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África, a terceira via

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de março de 2013 | 09h28

Carles: Historicamente e principalmente nas últimas décadas, a África ameaçou por algumas vezes transformar-se na terceira força continental do planeta futebol. Será que os problemas são os que todos desconfiamos ou é só uma questão esportiva?

Edu: Não mesmo, definitivamente. Se contarmos a quantidade de grandes seleções e grandes jogadores formados ali nas últimas duas décadas e meia –  desde que Camarões deu uma canseira na Inglaterra nas quartas de final da Copa de 90 – , ficaria difícil explicar como o continente ainda não se tornou uma potência do futebol.

Carles: Continua sendo um celeiro de craques e, recentemente, de jogadores também de equipe, dezenas de jogadores de meio de campo, do tipo carregadores de piano. Em alguns momentos, seleções como o próprio Camarões, Nigéria, Senegal, Costa de Marfim chegaram a parecer suficientemente competitivas como para postular posições de pódio. No entanto, parece que vão perdendo suas chances e etnias aparentemente com menos vocação natural como a Ásia , à base de insistência e investimento, tomam à frente por se opor à hegemonia da Europa e da América do Sul.

Edu: Se pensarmos só em material humano e ignorarmos os investimentos asiáticos, teremos um dado impressionante: dos dez jogadores mais bem pagos do futebol, três são africanos, Eto’o, Yaya Touré e Drogba. E, hoje, Eto’o ganha mais que Messi e Cristiano, é o jogador mais bem pago do planeta. Isso significa que a África Negra já está entre os melhores do mundo. Mas…

Carles: A célebre frase do Eto’o quando chegou ao Barça talvez seja definitiva: “Vengo a correr como un negro para poder vivir como un blanco”.

Edu: Quem se destaca sai, ao menor sinal, à mínima possibilidade que surja. As cisões internas, crônicas, em muitos países somam-se à penúria social que impede qualquer projeto de organização que segure os talentos por lá. Poderíamos enumerar aqui uma dúzia de motivos para os caras subirem para a Europa.

Carles: Nem acho que o problema seja a emigração dos talentos. Não deixa de ser um estágio de aprendizagem e aperfeiçoamento, mas sim as carências que se deixam para trás. A contínua dependência das pobres infraestruturas da benevolência de quem se destaca e vai jogar no planeta branco. Exemplos como as fundações do próprio Eto’o ou de Kanouté parecem paliativos insuficientes. Importantes, mas insuficientes.

Edu: De outra parte, não há nenhum mecanismo nos órgãos oficiais do futebol que assegure projetos sustentados na África. Geralmente, o que é feito tem caráter assistencialista e beneficia regiões politicamente ‘adaptáveis’, para usar um termo leve. A Fifa faz uma coisinha aqui e outra ali para limpar a consciência, mas é dolorosamente demagógico.

Carles: Exato. Assistencialismo, benevolência… Iniciativas individuais.

Edu: O pior é que muitas áreas dependem justamente dessa ajuda individual. Drogba também comanda ações humanitárias em muitas regiões paupérrimas da Costa do Marfim. Todo jogador da África Negra que atinge um certo status tem lá seu projetinho, sua forma de ajudar. Mas a verdade é que são atividades que jamais vão mexer na estrutura, embora sejam bem-vindas.

Carles: Verdade. Um passo importante é a consciência desses craques, o reconhecimento das raízes e a manutenção do vínculo. Mais importante talvez que as ajudas em si. É uma luta pelo crescimento sem perder a identidade. Não creio que uma tentativa de imitação do modelo europeu pura e simples seja a solução definitiva, sob o risco de não ser duradoura e de o futebol africano perder um traço importante, a essência do futebol negro que chegou através de outras latitudes, mas cuja verdadeira identidade está na África.

EduA encruzilhada do futebol africano é exatamente essa. Os países onde surgem supercraques e alguns mitos mesmo, como Roger Milla, têm como privilegiar a formação esportiva se outros segmentos da sociedade carecem de condições mínimas para seguir adiante? Como compatibilizar uma atividade com tal nível de congraçamento coletivo como o futebol com as dificuldades básicas de sobrevivência cotidiana? Eu diria até que em muitas regiões do Brasil já tenhamos vivido algo parecido em tempos passados e politicamente mais bicudos. Se imaginarmos que certas regiões africanas ainda são palco permanente de guerras civis dilacerantes, tanto pior…

Carles: As dificuldades políticas na África têm outras matizes, mas nem por isso menos complicadas. O colonialismo é evidente. Isso é cruel, mas mais fácil de reconhecer. O primeiro passo foi que esses craques que citamos poderiam ter escolhido defender outras seleções mais poderosas e acabaram preferindo os seus países de origem, alguns inclusive circunstancialmente não nascido nos seus territórios. Mas a identidade vigora. Já houve diversos casos de jogadores que atuam nas ligas europeias que voltaram de temporadas com as suas seleções na África com malária. E há o recente caso do atentado à seleção de Togo em Angola. É um risco assumido frente à tentação de tentar esquecer e deixar para trás uma realidade pouco animadora.

Edu: Até acredito que as estrelas e alguns jogadores de nível médio tenham essa consciência de identidade, Carlão. Mas há uma imensidão de anônimos que abrem mão de suas origens para tentar fazer carreira nos lugares mais improváveis, a Ucrânia, o futebol polonês, os nórdicos, a Islândia. E jogam por qualquer tostão, em equipes que disputam terceira e quarta divisões. Jogam por sobrevivência. Esses não voltam mais, na maioria das vezes por falta de condições. Acho que ninguém faz ideia do número de africanos anônimos que correm pelos campos do mundo.

Carles: Sem querer entrar em estereótipos, acredito que se existe uma região onde se preserva de alguma forma a essência da transmissão do conhecimento e das técnicas é dentro das culturas africanas. O escritor e etnologista malinês Ahmadou Hampaté dizia que na África, quando morre um ancião, uma biblioteca se queima, sem a necessidade de se incendiar nada. Acho que essa é a chave. Essa responsabilidade ou compromisso que não vejo nos nórdicos ou países europeus do leste. Mas claro que o oportunismo existe em qualquer lugar.

Edu: Não estou dizendo que o sujeito que queira uma vida melhor na Europa tenha que renegar suas raízes. Mas se para ter uma comidinha básica na mesa ele tiver que jogar sobre neve o resto da vida, vai morrer fazendo isso. Mesmo que suas convicções culturais sigam imaculadas. E lamento: não será a nossa geração, quem sabe nem a dos nossos filhos, que verá um africano ser campeão mundial.

Carles: Uma pena.

 

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