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A verdadeira Libertadores vai começar

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de abril de 2013 | 05h21

Carles: Zé, como vai a Libertadores? Por aqui só chegam informações sobre o que o Neymar faz ou deixa de fazer, alguma cena de “tangana” e pouco mais. Soube que o Corinthians ganhou na quarta-feira por 3 a 0 e classificou-se como primeiro do grupo graças a maior saldo de gols.

Edu: Os brasileiros estão relativamente bem, sendo que os mais encorpados, de longe, são Atlético Mineiro, que tem a melhor campanha do torneio, com 100% de aproveitamento, e o Corinthians, que tem uma base sólida. O Palmeiras se garantiu faz umas horas. Grêmio e Fluminense dependem só de seus resultados e o São Paulo é quem está em situação mais delicada: precisa ganhar justamente do Atlético na última rodada e ainda torcer por um ou outro resultado. Acho que Grêmio e São Paulo foram as decepções dessa fase se pensarmos no que investiram e prometeram e no que efetivamente apresentaram.

Carles: Bom, quem dirige o Grêmio é o Luxemburgo, né? E Nei Franco, treinador do São Paulo, tenho lido, passa por uma certa pressão e a sua continuidade está ameaçada.

Edu: Total. Nei Franco me parece um tipo bastante ingênuo para um clube como o São Paulo, a ponto de não conseguirmos avaliar sua real capacidade técnica em função da dificuldade do cenário. Trabalhar com um elenco caro e algumas figuras carimbadas como Lúcio, Rogério Ceni e Luis Fabiano não é fácil. E o São Paulo, ao contrário do que alimenta o mito, é um barril de pólvora em matéria de cornetagem interna. Nei fica entre a pressão de um elenco experiente e as exigências de uma direção que posa de low profile mas cobra como um trator sem freios. Outros caras foram vítimas desse ambiente recentemente, Emerson Leão entre eles.

Carles: Sem dúvida o tricolor tem um dos ambientes mais ambíguos. Os redutos de poder se disputam desde os corredores até as páginas da mídia. Tenho a impressão de que em clubes como Corinthians ou Palmeiras tudo é mais explícito, talvez pelo residual de cultura de clube de bairro que se mantém no ambiente dos dois. Eu tinha a impressão de que Nei Franco era desses treinadores com um componente teórico, mas, como você disse, isso pode estar sendo encoberto pelo clima no clube.

Edu: Ele até parece ter mesmo esse componente teórico, o difícil está sendo mostrar a virtude (ou defeito). O São Paulo, de fato, é o time que mais cresceu em função de uma imagem administrativa bastante difusa, ao mesmo tempo em que investia, veladamente, em uma proposta midiática de time de elite social, que hoje está longe da realidade – as camadas populares que apoiam os grandes times não vêm de pequenas tribos, estão em todos segmentos sociais. Uma coisa é o corpo associativo, outra bem diferente é o torcedor que empurra o clube no estádio. Nesse ponto, não há dúvida de que Corinthians e Palmeiras seguiram uma trilha mais autêntica.

Carles: Era uma associação positiva, pressupondo uma mínima vivência prática. Voltando à Libertadores, a parte dos brasileiros, que outros jogos valem a pena o tempo perdido procurando as transmissões por Internet? Não parece que, este ano, os clubes argentinos sejam os maiores candidatos a discutir o título com os brasileiros.

Edu: Talvez o Velez, o melhor deles neste ano. O Boca é sempre atração pelo peso da camisa, pelo técnico que tem, Bianchi, e menos por Riquelme, um jogador hoje em segunda marcha, que às vezes apresenta uns ‘destellos’ como vocês dizem. Os mexicanos são sempre adversários difíceis, em especial neste ano o Tijuana, que joga em um caldeirão no extremo oeste do país e em gramado artificial, o que dificulta para a maioria dos times da América do Sul. Há também o Libertad, do Paraguai, que vem fazendo bom papel na Libertadores há alguns anos já. A questão central para os brasileiros é que, se passarem todos, haverá fatalmente confrontos locais, que acabam sendo às vezes mais complicado.

Carles: O Tijuana foi justamente o segundo colocado no grupo do Corinthians. Tremenda viagem para enfrentar os mexicanos no caso, por exemplo, dos times do sul do Brasil ou do Uruguai… em nenhum momento se fala em regionalizar pelo menos as primeiras fases?

Edu: Quando da entrada dos mexicanos na Libertadores pensou-se nisso, mas logo o pessoal percebeu que seria inviável, uma vez que os grupos fortes ficariam mais ao Sul, sempre, enquanto mexicanos e colombianos seriam beneficiados por adversários mais fracos do norte do continente. Não acho que seja de todo injusto o esquema de hoje, funciona mais ou menos como nas ligas europeias, em que o Málaga atravessa a Europa para enfrentar o Rubin Kazan. Coisas da geopolítica do futebol. Pior mesmo é o problema da altitude, mas este já foi comprovado: não tem solução.

Carles: O Rubin Kazan que, por certo, depois de eliminar Atlético de Madrid e Levante da Europe League, debaixo de neve, ontem finalmente, justo quando o frio no continente diminuiu, acabou desclassificado a duras penas pelo Chelsea. Para alegria dos possíveis adversários. Realmente não é uma viagem fácil.

Edu: Também por essas dificuldades é que, a rigor, a Libertadores começa agora. Nesse ponto tem um formato bastante semelhante ao da Champions, no qual a primeira fase serve para ganhar uns bons trocados e eliminar quem não serve ou não está em um bom momento, como foram os casos neste ano de Chelsea e Benfica, que foram parar na Europa League porque caíram na primeira fase da Champions.

Carles: E o regulamento prevê que os desclassificados melhor posicionados nessa fase disputem a Sul-Americana também, a exemplo da Champions e Europe League?

Edu: Não, não. A Sul-Americana reúne os times que não estiveram na chamada ‘Zona Libertadores’ do Campeonato Brasileiro e de outros campeonatos nacionais. O elo entre os dois torneios está em que o vencedor da Sul-Americana ganha o direito de disputar a pré-Libertadores no ano seguinte, um confronto eliminatório que leva o vencedor à fase de grupos.

Carles: Por isso o São Paulo está na Libertadores deste ano, não? Por ter vencido o Tigres em meio tempo da final da Sul americana passada…

Edu: O São Paulo foi quarto colocado no Brasileiro, o que já lhe garantiu uma vaga. Por essa razão, entrou o time argentino, vice-campeão da sul-americana.

Carles: Sem dúvida os torneios continentais devem ser cuidados com carinho, permitem aproximar povos com muitas coisas em comum e grandes diferenças também. No caso, os torneios da Conmebol se não chegam ao prestígio dos europeus pelo menos têm o privilégio de ser a congregação mais importante do esporte latino não? Só por isso já mereceria todo empenho para transmitir sempre uma imagem à altura.

Edu: Só mesmo uma nova orientação da Conmebol conseguiria essa valorização. A precariedade administrativa dos torneios continentais é indecente, o que explica por si só as imagens nada abonadoras que chegam invariavelmente por aí.

Carles: Uma pena. Um dia falaremos sobre a comercialização dos direitos de transmissão desses torneios aqui. É outra faceta vergonhosa.

 

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