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Aberrações, vítimas e ídolos de barro

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

18 de fevereiro de 2013 | 22h28

Edu: Em sua coluna de domingo no ‘El Pais’, o britânico-catalão John Carlin pegou o episódio envolvendo Oscar Pistorius para construir uma pequena tese sobre as maldades que o esporte é capaz de fazer, sob o título ‘La Fábrica de Mitos‘. Lembrou de outras farsas como a de Lance Armstrong e o caso Tiger Woods, mas o núcleo do artigo ressalta os danos que o ‘complexo desportivo-industrial’, expressão utilizada pelo ‘Financial Times’, pode causar com um atleta. Será que o futebol, que por estar sempre superexposto, tem proporcionalmente tantos casos assim de vítimas célebres do sistema? Ele mesmo só lembrou do ex-goleiro do Barça, o alemão Robert Enke, que se suicidou numa crise de depressão, se bem que Enke não chegou a ser um mito.

Carles: Tem outro caso extremo, no futebol argentino, Mirko Saric, um garoto que em 40 jogos pelo time do San Lorenzo e com 20 anos de idade viveu todos os ciclos possíveis dentro da vida profissional e pessoal, alcançando o estrelato, a decadência, sofreu uma contusão séria e uma profunda depressão, o que o levou a acabar com a própria vida. Existe uma necessidade da indústria cultural de construir mitos ao menor aceno de genialidade, justamente porque conhece a fragilidade desses mitos fabricados e a necessidade de substituição imediata das eventuais baixas nas manchetes. Pistorius, como O. J. Simpson, passou de mito esportivo, de super-homem, a alimentar essas manchetes como caso policial e daí provavelmente ao ostracismo. Rei morto, rei posto.

Edu: O que quero dizer é que, no futebol, mais do que em outros esportes, a proporção de danos causados pelo tal ‘complexo desportivo-industrial’ é bem menor, na medida em que a superexposição cria um paradoxo: as coisas ficam obrigatoriamente mais transparentes. Há mais mecanismos de controle. Vamos aos casos extremos de celebridades. Nem Messi, nem Cristiano, como por aqui o Neymar, tiveram um berço de ouro, uma educação exemplar. Saltaram ainda jovens para um mundo muito especial, em que os sonhos de popstar se cumprem com o trabalho que eles fazem com gosto em campo. Em troca, eles são obrigados a abrir mais suas vidas. Eles são exemplos para os surgem agora? Claro que são. Quem não quer ser um Messi no mundo futebol? Ou seja, o ‘complexo desportivo-industrial’ pode muito bem ser uma escolha de vida e o sujeito não entra nesse mundo achando que será uma travessia suave. Uns aguentam, outros não. Claro que há fatalidades, mas como em qualquer atividade humana.

Carles: E não entrar nele, nesse ‘complexo desportivo-industrial’, pode ser uma escolha também, mesmo que isso suponha ser preterido ao ‘Balón de Oro’ ou renovar por menos milhões, mas em compensação poder tornar o sujeito um pouco mais dono do próprio nariz. O exemplo é claro, nosso personagem de ontem, Iniesta. Nem acho que as vidas do Messi ou do Crsitiano sejam tão transparentes. À parte da genialidade, que não é pouca coisa, eu diria que suas vidas relativamente planas facilitam a sua escolha para o Olimpo. Ou talvez seja justamente o contrário. Resumindo, não acredito que o futebol esteja isento nem menos ameaçado pela sombra desse complexo, mas sim acredito que em um esporte tão popular as máquinas que fabricam os mitos sejam muito mais competentes.

Edu: Não está isento, muito ao contrário. Insisto em que o futebol é só uma extensão da vida. Enke se matou porque era depressivo. Armstrong se dopou porque queria ganhar tudo – e dinheiro principalmente. Um não suportou conviver com suas angústias. O outro deu sucessivos golpes para se manter no topo. Eles são vítimas do ‘complexo desportivo-industrial’?

Carles: Sim, tudo o que acontece no futebol acontece na vida, mas o meu vizinho pode ser depressivo e eu nem sei. Ele não está nas manchetes que expõem e magnificam. Outra faceta do futebol é a sua capacidade de construir e derrubar mitos a cada 3 ou 4 dias, ou seja, a cada rodada. Descaradamente os clubes e os craques “entram e saem das crises” ao bel prazer das manchetes. Estas precisam de alternâncias para combater uma eventual monotonia. Outros esportes estão sujeitos à análise do desempenho a longo e médio prazos e, por isso, seus ídolos podem demorar muito mais para receber a sua dose de antídoto, não acha?

Edu: Há muita gente depressiva no mundo, nem tanto quanto golpistas e fraudadores como o Lance. Acontece que isso nada tem a ver minimamente com o futebol, nem com o esporte. O futebol é até puro na essência. Tem muito menos aberrações do que poderia. E quem cria e derruba mitos evidentemente não é futebol em si.

Carles: Imagino que mais do que diferenciar o futebol dos outros esportes quanto à construção de mitos, você busca mostrar que no caso Armstrong existe uma premeditação do próprio. No caso de moços como Messi e Cristiano, cujo grande desejo é alcançar o ponto máximo na sua profissão, o que prevalece é uma manipulação externa. É isso? É essa talvez a grande diferença entre esses meninos de 14 anos aos que se acena com a grande oportunidade da vida deles e o oportunista, não?

Edu: Quero dizer é que o futebol, por alguns motivos, e um deles é a superexposição, tornou-se menos vulnerável a essas aberrações. E quero dizer principalmente que tudo é uma questão de formação humana, estrutura pessoal, como em qualquer sistema de convivência e em qualquer profissão ou circunstância social. Ha golpistas e vítimas em todo canto, mesmo onde não há nenhum ‘complexo industrial’ envolvido na história. Se o cara é estruturado e capaz de suportar um revés – como, por exemplo, Messi parece ser – ele segue adiante. Do contrário, surgem os Lances e Pistorius. Não, o futebol como sistema não é de jeito nenhum um paraíso imune a golpistas. Longe disso. Só estou falando de aberrações pessoais, de seres humanos.

Carles: É possível, mas todos, sem exceção, são ídolos de barro, e estão arriscados a quebrarem ao menor esbarrão.

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