como na sua própria casa em São Paulo, já que está acostumado a chegar aos treinos da sua seleção em Los Angeles pilotando um helicóptero. Um estilo muito paulistano, não? Portanto, fique de olho nos céus. Umas vezes eles chegam por mar, outras, pelo ar.

Edu: Ele tem falado bastante desse amor pelos ares e também de sua profissão na adolescência, padeiro, coisa de família. Klinsmann tem influência direta na conexão entre a Major League Soccer e a seleção ianque, tanto que estimulou o retorno este ano de jogadores que estavam na Europa, casos de Dempsey e Bradley (ex-Roma). Fora a tradicional soberba americana, temos que reconhecer o trabalho consciente do alemão no time nacional, um técnico que sabe mesclar bem suas experiências na terra natal com o tempo em que passou na Inglaterra, jogando pelo Tottenham, na Itália, por Inter e Sampdoria, e agora, desde 2011, desbravando uma nova cultura.

Carles: Uma cultura diferente até certo ponto, existem muitos pontos de conexão entre teutões e estadunidenses. Assim mesmo, o patrício de Klinsmann, Joachim Low, aos mandos de outra nave, segue despistando e indicando a Espanha como favorita ao título. Menos surpresa nos palpites de Laurent Blanc ou Jorge Valdano que, como eu, seguem apostando por Argentina e Brasil, enquanto Felipão não vê nenhuma possibilidade de perder. E o marquês Del Bosque concorda com o amigo. Cada um cria os seus como crê conveniente.

Edu: Prefiro ficar com uma das lúcidas opiniões de Klinsmann num dos muitos convescotes com a imprensa nesta passagem por aqui, quando foi perguntado se o Brasil era favorito. ‘Vocês já foram campeões cinco vezes’, disse ele. ‘Isso aqui é mais do que ganhar uma Copa’.

Carles: Essa história de não “reclamem de barriga cheia” lembra-me aquela outra tática de algum general, com gentil patrocínio do tio Sam, de que vivíamos em uma ilha de paz em meio à violência do mundo. Você acreditou?

Edu: Não, mas posso dar a entender que sim.

 

 

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