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Antes e depois de Seedorf

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

15 de janeiro de 2014 | 18h28

Carles: Até acho que Clarence Seedorf pode chegar a ser um bom treinador, pela experiência, pela personalidade e mesmo pela franqueza. Só não sei se me arriscaria a começar com esse verdadeiro rabo de foguete que é o Milan. Também acho que é um risco para o Milan, mas o clube rossonero, parece, quer se especializar em tomar as decisões mais excêntricas e às vezes impopulares, bem ao estilo do seu “Il cavaliere”.

Edu: Se bem que chamar Seedorf parece ser uma mistura da idiossincrasia da família Berlusconi com o apelo popular, também pelo fato de ser esse rabo de foguete que necessita de alguém de impacto, uma ruptura. Do ponto de vista de ‘Il cavaliere’ é como sempre um golpe de cena, mais do que solução técnica. Mas o Seedorf que conhecemos melhor nesta passagem pelo Botafogo é ao mesmo tempo um diplomata e um duro negociador. O mundo do futebol não está muito acostumado a essa franqueza a que você se refere e, por isso, gera respeito. Daí, quem sabe sem querer, os honoráveis Barbara e Silvio Berlusconi podem ter acertado. Mas logo virá a questão de consertar o time, o que é outra história, bem diferente.

Carles: Time, grupo, plantel… são palavras que eu, particularmente, evitaria utilizar para me referir ao Milan, que muitas vezes me parece mais produto de arroubos pessoais ou familiares do que decisões técnicas ou esportivas. Mesmo assim não dá para negar a grandeza dessa instituição e o respeito que ainda gera essa camisa e seus inumeráveis títulos. Além dos tradicionais “mais do que um adeus é um até logo” ou “deixo parte da minha vida aqui”, aproveitando essa franqueza de Seedorf que mais ele deixou na despedida do Botafogo? Imagino que, por enquanto, é só entusiasmo.

Edu: Deixou vínculos consistentes, sem precisar de pieguices, nem dizer obrigatoriamente que um dia vai voltar. Mas certamente voltará pelos laços que criou e pelas relações familiares. Por exemplo, sua conexão com o Bom Senso foi muito forte, teve influência direta sobre as lideranças e se mostra disposto a seguir colaborando, o que é trunfo importante para a rapaziada mais ativa. Seedorf também acompanhou de perto a base do Botafogo e, mais além das muitas homenagens que receberá no clube, vai funcionar sempre com um grão-vizir, um consultor internacional. Imagino ainda que, para um jogador desse nível, a experiência brasileira seja algo totalmente inusitado e que foi uma via de mão dupla, que enriqueceu os dois lados. Na saída, ficou claro que estávamos vendo outro Seedorf em relação àquele bem mais desconfiado que chegou por aqui em meados de 2012.

Carles: Natural que ele chegasse desconfiado como pioneiro que foi dessa reviravolta na tendência viciada do mercado de contratações. Também é normal que ele tivesse levado na bagagem receios, produto daquelas tradicionais recomendações e conselhos, muitos deles próximos à lenda urbana e outros, certos. É assim com todo emigrante, imagine no caso dele. A pergunta é: passada essa experiência, você acha que ele superou parte dessa desconfiança com relação ao esporte ou ao futuro do futebol brasileiro? Essa desconfiança tem a ver com a experiência pessoal dele no país e com o clube ou com a aventura quase em terreno virgem do Bom Senso?

Edu: A desconfiança tinha relação com a própria opção pessoal pelo futebol brasileiro. Talvez tenha sido mais cuidadoso do que desconfiado e nesse ponto ele cansou de dizer que muito do que imaginava ou temia foi revertido, o que não deixa de ser uma visão otimista. E reconheceu que a vivência no Bom Senso foi algo inusitado mesmo numa longa carreira de jogador multinacional, com uma visão cultural bastante lúcida do futebol e uma formação pessoal que tem tudo a ver com suas origens – um negro, nascido Suriname, educado na sociedade holandesa e com profunda vivência em países latinos. O certo é que existia um Botafogo antes de Seedorf e agora existe outro, repaginado, mais consciente. Mas também é certo dizer que Seedorf é outro depois da experiência brasileira. De certa forma, uma faceta do futebol brasileiro também tem um antes e um depois de Seedorf.

Carles: Deve ter sido muito mais enriquecedor poder conviver com essa verdadeira amostragem viva de diversidade cultural durante um ano e meio, principalmente pela capacidade de assimilação e análise que mostra Seedorf, muito pouco comum entre os colegas do que por exemplo, do que com a experiência que possam ter levado jogadores com larga vivência na Europa, como por exemplo Luís Fabiano ou mesmo Denílson, não?

Edu: Ah sim, mas é uma comparação um tanto cruel por causa da amostragem e por se tratar de Seedorf. Centenas de brasileiros vão para a Europa todos os anos, há os que efetivamente mudam, aproveitam, enriquecem culturalmente. Mas também há os que vão apenas trabalhar, como em um período de férias às avessas, e estão sempre com a cabeça voltada para um único lado. Não que isso os torne menos profissionais, mas é um evidente desperdício não absorver as coisas locais, sem que seja preciso desconsiderar as raízes. Talvez por essas razões algo me diz que Seedorf vai funcionar muito bem como técnico, saberá trabalhar com os jovens e de todas as origens, e terá suficiente moral para transmitir seus múltiplos conhecimentos. Se vai conseguir consertar este Milan? Só com uma pequena revolução.

Carles: Pelo que vejo, ele deixou uma excelente impressão por aí. Espero que esse seja só o começo de uma tendência que permita equilibrar um pouco a balança entre os dois continentes. Estou seguro de que intercambios como esse podem ajudar – e muito – na vontade de compreender reciprocamente, os valores culturais alheios. É uma boa possibilidade de trocar as visões estereotipadas por outras, muito mais realistas. Quanto à nova aventura em Milão para a família Seedorf parece ser uma espécie de recomeço. Já que, quando eles saíram de lá, pelo visto, havia um certo desgaste. Quem sabe em grande medida graças a essa mistura de aparente autossuficiência e franqueza tão características de Seedorf. Para começar ele vai encontrar um vestiário carregado de personalidades tão díspares como Balotelli, Kaká, Robinho e Rami. Assim de bate pronto, não imagino ninguém mais adequado para começar essa pequena revolução.

 

 

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