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Aos paladinos ‘anticontaminação’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de outubro de 2013 | 19h29

Edu: Graças a mais uma pérola do Felipão, que voltou a acenar com a convocação do Diego Costa, os arroubos nacionalistas recrudesceram por aqui e por aí também. Para essa corrente, o futebol pode sair contaminado, virar um caos, se a porta abrir de uma vez e gente de todo lado buscar seu lugarzinho em alguma seleção.

Carles: Entre o sensacionalismo de alguns meios e uma desinformação generalizada, o debate está magnificando um fenômeno que não é novo, tem mais ou menos a idade do futebol. Na verdade, a “invasão” se multiplicou por mil nos clubes e numa proporção irrisória nas seleções.

Edu: Nos clubes não tem mais freio, não tem como controlar.

Carles: As seleções nunca vão mover tanta grana como os clubes, portanto, nos combinados nacionais, o fenômeno nunca vai ser nessa progressão geométrica. Se a gente considerar o caso das seleções-produto como, por exemplo, a Brasileira e seu mecenas, a Nike, o mais provável é que o anunciante nunca um esforço em ter “estrangeiros” vestindo a camisa do patrocinado. Portanto, os interesses comercias, na verdade, tendem a frear esse processo.

Edu: A Fifa é a primeira interessada em estimular as seleções, lógico. Do contrário ela mesma perderia o sentido.

Carles: Claro.

Edu: E tem uma perspectiva histórica que a maioria não leva em conta: quanto mais globalização, mais mescla de origens, isso ninguém do esporte vai conseguir evitar porque não é no futebol, é na vida, no cotidiano. Por isso é impossível que não respingue no futebol. Mas, nesse ponto específico, vai ficar no respingo, porque o futebol vai rejeitar uma imensa mescla de nacionalidades, como aliás já rejeitou desde os tempos do Di Stéfano. Dificilmente vai passar de um ou outro caso. Aliás, isso já existe nos esportes olímpicos, muito mais do que no futebol.

Carles: Impressionante, o barão de Coubertin deve estar se retorcendo lá onde estiver. Nas modalidades olímpicas, o “comércio” de atletas é bem maior, a repercussão é muito menor e as formas de sedução, muito mais imorais, baseadas em ofertas aos atletas em formas de instalações e equipes técnicas para treinar e, portanto, muitas vezes, utilizando infraestruturas públicas, construídas para atender a população e não o esporte de alto rendimento. Cria-se um vínculo tão grande que acaba até havendo uma reciprocidade política. Vários foram os atletas cubanos “convocados” para defender a equipe espanhola. Tenho um exemplo bem próximo, da saltadora a distância Niurka Montalvo que competindo por Cuba mostrou suas  qualidades – ela não defendia nenhum clube espanhol, nem morava desde jovem na Espanha. Em 1999 foi naturalizada espanhola e, como ela, muitos outros atletas, pelo interesse do governo do Partido Popular de Valencia em formar uma equipe de atletismo forte, poder construir pavilhões, administrar cotas de patrocínio, etc. Pois bem, Niurka, depois de se aposentar como atleta, permaneceu vinculada ao PP, com direito a um ou outro cargo. A última notícia dela é que estava sob um processo judicial, junto com outros implicados da esfera do partido no famoso caso Gürtel, por fechar contratos públicos como gestora, sem nenhuma concorrência. Acho que no caso do futebol profissional, é muito mais uma questão de sensacionalismo do que uma grande tendência real. São casos eventuais, totalmente assimiláveis.

Edu: Essas possíveis relações promíscuas envolvendo os esportes olímpicos não têm necessariamente vínculo direto com a questão técnica em si. É claro que os países que nacionalizam recordistas pensam nos resultados, mas o fato de o atleta se corromper aconteceria da mesma forma – como acontece – em outros segmentos. Ninguém nacionaliza um atleta pensando em torná-lo corrupto, essa é uma iniciativa individual, suponho, o esporte é apenas o veículo utilizado para se chegar ao mal feito. De todo jeito, os esportes olímpicos, estes sim, deveriam começar a se preocupar, e já. Quanto ao futebol, ainda que pareça um delírio imaginar que uma Seleção Brasileira, ou Espanhola, ou Inglesa, daqui a duas ou três décadas seja formada por jogadores de diversas nacionalidades, como é o time do Chelsea ou mesmo o Real Madrid, aqueles que defendem o ‘purismo’ citam o exemplo da Alemanha, que tem em seu time, hoje, jogadores de quatro ou cinco origens.

Carles: Não, claro que não, o exemplo da Niurka é só um caso extremo, uma espécie de vínculo adicional e perecedouro à questão da nacionalização em si. Só que não deixa de refletir o que, em alguns casos, foi uma sistematização em busca de resultados imediatos e, muitas vezes, burlando os prazos normais para a concessão da nacionalidade, obtenção dos passaportes… tudo uma bobagem tão grande como as fronteiras, mas que em última análise, é a legislação que sujeita o cidadão comum e que ele não pode saltar. Atletas como Niurka eram de certa forma, as vítimas, os corrompidos, mas daí à corrupção é só um passo. Quanto à preocupação de que as equipes esportivas nacionais acabem virando conglomerados multinacionais, outra solução seria esquecer de uma vez, essa história de defender a pátria. O seguidor dos esportes, em realidade, o que quer é poder desfrutar do talento, das aptidões e do alto rendimento esportivo desses prodígios. É certo que estamos acostumados a vê-los agrupados em torno a uma camisa, uma bandeira, um escudo ou, faz já algum tempo, um brasão. Inegável que o sentido de equipe parece essencial para manter a emoção de certos torneios. O sentido de pátria, menos, se bem que já estamos muito habituados a ele e, num primeiro momento, não vejamos a possibilidade de torcer sem estar ligados a esse sentimento. Um bom exemplo é a Champions League, competição não isenta de interesses comerciais, um verdadeiro supermercado de craques, mas um torneio sensacional e, de certa forma, democrático. Tem gente de todas as raças, religiões e procedências competindo. E nem todos custaram 100 milhões de euros.

Edu: Não tenho nenhum apego especial à noção de pátria ou aos símbolos nacionais, você ainda menos. Mas não se esqueça de que o futebol se alimenta disso, sim, e o torcedor embarca nessa fuzarca tranquilamente, com todo seu patriotismo. É lógico que é contraditório, porque o torcedor deixa o estádio e no mesmo momento já arremete contra as coisas do país, o governo, que dificulta as coisas do seu dia a dia, a sociedade que tem suas intolerâncias. Mas é assim que funciona quando o assunto é uma seleção nacional. O verdadeiro adubo do futebol não é a grana da Nike nem os contratos do Florentino, mas as rivalidades. Até por isso, acho que as contaminações são inviáveis no contexto das Seleções. Os clubes são entidades fechadas, às vezes com milhares de seguidores, mas sempre fechadas, e funcionam à margem nas nacionalidades. As seleções são amplas, abertas, território mais ou menos livre. Por isso, a Alemanha tem em seu time várias origens, porque é resultado da sociedade alemã de hoje, totalmente repaginada pelas etnias e correntes migratórias. Ou seja, nunca deixará de ser uma Seleção Alemã.

Carles: Pouca gente discute na Alemanha se nas veias de Khedira, Özil, Podolski ou Kloset corre o mesmo sangue do que nas da Merkel. Insisto, a gente se acostuma a tudo. Inclusive já o fizemos com coisas aparentemente mais estranhas do que o fato das seleções nacionais possam vir a ser, na verdade, agremiações. Aliás, seria uma forma menos de manipulação.

 

 

 

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