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Alemanha: consistência e craques contra um estigma

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

15 de fevereiro de 2014 | 20h41

Carles: Teve um tempo em que se definia o futebol como um esporte em que jogavam 11 contra 11 e que ganhavam os alemães. Não mais, né? Principalmente se encontrarem a seleção brasileira ou a espanhola pelo caminho.

Edu: Esses alemães de hoje podem ter pouco menos confiabilidade, mas são muito mais imprevisíveis e um time agradável de se ver. Quem ousaria dizer que não estão entre as quatro melhores seleções do mundo? Ninguém, provavelmente.

Carles: Verdade, a fantasia, como diria o locutor espanhol, foi-se incorporando ao futebol alemão, na medida em que a sua sociedade também foi experimentando o variado sabor da multiculturalidade. É uma das melhores seleções sem dúvida, por individualidades e por conjunto, mas não me atreveria a dizer que é uma das quatro favoritas ao título.

Edu: Só pra contrariar, mas tudo bem. Tem um componente da tradição da melhor estirpe alemã nesta seleção. Tudo começou a se formar com o time de 2006, ainda muito jovem, e em 2010, deu a impressão de que ninguém se decepcionou com a derrota na África do Sul. Agora, Joachim Löw tem o time pronto, maduro e rodado, com base em um clássico pressuposto germânico: consistência. Com isso e três ou quatro cracaços, já me basta.

Carles: Não é só para contrariar não, só acho que, sem tirar sua razão quanto ao ponto ideal em que se encontra o time de Löw, os alemães vão ter muitas dificuldades e vão se sentir pouco à vontade, tão longe de casa e durante tanto tempo. Questão de predisposição, inclusive. Basta dizer que os piores resultados deles na história dos campeonatos mundiais entre seleções, além das decepcionantes campanhas na França 1934 e 1998 (eu teria também algumas teses pessoais para explicar isso),  foram na América do Sul, sexto no Chile/1962 e na Argentina/1978. Bom, teve também a Copa no Brasil em 1950, da qual a Alemanha foi excluída pelo conflito bélico. Só isso já seria motivo para uma participação espetacular.

Edu: Mas essa era dos dinossauros das copas não conta, havia muitas outras questões em jogo que pouco tinham a ver com a bola rolando apenas. No futebol moderno, os alemães se acostumaram ao poder, tanto quanto em outros segmentos, e vocês espanhóis têm sentido isso na carne. Construir um centro de treinamento, montar um pequeno bunker na Bahia para abrigar até mesmo as famílias dos jogadores e fechar acordos comerciais que garantam ao time uma preparação de luxo não me parece que sejam providências muito normais para quem quer tirar umas férias. Eles vêm para quebrar essa sina de que jogam mal longe de casa e nem acho que o grupo da primeira fase os assusta. Mesmo contra Cristiano na estreia e dois adversários complicadinhos na sequência – Gana e EUA.

Carles: Aqui é o quintal deles, não conta. Quando tem crise, em vez de voar de férias para um destino exótico, os alemães pegam o Mercedes e vêm para cá pegar um vermelho nas praias do Mediterrâneo. Para você ver que, pelo menos, eles detectaram o problema crônico de adaptação, tanto que desta vez planejaram fabricar seu pequeno planeta em meio à Bahia. Repito que também não lhes faltam razões de peso em campo: Neuer, Lahm, Hummels, Kroos, Götze, Schweinsteiger, Özil, Müller ou Reus são craques que eu não hesitaria em contratar para o meu time. Isso sem contar os sempre efetivos Mertesacker, Khedira, Schürrle… Com a grande vantagem que a maioria é cria de Löw. No papel, realmente, as possibilidades são enormes, talvez o melhor plantel entre os 32. Mas dependendo de qual Cristiano eles encontrarem pela frente em Salvador, a coisa pode se complicar logo na estréia – se for o de Estocolmo, perigo!

Edu: Então concluímos o quê? O melhor plantel, a melhor estrutura, um histórico invejável e uma ânsia incontida de poder… É ou não é favorita? Porque se os alemães demonstrarem no Brasil que ‘amarelam’ longe de casa é o caso de Franz Beckenbauer e Lothar Matthaus pegarem essa molecada e dar uns cascudos. Não acredito. Nem que Merkel em pessoa tenha que baixar no bunker com sua habitual ‘energia’, se é que você me entende. Sim, porque certamente ela não vai perder a chance de estar por aqui.

Carles: Pois é, se fosse assim de fácil, nem precisava entrar em campo para disputar, nem tinha sentido a gente ficar discutindo as possibilidades de um e de outro. E até que eles me desmintam em campo, seguirei acreditando numa passagem dos alemães pela Copa do Brasil 2014 sem pena nem glória e não porque eu entenda que La Roja volte a ser a pedra na chuteira germana, como nas duas últimas vezes que se encontraram (e pelo que torço, claro). Mas porque ainda acho que eles sempre encontram muitas dificuldades de se mexer em terreno desconhecido e por isso não os incluo na minha lista de favoritos, apesar de todo o planejamento. Se planejamento garantisse vitória, não teríamos o atual glorioso pentacampeão do mundo, não acha?

Edu: Fico me perguntando até quando os brasileiros terão que ouvir isso… mas já devia estar acostumado. Quanto a time do Löw, vou mais longe: cravo os alemães na final.

Carles: Digo mais sobre o mito do planejamento alemão, tão decantado por alguns na Europa atual, com ‘Fraulein Eiserne’ à frente. Nem conseguiram melhorar os índices econômicos, nem evoluíram os direitos sociais na chamada “locomotiva continental”. É tudo uma farsa, inventaram os tais mini-jobs e a regressão social foi notável. Menos para o grande capital, é claro. Só por essas razões sou capaz de torcer contra. Mas digo isso principalmente para poder explicar que não me refiro à falta de planejamento como um insulto, mas como uma razoável consideração ao valor do fator humano. Esse sim essencial, mesmo tendo em conta a importância de uma cota de previsão. Dito isso, viva o caos e que venha uma grande final, com duas seleções latinas.

Edu: Conseguiu contornar bem… Também torço por latinos na final, mas devo ter convivido demais com o realismo alemão em outras vidas.

Carles: Às vezes desconfio, mesmo.

 

 

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