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Antídotos para a ‘vendetta’ da Azzurra

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de junho de 2013 | 20h45

Edu: Você tem certeza de uma vitória da ‘Roja’ na semifinal?

Carles: Contra a Azzurra? Nenhuma certeza, mas boas possibilidades. O time vem bem, apesar o sufoco da Nigéria, justamente em Fortaleza, cenário do jogo, e da indisposição física de muitos jogadores espanhóis. Busquets, como bom jogador de várzea que é, aguentou, mas foi muito para Cesc. Também é certo que as condições climáticas serão as mesmas para os dois times, só que alguns jogadores, lembrando do esforço, provavelmente tentarão economizar forças de início. Menos Jordi Alba, claro.

Edu: Hoje, conversando com Juan Arias, correspondente no Brasil de ‘El Pais’, e André Rizek, do SporTV, lembrávamos de quantas vezes a Azzurra parecia morta e ressurgiu das cinzas. Em 1982, empatou os três primeiros jogos, fez apenas dois gols, entrou numa guerra fratricida contra a imprensa italiana. E foi tricampeã mundial aí na sua terra. Em 2006, vivia o baixo astral dos escândalos de resultados combinados de Luciano Moggi, tinha muito menos time que a França. E foi tetracampeã. Agora, perdeu Balotelli, o time está esfacelado fisicamente, pode não ter Pirlo e ainda terá que jogar com o cone Gilardino no ataque. Merece atenção, muita atenção.

Carles: E se for por falta de escândalo à italiana, tem o Berlusconi condenado a sete anos de prisão. Se bem que os meninos campeões do mundo não ficam atrás nesse quesito e arrumaram um “Golden Tulip Gate”, lá no Recife.

Edu: Bem mais suave que ter um Berlusconi na vida.

Carles: Já veremos se o desfecho será suave. Voltando ao espírito épico dos italianos, é sempre um perigo mesmo.

Edu: E agora tem o componente da ‘vendetta’… Acho que eles não engoliram ainda aquele massacre da final da Euro do ano passado. Se bem que o cara que mais falou disso já se mandou, justamente Balotelli. Outro dia, logo que a Confecup começou, De Rossi disse com todas as letras que tinha inveja do futebol da Espanha. Se entrarem respeitando muito, tomam outra ensacada.

Carles: Outra ensacada é pouco provável. Agora eles vêm a Espanha com outros olhos, devem ter um plano B. A torcida do lado espanhol é para que se mantenha o goleiro que atualmente está em melhor estado de forma e que Silva, que sempre faz grandes partidas contra a Itália, mas que não é muito do gosto do Del Bosque, entre desde o início. Não garante a ensacada mas seria um muito bom começo para a vitória.

Edu: Que goleiro? Valdés?

Carles: Você tem dúvidas?

Edu: Tenho muitas dúvidas. É o Marquês, Carlão, vai jogar Casillas que é da família. E se Cesc estiver bem, o time deve entrar sem o ‘9’. É meu palpite.

Carles: Pois o meu é que o Del Bosque, que vê a aposentadoria bem pertinho e tem os dois grandes títulos com a seleção, seguirá arriscando. Por isso deve começar jogando com um ‘9’ e com Casillas, que além de não ser justo é um risco, porque Iker pode sentir a falta de jogos e de ritmo. Valdés, ao contrário, está no seu melhor momento da carreira. E que fique claro que minhas preferências culés não me cegam a ponto de não reconhecer que Iker foi, em forma, o melhor goleiro do mundo.

Edu: Justo não é mesmo. Mas Casillas ainda tem aquela carga simbólica das relações surpreendentemente fraternais com a Catalunha demonstradas com os múltiplos abraços em Puyol e Xavi depois do Mundial da África do Sul. Aquela talvez seja a imagem mais marcante dos últimos anos para uma parte da sociedade espanhola que nunca imaginou ver Madrid e Catalunha em tamanha harmonia.

Carles: E não sse esqueça da polêmica com Mourinho, pela chamada telefônica a Xavi para reconciliar merengues e blaugranas, seguido do Prêmio Principe Astúrias conjunto (para Iker e Xavi). Eu queria ver essa paz e esse desejo de servir a seleção nacional espanhola se o time não fosse tão ganhador. Não se engane, a harmonia é circunstancial. Contra a Nigéria foram nove jogadores do Barça, se bem que Villa não é catalão. A Catalunha vai conquistando uma autonomia esportiva cada vez mais encorajadora.

Edu: Me lembro bem da imagem na madrugada do dia 12 de julho de 2010, poucas horas depois do gol de Iniesta contra a Holanda: o basco Iñaki Gabilondo narrando com júbilo, e um certo constrangimento, pela TVE, a festa nas ruas, juntando bandeiras de todas as regiões do país. Uma grande ‘movida’ coletiva para comemorar título mundial inédito. Iñaki, quase 70 anos, dizia: ‘Nunca vi uma coisa dessas’.

Carles: Portanto, você está de acordo comigo: nada como as vitórias para reunir. Assim mesmo, hino nacional espanhol segue sendo vaiado em muitos dos eventos esportivos na Catalunha e em Euskadi (País Vasco). Claro que, agora, todos os territórios compartilham a mesma nuvem negra social, política e econômica.

Edu: Começamos com a Itália e terminamos com a velha, e nada boa, situação espanhola pós-crise. Faz parte do jogo.

Carles: É o que dá conversar com espanhol e, pior, com sangue catalão, embora alguns, como Pep, possam responder em alemão.

Edu: Amanhã falaremos de Pep…

 

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