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A Seleção e o vírus da prepotência

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

26 de abril de 2013 | 04h38

Carles: Desta vez não pude ver o time do Felipão. O amistoso contra o Chile teve tão pouca repercussão, também pela importância das semifinais da Champions League, que fiquei sabendo já muito tarde. Como foi? Li que mais da mesma coisa, não é? Vaias incluídas e ‘olé’ para o jogo do adversário…

Edu: Não por acaso fizemos aquele post, se não me engano com o título ‘Nada que não possa ficar ainda pior’. Um desastre completo. Nem podem dizer que não houve apoio do torcedor de Minas. O clima era muito bom no início do jogo, mas foi impressionante com tudo foi se desfazendo. A reação não poderia ser outra ao final.

Carles: Como disse, não vi o jogo mas costuma suceder que, quando um jogo desses vai de melhor a pior, é sintoma de que internamente está se sentindo a pressão, a necessidade premente de mostrar resultados. Parece óbvio, mas é que muitas vezes não tenho certeza de que exista consciência por parte do Felipão das urgências, das necessidades de mudança. Talvez ele até saiba, mas seja totalmente incapaz de, ao menos, tentar uma reviravolta. Só teimosia não é, estou certo.

Edu: Só se prepotência e autoritarismo forem formas mais agudas de teimosia. Tratava-se de um amistoso contra um time remendado do Chile, com três ou quatro titulares, assim como o Brasil, que jogou só com os caras que atuam aqui, sem os ‘europeus’. Mas a Comissão Técnica transformou esse último teste antes da convocação final para a Copa das Confederações em uma guerra pelas últimas vagas. Tentaram, com isso, motivar os caras além da conta. Uma postura deplorável. E o resultado foi exatamente o oposto, menos pelo empate em 2 a 2, e mais pela absoluta apatia dos jogadores, que não são idiotas e não caíram na esparrela de Felipão e sua turma.

Carles: Pois é, teve pressão adicional, como imaginava. Mas deu para reconhecer uma cara no time? Não me refiro a uma fisionomia que possa ser estimulante para os apreciadores do bom futebol. Pelo menos, existe a sensação de um projeto, mesmo que arcaico?

Edu: Não, não e não. Sem projeto, sem cara, total falta de fisionomia tática. A rigor, não se esperava outra coisa, vindo de quem vem. Mas, fosse um cara mais lúcido (e, por isso, um tantinho mais humilde), já que não há tempo, o lógico seria manter a base tática do Mano Menezes.

Carles: Mas teve Neymar e Ronaldinho. Nem faz tanto tempo, se aqui na Europa se anunciasse qualquer partida com Ronaldinho e Neymar no mesmo time, eu não acharia estranho que muitos dos nossos amigos “aficionados sin fronteras” fizessem de tudo para estar na arquibancada. Se me perguntarem, o que eu digo, ‘vai, vale a pena’ ou quem sabe quando não for um simples amistoso?

Edu: Neymar foi o cara mais vaiado em campo. Isso basta ou quer mais? E Ronaldinho só não foi mais vaiado porque os torcedores do Atlético ocuparam mais da metade do estádio, já que o jogo foi em Belo Horizonte. Além disso, o dentuço pegou pouquíssimo na bola, teve aquela costumeira participação invertebrada, foi o ilustre ausente sempre.

Carles: O Bernard, jogador que descobri no ano passado quando estive no Brasil – e gostei muito! – companheiro dele no Galo tem entrado no time ou pelo menos nas convocações?

Edu: Ele sofreu uma lesão grave há algumas semanas e não teve chances ainda. Mas tenho minhas dúvidas se o Felipão vai levar um jogador ‘baixinho’ e deixar de fora algum de seus mastodontes. A verdade é que vivemos uma espiral descendente, Carlão. O fato de as coisas darem errado alimenta a nefasta postura da Comissão Técnica de sempre responsabilizar quem ‘não entende de futebol’ e por isso faz críticas. Ou seja, a imprensa. Só que, neste caso, a imprensa representa o resto dos mortais, entre os quais os 50 mil que estiveram no jogo do Mineirão. Logo após o jogo, aliás, Felipão abandonou a entrevista coletiva ao ser perguntado se uma campanha ruim na Copa das Confederações poderia provocar sua saída. Que esperar de um cara desses?

Carles: Nunca esperei muita coisa, mesmo, mas acho que os anos e a adoção de uma postura defensiva permanente podem inclusive piorar o seu trabalho, se fosse possível. Por muitos anos, aguentamos o Javier Clemente à frente da seleção espanhola. Dono de ideias retrógradas quanto ao futebol e também pródigo em realizar entrevistas coletivas históricas. Sempre foi um poço de arrogância, mas pelo menos era divertido, mesmo quando esculachava todo ser vivente que se lhe atravessava pela frente. Pasmem, a evolução se deu com a chegada de outro técnico nem tão acessível, nem paradigma de modernidade, Luis Aragonés. À frente da seleção, Luis pareceu sofrer alguma convulsão interna e apostar por um jogo moderno e dinâmico, algo de que nunca dera nem ao menos sinais em seus trabalhos anteriores. Quem sabe tem uma luz no fim do túnel…

Edu: Não vejo essa possibilidade de upgrade no gaúcho, nem de longe. Ao contrário, quanto mais o torniquete aperta mais sectário ele fica, enclausurado em suas poucas e pobres convicções esportivas. E tem o agravante da postura. Acho que é um vírus da arrogância e da prepotência que assola os profissionais do futebol que têm como representante o tal de Jorge Mendes. Convivemos agora com o ‘vírus Mendes’.

Carles: E nem pela via do auxiliar existe muita esperança, suponho. Porque no caso do Aragonés, chamado o ‘sábio de Hortaleza’ e sua repentina transformação, eu tenho uma particular teoria. O assistente na seleção foi José Armando Ufarte Ventoso, um ex-jogador de dupla nacionalidade espanhola e brasileira, de passado como jogador do Atlético de Madrid e Racing de Santander de 1964 a 1976 e que, antes, entre 1958 e 1964, ainda muito jovem, tinha sido jogador do Flamengo e Corinthians. Coisa rara, nessa ordem, talvez inédita! Esteve a ponto de ser titular da Seleção Brasileira e depois jogou na “Roja”. Figura discreta, treinador das seleções de base, mas com visão distinta e preferência por um futebol vistoso. Acredito que teve muito a ver com a mudança do velho Aragonés ao ganhador da Eurocopa 2008. Sempre passou inadvertido pelos meios, mas é possível que tenha sido uma peça chave na transformação do futebol espanhol. É só uma teoria pessoal.

Edu: Os auxiliares diretos do Felipão comungam com a visão dele há anos, a cada churrasco familiar. E o outro que tem uma hierarquia um pouco superior, Parreira, é praticamente um diplomata do futebol, um cara de 70 anos que não está aí para criar caso. Precisa dizer mais?

Carles: Em 2008, quando ganharam a Eurocopa, o primeiro título desta fase importante o futebol espanhol, Ufarte tinha 67 anos e Luis, 70. Nunca é tarde para mudar. Basta um pouquinho de humildade e vontade.

Edu: Louvo seu otimismo. Quer dar uma palestra por aqui?

Carles: Otimismo é meu segundo sobrenome. Só que senso crítico é meu apelido, desde criancinha. Quando quiser.

 

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