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Andrés Iniesta, o espírito livre

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

18 de fevereiro de 2013 | 06h29

Carles: Na sexta-feira, antes do início da rodada de final de semana de ‘la Liga’, alguns órgãos de comunicação, talvez por falta de assunto, perguntavam: onde joga o melhor Iniesta, no meio ou na frente? O que vocês acham do Iniesta por aí? Entendem que ele pode ser um dos destaques da próxima Copa?

Edu: Pode não, será. Até o Messi pode estar em seus dias ruins, Neymar é extremamente irregular, Cristiano Ronaldo também tem suas fases de baixa (se é que Portugal virá). Iniesta? Por favor… O pior Iniesta é sempre uma atração, será um destaque mais do que especial, obrigatório. O Brasil do futebol real adora o Iniesta.

Carles: Essa discussão sobre o melhor posicionamento me fez pensar sobre os pontos do campo, e não necessariamente os jogadores, desde onde, ao longo a história, se “fabrica” futebol. Na ‘Roja’, por exemplo, o Xavi foi consagrado nessa função de alimentar os atacantes desde a linha intermediaria, ou o Xabi Alonso, um jogador normalmente posicionado mais atrás e acostumado aos passes parabólicos, longos e com alguma precisão. Mas observo que Iniesta além da classe e sutileza natural do seu jogo, demonstra uma quase exclusiva modernidade, seja como teórico ponta esquerda (hoje, ala) ou pelo meio, sempre busca encontrar o espaço ideal para esse trabalho.

Edu: A análise do Iniesta é bem diferente da do Xavi e talvez por isso eles se completem tão bem. Xavi só faz o que existe de mais simples no futebol, mas com perfeição – o passe, o chute colocado, a associação com um colega em apuro, a infiltração sorrateira. Tudo muito simples. Iniesta consegue unir simplicidade e sofisticação ao mesmo tempo. Não é veloz, mas tem explosão – ‘cambio de ritmo’ como vocês dizem. Não é artilheiro mas é decisivo. Não chuta forte, mas marca gols de qualquer lugar do campo. Tudo com uma fineza extrema de movimentos; E sobre esse problema dos espaços: ele precisa de espaço, como qualquer craque, mas, se não tiver, ele se vira do mesmo jeito, esteja certo. Essas virtudes projetadas em um time entrosado compõem a química ideal.

Carles: Pode parecer uma heresia, mas ao ver o Andrés, é inevitável recordar alguns ídolos da juventude, meio-campistas como Gérson ou Rivelino, muito mais estáticos em campo, especializados em explorar, com a precisão de seus passes longos, a previsibilidade das defesas em “linha burra”. Por isso, além da inegável qualidade, o jogo do Andrés chama a atenção pela flexibilidade, pela capacidade de adaptação às circunstâncias da partida, pela autonomia responsável dentro da equipe. Os antigos “armandinhos”, brilhantes para a época, muito mais ao feitio do quarterback, ainda seguem sendo um modelo para alguns, mas na essência e não no estilo, o Iniesta é o Rivelino de hoje.

Edu: Essa associação com os armadores clássicos se encaixa principalmente na questão da visão de jogo. A diferença é que Iniesta é tão prático em algumas coisas, e tem reações tão precisas, que faz o futebol moderno parecer antigo, no melhor dos sentidos. Imagine se ele tivesse o chute do Riva? Ou o preparo atlético do Cruyff? Não, nem precisaria. Ele não seria o Iniesta.

Carles: Você falou da condição física, talvez seja o grande problema dele, a frequência de contusões sobretudo as musculares, porque ao ser esse espírito livre do futebol, é possível que não pensou em preparar-se fisicamente para os tempos que correm no esporte de alta competição. Aliás alguns os jogadores sul-americanos de qualidade quando chegam à Europa tem que se reforçar no aspecto físico e invariavelmente isso implica uma necessidade de readaptação do seu jogo. Não me refiro à readaptação tática que isso é uma obrigação. O que me interessa é averiguar qual é a cota de fracassos que se deve a esse imposição. E imagino que nós estamos perdendo a chance de ver a evolução de uma grande quantidade de talentos.

Edu: É o receio que muitos têm aqui quanto ao Neymar. Ele vai segurar a onda na parte física? Ficar forte será prioridade para ele ou para o time que o contratar? Ficar forte vai significar perda de qualidade técnica? E, por fim: ele precisa mesmo ficar forte?

Carles: Essa última é a questão central, como apreciador do bom jogo também tenho dúvidas quanto a essa necessidade de fortalecimento excessivo, mas temo pelo jogador que não esteja minimamente protegido.

Edu: Eu já acho que ele tem que encarar. Quer ser grande? Quer ser Ronaldo Fenômeno? Sonha em ser o melhor do mundo? Então, que encare essa parada, que enfrente as feras. E brigue por manter suas características. Ou então fique por aí fazendo um monte de gols no Botafoguinho de Ribeirão. Com todo respeito.

Carles: Uma última coisa sobre a tentativa de preservar o romantismo no futebol através da figura simbólica do Andrés diz respeito à personalidade dele, o bom moço tem lugar nesse futebol? Quem sabe tenhamos que reconhecer que o xerifão é um mal necessário para que os espíritos livres possam seguir nos deslumbrando…

Edu: A propósito, a tal discussão da mídia mediterrânea sobre onde é o melhor lugar para o Iniesta tem uma resposta fácil: no meu time.

Carles: Por cima dos cadáveres de milhões de ‘culés’ do mundo inteiro.

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