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A sina dos goleiros, por Iker

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

23 de setembro de 2013 | 08h56

Carles: Vocês devem estar sabendo das peripécias pelas que está passando o sujeito que levantou a única Copa do Mundo que a Espanha conseguiu até hoje. Não tanto pela reserva de um Diego López em grande forma, mas por tudo que ele passou nas mãos de Mourinho, que, se desconfia, seria na verdade, uma encomenda do “presi”.

Edu: Certamente não temos aqui a mesma clarividência sobre as aventuras de Florentino no vestiário, mas nos solidarizamos com Casillas desde o início, porque sempre pareceu um sujeito profissionalmente dedicado e, em campo, um milagreiro. Por isso que a impressão que continua é que o inferno para ele não terá fim enquanto permanecer no Bernabéu.

Carles: A questão é que no final desta temporada europeia tem a Copa do Mundo no Brasil e Victor Valdés, goleiro do Barça e que disputa a posição com Casillas na seleção, anda incomensurável. Fico pensando nessa injustiça da posição de goleiro, que costuma interromper um processo evolutivo por falta de jogo, quando se encontra um rival que se aferra ao posto.

Edu: Você é catedrático nessa posição e pode especificar melhor que peso tem o fato de o goleiro jogar sempre ou estar muito tempo na expectativa. Em princípio não é bom negócio para ninguém, de qualquer posição, ficar de fora e projetar a evolução na carreira estando na reserva. Voltaríamos a um pequeno conflito que está no DNA do futebol, aquela história de que só jogam 11, de que ‘no meu time todos são titulares’, como pregam muitos treinadores. Normalmente, o sujeito que se considera apto a ser titular e nunca se conformará com a reserva procura um time para jogar que lhe garanta o posto, não tem outro jeito.

Carles: É mas no resto de posições sempre se pode dar um jeitinho para encaixar alguém que merece jogar. São 10 vagas! Goleiro sem jogo tem grandes chances de falhar. Em todas as posições é fundamental estar jogando, mas no caso o goleiro as consequências podem ser irremediáveis. Quem sabe é hora de recorrer ao manual de soluções Ecclestone. As equipes de F1 são obrigadas a usar pelo menos dois tipos de pneus durante o fim de semana… alguma regra que obrigasse a alternar goleiros pelo menos num torneio. Goleiro de seco e goleiro de chuva, por exemplo.

Edu: Sim, goleiro ‘macio’, goleiro ‘intermediário’. Na verdade, se a questão for revezamento, algo que já foi sugerido pelo Ancelotti no Madrid, trata-se de um recurso que até hoje não vi nenhum goleiro aprovar. Revezar é um prova de falta de confiança – e de falta de segurança do técnico, aliás.

Carles: Não, agora, falando sério, os grandes clubes europeus enfrentam, a cada temporada, pelo menos três grandes competições, muitos jogos, uma infinidade de minutos e umas quantas contusões. Como fica o clube que decide ceder às pressões ególatras de um goleiro se ele se machuca?

Edu: Mas há ególatras em todas as posições, Carlão, inclusive no comando técnico. Se Cristiano Ronaldo se machucar, alguém com menos gabarito vai ocupar o lugar dele, sejam quais forem as competições que o time estiver disputando, não tem outro jeito.

Carles: Faz uns quantos anos, Cañizares, ex-goleiro que agora é comentarista, deixou o Madrid quando sentiu que, com a chegada do treinador alemão Jupp Heynkes ao clube, ia ser incapaz de desbancar o conterrâneo Bodo Ilgner, que por certo, anos mais tarde, seria substituído justamente por um ainda muito jovem Iker. Gato escaldado, e já sendo jogador do Valencia, Cañizares nunca admitiu compartilhar o posto com Andrés Palop, goleiro sempre elástico e então em muito boa forma. Cañete usou todo tipo de artimanhas para não deixar o rival progredir, e Andrés teve que ir para o Sevilla, onde virou ídolo. Agora, pelos microfones da ‘Cadena Ser’ e ‘Canal+’, emissoras onde trabalha atualmente, Cañizares defende alto e bom tom, a ideia de que o clube deve ter só um grande goleiro para não criar situações embaraçosas ou atrito.

Edu: É uma atitude um tanto sectária e vem de um goleiro que sempre me pareceu meio frustrado e inseguro por várias razões – e talvez essa, do conflito com Palop, seja a principal delas. Projetando essa situação para Casillas, o mais grave é que o mecanismo de tirá-lo do time foi especialmente perverso e injusto, quando ele acabara de ser eleito o melhor do mundo e vinha de um bicampeonato com a ‘Roja’ na Eurocopa. Aí se sucedeu outra fatalidade, com aquela contusão séria. E até onde eu sei ele não é um cara que se dê mal com Diego Lopez, muito ao contrário. Ele só quer, e merece, jogar.

Carles: Não parece haver crispação entre os dois, mas imagino que Iker olha para o titular e não pode evitar lembrar-se de um certo português. Por muito tempo, o goleiro, mais de que nenhum outro jogador, foi um autodidata, sem treinamentos específicos. Valdir de Morais disse em alguma entrevista que quando jogava, como mais experiente, costumava treinar ele mesmo os seus próprios reservas, seus rivais. Mais tarde, transformou-se no pioneiro nessa questão do treinamento específico de goleiros no Brasil. E graças a que Osvaldo Brandão costumava passar todos os dias pela loja  dele (de autopeças, acho) para bater papo e acabou convidando-o para assumir a função no Palmeiras. Agora, rigorosamente, os elencos contam com um ou dois treinadores para mais de 20 jogadores e um exclusivo só para treinar três sujeitos. Sinal que os caras são muito importantes, não um só, dois pelo menos e um terceiro em formação. Como mínimo, contar com bons goleiros seria uma forma de o clube rentabilizar a grana investida em treinadores específicos, preparando gente que pretenda ser bem aproveitada. Aliás, falando em grana, dizem que o problema de Casillas com o “presi” seria nada mais nada menos que o alto salario do arqueiro.

Edu: Vendo de longe, não me parece que Casillas seja um mau colega, ou inimigo de seus rivais na posição. Pode ter um déficit de personalidade, por meio quietão, não levar as coisas podres para a mídia. Mas não parece que seja um traíra. Também não pode ser visto como um mártir, porque ele está sujeito a quedas técnicas como qualquer outro. Mas a trajetória do afastamento dele não foi normal e, por isso, fica a impressão de que nunca foi um problema técnico, mas algo para querer minar a importância dele nas questões de relacionamento no elenco. Faltou que Iker fosse tratado como patrimônio do clube, exemplo para os mais novos. E os goleiros, por definição, sempre se transformam em referência, algo inerente a sua importância dentro do time.

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