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A tese do quintal

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

06 de julho de 2013 | 08h01

Carles: Estive pensando que em consequência da crescente estratificação da Liga Espanhola, da cada vez menor capacidade competidora dos pequenos, alguns deles podem acabar virando uma espécie de quintal dos grandes. Admito que é tudo um tanto especulativo da minha parte, mas pelo andar da carruagem em Vigo, pela escassez de recursos próprios e sobra deles no Barça, o Celta, equipe da cidade, pode se transformar numa  filial extraoficial, um laboratório do clube catalão.

Edu: Pode ser um perigo mesmo, mais do que isso até, o princípio do fim de alguns valores centenários do futebol. E pode acontecer até por aqui futuramente. Até que ponto vão essas especulações? O que levou você a chegar à tese do quintal?

Carles: Sabe que minha especialidade são as teorias conspiratórias. Vamos lá. O Celta como a maioria dos times (cada vez mais) pequenos foi obrigado a se desfazer da sua maior estrela, Iago Aspas, que vai jogar no Liverpool. Conseguiu manter-se na Primeira Divisão e precisa de uma munição mínima para isso. Historicamente, seu padrão de jogo foi sempre ofensivo, ideal para jogadores formados no clube blaugrana. É bem mais complicado manter essa filosofia de jogo sendo um time menor. Lá vai minha tese mirabolante.

Edu: Quero surpresas.

Carles: A continuidade de Tito Vilanova no Barça é uma incógnita, pela sua doença. Seu sucessor favorito é Luis Enrique, homem da casa, só que para isso, o ideal é que esteja na ativa e de preferência na própria Liga. Bom, o caso é que ele é o novo treinador do Celta. Por outro lado, é conhecido o vínculo que Mazinho mantêm com o clube viguês e, coincidência ou não, seu filho mais novo, Rafinha, acaba de assinar como profissional com o Barça, mas deve jogar a próxima temporada emprestado ao Celta. Lá já está Nolito, ex- companheiro no Barça B e prevejo que não será o último. Sigo… com o paizão contente, vai ser mais fácil convencer os Alcântara de que o primogênito, Thiago, permaneça no clube. E dessa forma não corroborar a completa incompetência de Rossel e sua trupe na gestão do caso. Viajei?

Edu: Só o normal. Nesse caso, não vejo que caracterize nenhuma conspiração especial. Para todos os efeitos são relações amistosas entre dois clubes. O poderoso cede o jovem para ganhar rodagem a um time que é menor, mas afinado com suas propostas de jogo. O lance envolvendo Mazinho e Thiago pode ter alguma esquisitice, mas é prática comum no futebol-negócio. Não acho que o Celta vai enfrentar o Barça com menos vontade de vencer por causa disso. Provavelmente Rafinha até tenha alguma cláusula que o impeça de jogar contra os catalães. E o problema do Luis Enrique ser candidato à vaga de Tito é circunstancial. Alguém que o Barça vá contratar provavelmente sempre estará em outro clube. Simplifiquei demais ou tem algum dado importante que não estou sabendo?

Carles: Tudo certo, principalmente para o Barça, o grande. E pela teoria mais simples, para o pequeno também, já que permite ao time competir com um potencial técnico superior às suas possibilidades. O problema segue sendo o modelo. Usando recursos alheios, os pequenos potencializam cada vez mais os grandes e sua linha de produção de talentos, dando-lhes rodagem até estarem prontos para voltar para casa. Tudo isso, provavelmente, em detrimento do sistema da formação dos seus próprios talentos. Pode escrever: se o Tito precisar voltar para Nova York para se tratar, Luis Enrique larga imediatamente o projeto, se é que um esquema supostamente provisório pode ser chamado de projeto. Guardadas as devidas proporções, é como se a Parmalat ou a Kia estacionassem seus jogadores em Palmeiras ou Corinthians. E só enquanto interessa, claro.

Edu: Então haverá um problema se constatarmos que é esse de fato o modelo, que seria um modelo exploratório da pior espécie. Aí eu te pergunto: o Celta, um time quase centenário, que ajudou a introduzir o futebol na Galícia e que representa uma grande comunidade, se propõe a isso? Ou está entrando de gaiato? Se é mesmo um modelo, devem existir outros pontos da Espanha em que a história se repete, se bem que não vejo, aqui de longe, grande simpatia de algum clube para topar um esquema ‘amigável’ desses com o Real Madrid, por exemplo.

Carles: Repito que por enquanto é um delírio. Repleto de evidências, mas um delírio meu. Nessa linha, posso afirmar que o Celta não só consente, como pode ter sido quem propôs a fórmula, pensando na própria sobrevivência. O problema é que se fomenta um sistema de dependência, pouco recomendável entre entidades que concorrem num mesmo certame. Por esse mesmo motivo, há alguns anos foi proibido que os clubes tivessem o time principal e a filial disputando a mesma divisão. Se a moda pega, será preciso estender a proibição às “equipes filiais não oficiais”.

Edu: Não acho que caracteriza uma filial, ainda, sinceramente. É legítimo o Celta bater na porta do Barça e propor a incorporação do Rafinha para o garoto ganhar experiência. Será bom para o Celta, bom para o Barça e os adversários não podem questionar nada, porque é uma ação de rotina, que provavelmente já se repetiu em outras ocasiões. Em Valencia mesmo tem um jogador que o Madrid cedeu por um ou dois anos, se não me engano, com a intenção de fazer o rapaz ficar mais esperto, Sergio Canales. Agora, o caso das filiais – Barça B, Castilla – era uma aberração mesmo, precisava ser regulamentado. O mais preocupante disso, para mim, é o interesse do Barça em Luis Enrique. Achei a passagem dele pela Roma um caos completo.

Carles: O caso de Canales nunca caracterizou um vínculo de este tipo entre os clubes. Ele chegou cedido sim, para dar a sensação de que no Madrid exista algum tipo de preocupação pelo futuro dos jovens talentos e não se desfazer de uma vez do que diziam seria o “beatle de la casa blanca”, contratado com grande barulho ao Racing de Santander. Foram chegando mais e mais estrelas milionárias ao Madrid, até que, na surdina, Canales foi definitivamente transferido ao Valencia, onde é o sócio número um da enfermaria. Você tem razão, Luis Enrique ainda não demonstrou sua valia como treinador, mas sempre foi considerado pelo clube o sucessor de Guardiola. Vilanova era na verdade o assessor técnico de Pep. Coisas do Camp Nou.

Edu: Coisas com as quais, Neymar, que está sendo vigiado de perto por uma verdadeira junta médica do Barça depois da cirurgia na garganta, terá que se acostumar. Isso sim será vida nova para o garoto.

Carles: Enquanto isso, em Terrassa, Catalunha, Jordi Alba passava pela mesma cirurgia. Os dois que, segundo essa mesma junta, precisariam ganhar peso e massa muscular e para isso entrar num regime de treinamento e dieta especiais. As eventuais infecções causadas pelas amígdalas podiam atrapalhar esse plano. Também vai dizer que estou enxergando conspirações estranhas nisso?

Edu: Talvez. Só sei que essa história de ganhar peso tirando as amígdalas foi esculhambada por muitos especialistas ouvidos nestes dias por aqui. Para a maioria, não tem nenhuma relação, nenhuma documentação científica que comprove. Só teria se o jogador fosse muito propenso a infecções e contusões, o que não é o caso do Neymar pelo menos.

Carles: Neste caso, voltemos à teoria de que as coincidências existem e todo mundo fica feliz.

 

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